20ª CineBH - Em “Los Nadadores”, piscinas ensolaradas sopram um alívio ao fim do mundo
Atualizado: 8 de out.
Por Anna Lia | Críticas
Texto escrito em cobertura colaborativa da 20ª CineBH, promovida pela plataforma Sara y Rosa, com revisão e edição de Juliana Gusman e Nayara Aguiar.

Há quem até sonhe com um banho de piscina em dias quentes e calorentos – a água até o pescoço, o frescor aquático, as brincadeiras dentro d’água. Mas, e se fosse o 368º dia de verão, e há três dias a noite não chegasse? A piscina viraria objeto de obsessão, necessidade fisiológica. É dessa premissa que parte Los Nadadores ( Sol Iglesias SK, 2026), filme que encerrou a Mostra Horizonte da 20º CineBH.
A piscina, um símbolo de lazer e ócio, vira alegoria para uma juventude à beira de um fim de mundo ensolarado. Os últimos vôos para sair da Argentina já estão de partida, e o quarteto Maqueta, Rubio, Victoria e Ella encaram as idas, sem ação. O que lhes resta é andar pela cidade abandonada, tentando encontrar algo que refresque o calor infernal. Uma ligação para Victoria sopra um alívio: nas grandes mansões da cidade, abandonadas por seus donos em fuga do país, há piscinas ao aguardo de quem ousar usufruí-las.
Esse encontro entre as personagens e as piscinas, no entanto, se complica à medida que obstáculos intransponíveis são ultrapassados: mesmo abandonadas, os marcadores de classe daqueles que possuem um oásis particular dentro de casa ainda se mantém. Não importa se “essa gente tem a Amazônia no quintal, e não percebem”, se estão há quilômetros de distância de suas casas. O quarteto usufrui da água, mas o aviso se intensifica: só quem é dono pode nadar. Ao resto, sobram os efeitos da onda de calor sob o sol escaldante.
No reflexo das águas de Los Nadadores, joga-se luz a preocupações contemporâneas muito caras à juventude atual, como a impossibilidade de sonhar qualquer futuro e os avanços expressivos do aquecimento global – especialmente suas consequências para países periféricos e camadas mais baixas da sociedade. Ao colocar-se para expressar essas questões (Sol Iglesias SK é tanto diretora quanto atriz em cena, interpretando Ella), o delírio ensolarado do longa-metragem se torna ainda mais denso e interessante. Como bem disse a curadora Mariana Queen Nwabasili no debate após a exibição do filme, com a presença da realizadora e de Valentina D’Emilio (atriz de Victoria e produtora do longa), melhor seria se o título fosse “As Nadadoras”, dada a presença engrandecedora das duas e de suas personagens dentro da obra. Inegavelmente, reverbera a mensagem sobre as condições de produção do filme: feito quando ambas tinham 22 anos e sem dinheiro, expressa a juventude argentina tomando suas próprias angústias pelas mãos e revelando-as em sua arte – por meio de suas referências, recursos e corpos.
As relações de Los Nadadores com outras filmografias ibero-americanas não passam despercebidas, sobretudo por sua estreia nacional num festival dedicado ao cinema latino-americano. Ainda assim, o mundo criado por Sol Iglesias SK é primoroso e inconfundível. Quanto às alusões que o longa faz, a mais marcante delas, especialmente por serem conterrâneas, é La Ciénaga (Lucrecia Martel, 2001), longa-metragem de “uma força que reverbera no audiovisual contemporâneo como um todo, especialmente na tendência do cinema de fluxo” (Souto; Azevedo Lima, 2025, p. 9). Nesse sentido, o tempo dilatado do delírio febril de Maqueta, Rubio, Victoria e Ella (cada vez mais hipertérmico), conversa, mesmo que de maneira particular, com a ficção de Martel. Há até quem diga que Los Nadadores, herdeiro do Nuevo Cine Argentino, poderia inaugurar um “Novíssimo Cine Argentino”.
A conversa com outras obras latinoamericanas se estende, agora com foco no Brasil: ao lado de outros filmes brasileiros contemporâneos – os quais Souto e Azevedo Lima colocam em seu artigo sobre piscinas vazias no cinema brasileiro –, é interessante pensar como este motivo visual também é acionado no longa argentino. Diante da polissemia da piscina doméstica no cinema – “Território ambíguo de afirmação de status, de lazer, sensualidade, mas também pode ser parte de um ambiente doméstico asfixiado, onde se cultiva a ilusão de controle sobre a natureza e sobre as intempéries do clima” (Souto; Azevedo Lima, 2025, p. 9) –, Los Nadadores articula bem esses múltiplos significados. Enquanto as autoras do artigo apontam que, no corpus escolhido, a mensagem do cinema brasileiro é de crise – diferente do cinema mundial, em que as imagens de piscinas costumam se associar ao erotismo –, o filme abarca as duas vertentes com habilidade: o corpo lânguido, suado e desidratado de Sol Iglesias SK e de seus atores também são sinal das tensões de um país e de sua juventude.
Mesmo que a visão de uma piscina vazia tarde a chegar no longa argentino, o processo até vermos essa imagem é iminente. A primeira piscina que o quarteto mergulha quebra por excesso de uso. Assim a alegoria da crise é colocada em quadro: de maneira mágica, ouve-se uma piscina de ladrilhos, cara e luxuosa, esvaziar-se tal qual uma piscina inflável, barata e frágil. Mais adiante, quando resta para Ella e Victoria encherem de água uma piscina com as próprias mãos, balde por balde, o colapso na água rala é o estágio final da onda de calor sobre o corpo. A piscina vazia simboliza o mesmo esvaziamento desesperançoso que sofrem as personagens.
Quando, sob os créditos, a chuva chega, o estado de espera persiste. O céu não chora de alívio – são lágrimas fúnebres. Era e é o fim do mundo.
Referências
Souto, M., & Azevedo Lima, L. (2025). Constelação fílmica e motivo visual: a piscina vazia no cinema brasileiro contemporâneo. Revista Eco-Pós, 28(2), 525–550. Disponível em: https://revistaecopos.eco.ufrj.br/eco_pos/article/view/28310




![Em nova entrevista publicada no site, Anna Lia conversa com a cineasta Denise Vieira sobre seu longa de estreia, Sabes de Mim, Agora Esqueça (2026), que foi exibido na Mostra Horizontes da 20ª CineBH.
A conversa mergulha nas visões da diretora sobre o cinema brasileiro feito a partir da periferia e por mulheres. Denise reflete sobre o processo de construção compartilhado com as atrizes, a urgência de redefinir o cinema popular fora dos padrões hegemônicos e a potência de uma criação guiada pela intuição e pelo erótico que vai em contramão da racionalidade:
“[...] o cinema é um jeito de adentrar em coisas que são complexas e ver sentimentos, lados que às vezes são opacos, podendo adentrar outros universos.”
🔗 Leia a entrevista completa em sarayrosa.com
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En una nueva entrevista publicada en el site, Anna Lia conversa con la cineasta Denise Vieira sobre su largometraje de debut, "Sabes de Mim, Agora Esqueça" (2026), que se proyectó en la sección Horizontes de la 20ª edición de CineBH.
La conversación profundiza en la visión de la directora sobre el cine brasileño realizado desde la periferia y por mujeres. Denise reflexiona sobre el proceso de construcción compartido con las actrices, la urgencia de redefinir el cine popular al margen de los estándares hegemónicos y la potencia de una creación guiada por la intuición y lo erótico, que se aleja de la racionalidad:
"[...] el cine es una manera de adentrarse en cosas que son complejas y ver sentimientos, lados que a veces son opacos, pudiendo entrar en otros universos".
🔗 Lee la entrevista completa en sarayrosa.com](https://scontent-sea5-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/849508579_17937437964390781_2655953640829663480_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=108&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=QvrHfJloTAwQ7kNvwHfj1oT&_nc_oc=Ado7EBzl82ovBo_BOslyb8Cl2CCKbKCUs5BsUqlBbZTgpjAeDPFz2r_VSSuP9whaWQk&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-sea5-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=BloYH9pRDlOVbq3rcA4oxw&_nc_tpa=Q5bMBQLTZxdprPoWE-nuMaVsJ_aJrKQXWKZgoewO23yvibv-hYZvwDvU6wA0se4qjeDsFX3BAdePZtXt&oh=00_AQOPFZ9WTpj5YYPwgHQ92W_Kt1ZAPeKygmzjhOGI8_5zsg&oe=6ADF3E8F)







![A partir da exibição de "Virtuosas" na 20ª CineBH, em novo texto do site, Nayara Aguiar destrincha como a diretora Cíntia Domit Bittar articula as mecânicas do fundamentalismo religioso no Brasil contemporâneo.
Ao articular a lógica de mercado da fé e a vigilância moral exercida entre as próprias mulheres, o texto investiga as raízes dessa violência e a escolha da linguagem do terror:
"É no pathos específico das políticas afetivas deturpadas do fundamentalismo religioso que nasce um moralismo pungente e, desse moralismo, uma violência [...] fria na engrenagem que a arquiteta, quente nas mãos que as executam — um terror naturalista, afinal, onde mais se travaria um filme do gênero senão em Santa Catarina?”
🔗 Leia a crítica completa em sarayrosa.com
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Tras la proyección de "Virtuosas" en la 20ª Muestra CineBH, Nayara Aguiar diseca en el nuevo artículo en el site cómo la directora Cíntia Domit Bittar articula la mecánica del fundamentalismo religioso en el Brasil contemporáneo.
Al vincular la lógica mercantil de la fe con la vigilancia moral ejercida sobre las propias mujeres, el texto investiga las raíces de esta violencia y la elección del lenguaje del terror:
"Es en el pathos específico de las políticas afectivas deturpadas del fundamentalismo religioso donde nace un moralismo punzante y, de ese moralismo, una violencia que la película de Cíntia Domit Bittar transforma en propuesta: fría en el engranaje que la arquitecta, cálida en la mano que la ejecuta — un terror naturalista, al fin y al cabo, ¿dónde más se libraría una película del género sino en Santa Catarina?"
🔗 Lea la crítica completa en sarayrosa.com](https://scontent-sea5-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/825270038_17934869712390781_1812860770498213797_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=106&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=0OWpA3cyJHoQ7kNvwEZTqbj&_nc_oc=AdoI15VTnMdM-PNazziavmibEgG83hASp_AGc-W-7CIE_Ur2OM_t3JR4I_63F5Ml6FU&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-sea5-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=BloYH9pRDlOVbq3rcA4oxw&_nc_tpa=Q5bMBQJrCYnAVl9qP-wmyMLlh0AlqzPL0_fH32mo51mIB6iVJO3mQl4IqAluOEEG5HIqWEnPXmjgEUwn&oh=00_AQNqyKN_xIOmhUlhCPxDdQiDxU_PaqiwInD49PXgelHfRQ&oe=6ADF1B56)





















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