20ª CineBH - Virtuosas, mulheres e os novos sotaques do fundamentalismo
Atualizado: há 4 dias
Por Nayara Aguiar| Críticas

"Virtuosas" termina com uma frase que resume o registro final do filme: depois que Lorena (Lorena Canolo) , esposa de político, e mulher à beira de um ataque de nervos, mata Germina (Maria Galant), ela apenas constata, coberta de sangue e com um olhar distante, mas quase com ternura: "ele não tá mais chorando", referindo-se ao seu filho que, na verdade, havia morrido. Um resquício, o alívio doméstico de calar um choro incômodo, que acompanhou muitas sequências até aquele ponto. É no pathos específico das políticas afetivas deturpadas do fundamentalismo religioso que nasce um moralismo pungente e, desse moralismo, uma violência que o longa de Cíntia Domit Bittar transforma em proposta: fria na engrenagem que a arquiteta, quente na mão que a executa - um terror naturalista, afinal, onde mais se travaria um filme do gênero senão em Santa Catarina?
Com roteiro assinado por Bittar e Fernanda de Capua, o filme acompanha Germina/Lúcia, uma jornalista infiltrada em um retiro chamado “VVV” - ou “Virtuosas VIP da Virgínia" - , voltado ao "aperfeiçoamento da feminilidade cristã", com um método bem estabelecido: disciplina vendida como produto e currículo evangélico convertido em experiência premium. É dentro dessa lógica de consumo que Germina/Lúcia se infiltra nesse treinamento que funciona, ao mesmo tempo, como sistema de mercantilização da fé. À frente desse processo, Virgínia (Bruna Linzmeyer), a coach que o comanda com o carisma de quem já testou o próprio remédio, sabe do que fala quando confessa, já na primeira noite do retiro, que "foi preparada pra isso" - o que sugere genealogia; não há fundação precedente, só sucessão; não uma "vocação", um adestramento, e ela sabe bem disso.
Partindo desse cenário do retiro, o filme constrói arquétipos regionais com muita precisão, começando por um erre que bate seco na ponta da língua. Uma canção sertaneja de letra reacionária abre o longa, lembrete pouco sutil do tom satírico que vai atravessar o resto do filme. O filme monta, com cuidado quase etnográfico, as figuras dos conservadorismos contemporâneos, explicitando o papel (e o lugar) das mulheres nessas dinâmicas. E as mulheres? Uma lésbica enrustida, uma esposa-troféu de um político de direita, uma coach de comportamento feminino, e uma tradwife digital clássica (além da nossa impostora, é claro). Todas elas, aos seus modos, negociam suas feminilidades dentro daquele sistema. Ironicamente, é Goreti (Brisa Marques), a enrustida, quem implode esses limites, semeando uma verdadeira caça às bruxas ao contar uma crendice que ouviu da mãe - de que criança que chora demais é por ter bruxa por perto, que aí é preciso colocar uma tesoura sob o travesseiro para cortar, à noite, a fita que desce do teto - o mesmo folclore que, mais adiante, Virgínia vai transformar em arma. A enrustida, com medo da própria sombra, é quem dá o primeiro impulso a essa vigilância coletiva.
Está aí a engrenagem mais afiada do filme, a abordagem destemida dessa mecânica teológica. As regras soam banais até se revelarem sufocantes: pequenas proibições cotidianas, do tipo que qualquer mulher já ouviu de alguma tia - mas, empilhadas, formam um sistema de vigilância completo sobre o corpo. Por trás dessas regras está uma lógica ainda mais perigosa, quase de mercado - traço do protestantismo contemporâneo, embalar o dogmatismo cristão em linguagem de autoajuda corporativa, numa regurgitação constante de jargões como "excelência", "melhor versão de si", "entrega". E o filme faz o favor de mostrar o que acontece quando essa lógica é levada às últimas consequências: obediência vira sinônimo de sacrifício, e o sacrifício é, literalmente, sangue. E morte.
A sátira funciona como estratégia deliberada de afastamento de algum didatismo; afinal, é sempre divertido ver um crente clamar pela alma das "crianças abortadas" numa tela de cinema - e o filme reconhece esse ponto de absurdo e o provoca, o tensiona, usa esse desconforto para desarmar o olhar. A cena mais criativa nesse sentido é a das mãos (de Virgínia) que surgem por trás de, agora já sabemos, Lúcia, como se fossem asas empunhando uma faca - imagem que rouba a iconografia angelical, o anjo protetor que paira atrás dos ombros. Uma luz gélida no fundo ilumina a faca de fruta - um enquadramento bem humorado para um horror bem calibrado.
Impossível falar desse projeto, considerando a narrativa satírica sobre o terror de mulheres presas em lógicas de pânico religioso, sem falar de Anita Rocha da Silveira: uma das mais constantes realizadoras desse subgênero no cinema brasileiro contemporâneo. Desde Mate-me Por Favor (2015), filme exibido na Mostra Retrospectiva na sexta-feira de festival, e Medusa (2021), longa ficcional sobre um grupo de mulheres que vigiam e punem outras mulheres em nome de um ideal de pureza. A diretora já afirmou que Medusa partiu da observação de um modelo de mulher "bela, recatada e do lar" voltando a ganhar força no Brasil.
Virtuosas dialoga diretamente com esse projeto, mas desloca o tabuleiro: troca o subúrbio de classe média carioca pelo interior catarinense, o grupo de amigas adolescentes por um coletivo de mulheres adultas em busca de autoaperfeiçoamento, a perseguição de rua pela reclusão institucionalizada de um retiro pago. É o mesmo diagnóstico, só que reconfigurado: a violência entre mulheres ( ou contra mulheres) como ferramenta de manutenção de um ideal de pureza.



![A partir da exibição de "Virtuosas" na 20ª CineBH, em novo texto do site, Nayara Aguiar destrincha como a diretora Cíntia Domit Bittar articula as mecânicas do fundamentalismo religioso no Brasil contemporâneo.
Ao articular a lógica de mercado da fé e a vigilância moral exercida entre as próprias mulheres, o texto investiga as raízes dessa violência e a escolha da linguagem do terror:
"É no pathos específico das políticas afetivas deturpadas do fundamentalismo religioso que nasce um moralismo pungente e, desse moralismo, uma violência [...] fria na engrenagem que a arquiteta, quente nas mãos que as executam — um terror naturalista, afinal, onde mais se travaria um filme do gênero senão em Santa Catarina?”
🔗 Leia a crítica completa em sarayrosa.com
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Tras la proyección de "Virtuosas" en la 20ª Muestra CineBH, Nayara Aguiar diseca en el nuevo artículo en el site cómo la directora Cíntia Domit Bittar articula la mecánica del fundamentalismo religioso en el Brasil contemporáneo.
Al vincular la lógica mercantil de la fe con la vigilancia moral ejercida sobre las propias mujeres, el texto investiga las raíces de esta violencia y la elección del lenguaje del terror:
"Es en el pathos específico de las políticas afectivas deturpadas del fundamentalismo religioso donde nace un moralismo punzante y, de ese moralismo, una violencia que la película de Cíntia Domit Bittar transforma en propuesta: fría en el engranaje que la arquitecta, cálida en la mano que la ejecuta — un terror naturalista, al fin y al cabo, ¿dónde más se libraría una película del género sino en Santa Catarina?"
🔗 Lea la crítica completa en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/825270038_17934869712390781_1812860770498213797_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=106&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=S7xK9Ii4CUMQ7kNvwG9ot9c&_nc_oc=AdowH2CwfszwbVP0dwrQArnyBaRu7GgwIneaM_kHbUguVClh6b4eNMlg9Pceygeb3MY&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=l4Wt93iO0JCwZbQ_yhBcpQ&_nc_tpa=Q5bMBQInf6b4SFwQ7sk28ZjwywldbnRvfhMac90y9JyUUzn-D3HcR-iZBjhrjgM6kPLeLUhXNia1CYPs&oh=00_AQMLyNX_w_mR8I0VzbvZx1iPE1Th1bZS0xX1fEfWlo-X6A&oe=6AC60ED6)


























![No novo ensaio publicado em nosso site, escrito sob o calor da exibição de Vámonos, Bárbara (1978) no Cineclube Ibero-americano Permanente, nesta quarta-feira, dia 17 de junho, Juliana Gusman destrincha como a cineasta espanhola Cecilia Bartolomé tensiona o texto matriz de Martin Scorsese (Alice Não Mora Mais Aqui) através de um exercício de distanciamento formal e discursivo.
Longe de se curvar às estéticas do norte global, o texto de Juliana reafirma a posição do filme na cartografia ibero-americana, costurando cumplicidades com o cinema de ruptura feito por mulheres aqui:
“Talvez Vamos, Bárbara se achegue mais, na verdade, de nosso próprio road movie feminista inaugural, Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina. [...] a Betinha de Cristina Pereira compartilha certas inadequações incendiárias com a Bárbara de Cristina Alvarez – para além da cabalística coincidencia no nome de suas intérpretes.”
Leia mais sobre a diretora e sua obra no ensaio de @juliana.gusman, escrito para o 3º encontro do Cineclube Ibero-americano Permanente, uma parceria entre Sara y Rosa, Cine Humberto Mauro do @palaciodasartes_ e Instituto Cervantes de BH.
🔗 Leia o ensaio completo em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CeciliaBartolome #CinemaFeminista #CríticaFeminista
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En un nuevo ensayo escrito a raíz de la proyección de Vámonos, Bárbara (1978) en el Cineclub Iberoamericano Permanente, Juliana Gusman analiza cómo la cineasta española Cecilia Bartolomé desafía el material de origen de "Alice Doesn’t Live Here Anymore" (de Martin Scorsese) mediante un ejercicio de distanciamiento formal y discursivo, y reafirma el lugar de la película en el panorama de cine iberoamericano, estableciendo vínculos con el cine pionero de mujeres aqui:
"Quizás Vamos, Bárbara acercase, de hecho, a nuestro propio roadmovie feminista inaugural "Mar de Rosas"(1977), de Ana Carolina. Felicidade, el personaje poco convencional de Norma Bengell, es más sombría que Ana y su destino, menos próspero, pero la Betinha de Cristina Pereira comparte ciertas deficiencias incendiarias con la Bárbara de Cristina Álvarez, más allá de la coincidencia cabalística en los nombres de sus intérpretes."
🔗 Lee el texto en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/726575221_17917835919390781_4399166472106971886_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=110&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=nyyl-Ut4qPUQ7kNvwFfIfcL&_nc_oc=AdoDW7U2KBsj_jmDmonKUsF5CUBkXhjIMYyAVV33_phSSXrqcAWNnWIfqGcEzguqu9o&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=l4Wt93iO0JCwZbQ_yhBcpQ&_nc_tpa=Q5bMBQJJHAklMDc21p79n3R7TNEWMnxwBslbcp9jxr04MvJjZcRDCyx_59RDt2cavhhP8gxzGtAGaIen&oh=00_AQN_C6EoNGt79IywbiK59xwxEp-jUMfjCfz2SoSQ5or0Gg&oe=6AC606BF)



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