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20ª CineBH - Virtuosas, mulheres e os novos sotaques do fundamentalismo

há 6 dias
4 min de leitura

Atualizado: há 4 dias


Por Nayara Aguiar| Críticas


BELO HORIZONTE - MG - 20ª CineBH - Foto Jackson Romanelli/Universo Produção
BELO HORIZONTE - MG - 20ª CineBH - Foto Jackson Romanelli/Universo Produção

"Virtuosas" termina com uma frase que resume o registro final do filme: depois que Lorena (Lorena Canolo) , esposa de político, e mulher à beira de um ataque de nervos, mata Germina (Maria Galant), ela apenas constata, coberta de sangue e com um olhar distante, mas quase com ternura: "ele não tá mais chorando", referindo-se ao seu filho que, na verdade, havia morrido. Um resquício, o alívio doméstico de calar um choro incômodo, que acompanhou muitas sequências até aquele ponto. É no pathos específico das políticas afetivas deturpadas do fundamentalismo religioso que nasce um moralismo pungente e,  desse moralismo, uma violência que o longa de Cíntia Domit Bittar transforma em proposta: fria na engrenagem que a arquiteta, quente na mão que a executa - um terror naturalista, afinal, onde mais se travaria um filme do gênero senão em Santa Catarina?


Com roteiro assinado por Bittar e Fernanda de Capua, o filme acompanha Germina/Lúcia,  uma jornalista infiltrada em um retiro chamado “VVV” - ou “Virtuosas VIP da Virgínia" - , voltado ao "aperfeiçoamento da feminilidade cristã", com um método bem estabelecido: disciplina vendida como produto e currículo evangélico convertido em experiência premium. É dentro dessa lógica de consumo que Germina/Lúcia se infiltra nesse treinamento que funciona, ao mesmo tempo, como sistema de mercantilização da fé. À frente desse processo, Virgínia (Bruna Linzmeyer), a coach que o comanda com o carisma de quem já testou o próprio remédio, sabe do que fala quando confessa, já na primeira noite do retiro, que "foi preparada pra isso" - o que sugere genealogia; não há fundação precedente, só sucessão; não uma "vocação", um adestramento, e ela sabe bem disso.


Partindo desse cenário do retiro, o filme constrói arquétipos regionais com muita precisão, começando por um erre que bate seco na ponta da língua. Uma canção sertaneja de letra reacionária abre o longa, lembrete pouco sutil do tom satírico que vai atravessar o resto do filme.  O filme monta, com cuidado quase etnográfico, as figuras dos conservadorismos contemporâneos, explicitando o papel (e o lugar) das mulheres nessas dinâmicas. E as mulheres? Uma lésbica enrustida, uma esposa-troféu de um político de direita, uma coach de comportamento feminino, e uma tradwife digital clássica (além da nossa impostora, é claro). Todas elas, aos seus modos, negociam suas feminilidades dentro daquele sistema. Ironicamente, é Goreti (Brisa Marques), a enrustida,  quem implode esses limites, semeando uma verdadeira caça às bruxas ao contar uma crendice que ouviu da mãe - de que criança que chora demais é por ter bruxa por perto, que aí é preciso colocar uma tesoura sob o travesseiro para cortar, à noite, a fita que desce do teto - o mesmo folclore que, mais adiante, Virgínia vai transformar em arma. A enrustida, com medo da própria sombra, é quem dá o primeiro impulso a essa vigilância coletiva.


Está aí a engrenagem mais afiada do filme, a abordagem destemida dessa mecânica teológica. As regras soam banais até se revelarem sufocantes: pequenas proibições cotidianas, do tipo que qualquer mulher já ouviu de alguma tia - mas, empilhadas, formam um sistema de vigilância completo sobre o corpo. Por trás dessas regras está uma lógica ainda mais perigosa, quase de mercado - traço do protestantismo contemporâneo, embalar o dogmatismo cristão em linguagem de autoajuda corporativa, numa regurgitação constante de jargões como "excelência", "melhor versão de si", "entrega". E o filme faz o favor de mostrar o que acontece quando essa lógica é levada às últimas consequências: obediência vira sinônimo de sacrifício, e o sacrifício é, literalmente, sangue. E morte. 


A sátira funciona como estratégia deliberada de afastamento de algum didatismo; afinal, é sempre divertido ver um crente clamar pela alma das "crianças abortadas" numa tela de cinema - e o filme reconhece esse ponto de absurdo e o provoca, o tensiona, usa esse desconforto para desarmar o olhar. A cena mais criativa nesse sentido é a das mãos (de Virgínia) que surgem por trás de, agora já sabemos, Lúcia, como se fossem asas empunhando uma faca - imagem que rouba a iconografia angelical, o anjo protetor que paira atrás dos ombros. Uma luz gélida no fundo ilumina a faca de fruta - um enquadramento bem humorado para um horror bem calibrado.


Impossível falar desse projeto, considerando a narrativa satírica sobre o terror de mulheres presas em lógicas de pânico religioso, sem falar de Anita Rocha da Silveira: uma das mais constantes realizadoras desse subgênero no cinema brasileiro contemporâneo. Desde Mate-me Por Favor (2015), filme exibido na Mostra Retrospectiva na sexta-feira de festival, e Medusa (2021), longa ficcional sobre um grupo de mulheres que vigiam e punem outras mulheres em nome de um ideal de pureza. A diretora já afirmou que Medusa partiu da observação de um modelo de mulher "bela, recatada e do lar" voltando a ganhar força no Brasil.


Virtuosas dialoga diretamente com esse projeto, mas desloca o tabuleiro: troca o subúrbio de classe média carioca pelo interior catarinense, o grupo de amigas adolescentes por um coletivo de mulheres adultas em busca de autoaperfeiçoamento, a perseguição de rua pela reclusão institucionalizada de um retiro pago. É o mesmo diagnóstico, só que reconfigurado: a violência entre mulheres ( ou contra mulheres) como ferramenta de manutenção de um ideal de pureza.


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