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As asas de Eros e os olhos de Albertina Carri

há 2 dias
4 min de leitura

Por Juliana Gusman  | Ensaios


Texto originalmente publicado no catálogo da 20ª CineBH.




Marcel nunca menciona a palavra “lésbica” a Albertina. Prefere dizer “a classe de mulheres a qual me oponho”.


Anne Carson, Albertine: Rutina de ejercícios, 2015


Albertina Carri (Buenos Aires, 1973) era uma criança recém-órfã na província erma de Veinticinco de Mayo quando, em 1978, Monique Wittig encerrou a conferência O Pensamento Hétero desertando as lésbicas da mulheridade. Se na ontologia capitalista-patriarcal o que nos define é a capacidade de gerar e parir, toda sexualidade não-reprodutiva dá monstros à luz trêmula de nossas certezas constitutivas. Contrariando Beauvoir com amor e ternura, não se nasce mulher e, às vezes, nem se torna. Hoje, consagrada cineasta, Carri segue esfíngica e se esquivando de categorias estanques. Na ocasião de uma retrospectiva integral de sua obra em Córdoba – que abarca sete longas-metragens, além de curtas, produções televisivas e publicações literárias – Roger Koza (2026) escreveu sobre uma “qualidade distintiva” de seus filmes que desafiaria “a própria noção de autor” – tão cara a certos sistemas de poder-saber quanto as concepções (hetero)normativas de gênero. Carri, que desponta como artista na aurora do século e na maré alta do Novo Cinema Argentino, gesta imagens instáveis e formas mutantes. Em três décadas de carreira, jamais se acomodou consigo mesma.


O método de Carri, contudo, não é o caos – a destruição violenta e sem cálculo da linguagem –, mas a desordem absoluta – “a ruptura com uma ordem que só trouxe e continua trazendo o caos”, como defende Françoise Vergès (2023, p. 49).  Depois de sua estreia com o quebra-cabeça noir No quiero volver a casa (2000) – no qual começa a trincar as paredes finas e a descascar a argamassa masculina do lar burguês – Carri volta-se para a própria genealogia familiar com Los rubios (2003). Este documentário lhe aproxima de um conjunto de realizadores latino-americanos que procurou reconstituir a memória de uma geração imediatamente anterior durante regimes militares continentais – Roberto Carri e Ana María Caruso, pais de Albertina e membros da organização Montoneros, foram desaparecidos pelo Estado repressor em fevereiro de 1977 –, mas também lhe distancia. Carri sujou a sobriedade histórica com a poeira de suas próprias angústias, numa narrativa subjetivada que, não obstante, terceiriza a primeira pessoa. A atriz Analía Couceyro já havia encarnado uma filha inconformada e em fuga em No quiero volver a casa antes de assumir o alter ego da diretora numa busca digressiva e inconclusiva, que vai do stop motion com Playmobils aos talking heads em segundo plano para não chegar, objetiva e conscientemente, a lugar algum. Pelo gesto metacinemático e autorreferencial – que seria retomado no ensaístico Cuatreros (2016) –, Los rubios revela que o enigma dos laços íntimos ainda é um nó na garganta de Carri.


Em Géminis (2005) – melodramático – e La rabia (2008) – naturalista e visceral –, a realizadora insiste em tentar desatá-lo – ou em engoli-lo a seco. Espanta o cinismo de uma classe abastada e idealizações progressistas de um campesinato idílico com o berro mudo da matriarca Lúcia (Cristina Banegas), no primeiro filme, e o grito suíno da menina Nati (Nazarena Duarte), no segundo. Flagras incestuosos e adúlteros, obscenidades fundantes da moral dominante, desencadeiam rompantes oportunos. De cabo a rabo, as famílias do cinema de Carri estão em crise (apesar – ou por causa – da impenitência dos transgressores).


Filhas do fogo (2018) pode parecer um ponto de flexão temática, poética e estética ao, sucedendo Cuatreros, penetrar (metalinguisticamente, mais uma vez) o campo minado da pornografia. Contudo, essa entrada insuspeita foi lubrificada não apenas pelas bonecas genitalizadas do curta Barbie también puede eStar triste (2001), uma paródia queer dos códigos visuais da pedagogia heterossexual; Anne Carson (2024) insinua que “existe no desejar e no conhecer algo como uma eletrificação. Não se parecem com nada, mas parecem-se uma com a outra” (2024, p. 90). A mesma faísca erótica que atiçou as investigações desordeiras nas obras anteriores de Carri a levam a buscar outros deleites contra normalidades instituídas. “A loucura é o instrumento de tal inteligência”, sugere a poeta canadense. Alado e implacável, Eros “põe-nos asas na alma” (p.188). Com seu road movie sáfico rumo ao Sul e ao cu do mundo, Albertina Carri “perde os pés” com Bataille na estrada e eleva o prazer feminino aos céus.


Tampouco Caiam as rosas brancas! (2025) sinaliza um arrefecer da ousadia pornográfica e performática que, em Filhas do fogo, derrete a placidez gélida da Patagônia. O último filme de Carri, uma espécie de sequência de seu predecessor, também é uma síntese de sua pulsão erótica atávica: num golpe contrassexual, afinado com o manifesto de Paul B. Preciado (2017), a realizadora desbrava as periferias de um corpo excitável para explorar novas zonas de sensibilidade psicossomáticas. Carri alça voo em plena tormenta com paus de plástico, bocetas vivas e, agora, sobretudo, com os olhos abertos. Em Caiam as rosas brancas!, as personagens descolonizam geografias carnais e gozam com as carícias políticas e críticas da contemplação. De um set de filmagens em colapso a uma utopia insular fantástica, Carri conduz seu bando rebelde para o “fora de quadro” das paisagens comuns e nos seduz com as curvas sinuosas e insinuantes de seus horizontes futuros. 

 

Referências:


BATAILLE, Georges. O erotismo. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.


BETTANCOURT, Marisol Aguila. Entrevista Albertina Carri, la hija del fuego. La Rabia Cine, dossier N.00, 2021. Disponível em: < https://larabiacine.com/2021/04/07/entrevista-a-albertina-carri-la-hija-del-fuego/>. Acesso em: 24 ago. 2026.


CARSON, Anne. Eros: amargo e doce, um ensaio. Coimbra: Edições 70, 2024.


KOZA, Roger. Vivo Cine: A propósito de la muestra integral de la obra cinematográfica de Albertina Carri y su libro Cine vivo. Con los ojos abiertos, 19 mar. 2026. Disponível em: < whttps://ww.conlosojosabiertos.com/vivo-cine/>. Acesso em: 24 ago. 2026.


PRECIADO, Paul. B. Manifesto contrassexual. São Paulo: N-1 Edições, 2017.


VERGÉS, Françoise. Descolonizar o museu: programa de desordem absoluta. São Paulo: Ubu Editora, 2023.

 

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