20ª CineBH - A repetição nos sobrevive em Ejercicios de Memoria
Atualizado: 13 de out.
Por Márcia Amorim | Críticas
Texto escrito em cobertura colaborativa da 20ª CineBH, promovida pela plataforma Sara y Rosa, com revisão e edição de Juliana Gusman e Nayara Aguiar.

A memória é quem somos. E mesmo que nos arranquem esta carne, os sentimentos e o sangue, algo em nós continua elaborando aquilo que nos ancestra. Quando movemos o corpo, exercitamos memórias que, por natureza, reinventam caminhos. Ao transformá-las em imagem, encontramos de imediato novas formas de experimentar, significar e pertencer ao fluxo contínuo de nosso entre-lugar.
Sabê-las, no entanto, abre conversa entre quem já fomos e com as subjetividades que configuram nosso presente. É nessa herança, movida pelo corpo e intersubjetividades que Paz Encina pousa sua câmera. A janela, de suas lentes, se abre para olhar profundamente o que seus olhos buscam: o trágico e antitrágico através da arte.
Exercícios de Memória (2016) é um cinema de muitas águas. O documentário acompanha as memórias dos filhos de Agustín Goiburú, dirigente político do Movimento Popular Colorado (MOPOCO), sequestrado por uma força-tarefa especializada e entregue à polícia da ditadura de Alfredo Stroessner, Entre Ríos, na Argentina. Ao recuperar suas lembranças, o filme registra uma das experiências mais violentas do território paraguaio: os trinta e cinco anos da mais longa ditadura da América Latina.
Esse período roubou a juventude dos filhos e deixou um país marcado pela perseguição, pelo exílio e pelo contrabando, que é sustentado e normalizado pelas estruturas políticas e econômicas do regime, cujos efeitos ainda se prolongam no Paraguai contemporâneo. Décadas depois, ao retornarem ao lugar onde o pai foi visto pela última vez, Rogelio, Rolando e Jazmín reabrem não apenas uma ferida particular, mas também um arquivo político atravessado pela violência, pelo desaparecimento e pela memória do exílio.
A obra nos envolve numa realidade imagética feita de silêncios e pausas. Mesmo quando se movimenta, o ar pousa. O tempo é suspenso por planos que se demoram, para que possamos habitar cada quadro, bem devagar. Quase vestimos os sapatos deixados. Parece que mordemos uma fruta doce e a esquecemos para as formigas. Bordamos algum desejo e nos ferimos com uma agulha trágica. Habitamos a lembrança familiar das pessoas desaparecidas. Abandonamos a criança antes de crescer por necessidade.
Imersos, os primeiros planos de Paz Encina na elaboração do filme apresentam uma câmera na mão, ou ao menos entregam essa sensação. A imagem também se encontra levemente trêmula, criando um efeito que remete à água, sustentando a presença do habitar a poesia.
Após a porta abrir e ranger, a construção da sequência alterna entre câmera fixa e oscilação em closes nos documentos registrados durante a ditadura paraguaia. Depois, a câmera retoma o movimento na mão, porém agora firme e estabilizado, acompanhando a ficção nas imagens e na voz off, sem o tremor inicial.
Essa escolha reverbera de modo potente na relação entre voz e imagem. Muitas críticas apontam que a voz off não se conecta com as imagens, mas essa aparente desconexão é justamente parte da estratégia do filme: quando voz e imagem parecem distorcidas ou desencontradas, elas não deixam de se relacionar, apenas se associam em outro tempo, em outra camada de sentido. A voz não ilustra a imagem, nem a imagem ilustra a voz; elas se entrelaçam como fios que tecem em tempos diferentes, criando uma escuta que exige do espectador outro tipo de atenção, mais aberto às ressonâncias do que à correspondência imediata.
A fruta mordida e esquecida é relembrada pelas crianças-personagens que encontram sabor nas goiabas. A presença de “Mi pequeño amor”, de Ramón Ayala, nessa saída do primeiro plano, por exemplo, reforça essa articulação. A música não se prende a uma correspondência literal entre letra e realidade, mas constrói sentido por meio da poesia e fabulação das imagens reveladas até ali.
O “amor pequeno” da canção pode ser lido como um amor pela terra paraguaia, um afeto que carrega dor, mas que, ao ser cantado, se transforma e ganha resiliência e novos sentidos.
Há outros momentos no filme que navegam por esse rio. Nada é abstrato de intenção. Nas cenas em que os filhos de Agustín Goiburú falam sobre quando iam caçar com o pai, a voz off evoca memórias de infância. Enquanto narram, então, vemos as crianças afiando gravetos para pescar.
Assim também quando Jazmín fala sobre a máquina de costura Singer, cena mais à frente no filme, ela retorna às imagens iniciais. Em vários momentos, essas imagens se reencontram com a voz off. A máquina não está em cena, mas a voz a traz; as imagens iniciais ganham novo sentido quando revisitadas pela memória.
Ao respirar essa atmosfera se confere um sentido poético aos sons, estendendo-se a narração em off das vozes-irmãs. Nesse resultado, cabe sublinhar a contribuição de María Astrauskas na montagem, que sustenta o ritmo ao longo dos setenta minutos e articula imagens e vozes em um único movimento contínuo de construção e reformulação de sentidos. Não se tratando, portanto, de encerrar a memória numa narrativa definitiva, mas de dar forma ao que nela permanece inacabado, turbulento e ativo.
Essa sintonia entre fotografia, montagem e som em Exercícios de Memória sugere um ponto de partida em comum tanto na elaboração estética quanto no posicionamento político diante da História, no compromisso de preservar e confrontar o que lhes atravessa. Essa sintonia também sublinha o cuidado de Paz Encina na escolha de seus colaboradores, cujas contribuições dão forma à dimensão coletiva do filme.
A estética do documentário-ficcional compreende a importância de um cinema que assume identidade, constrói público para denunciar e anunciar o sensível que nos falta. Uma maneira singular em contradizer uma única forma de contar a história.
Neste lugar, a repetição nos sobrevive. Quando a projetamos em matéria audiovisual, torna-se ainda mais viva sua circularidade tão própria da nossa condição e permanência no mundo. Talvez seja nesse movimento que tentamos remendar o coração: encarando a dor de um mundo inteiro, mas também reconhecendo a satisfação de sermos criativos o bastante para recomeçar.




![Em nova entrevista publicada no site, Anna Lia conversa com a cineasta Denise Vieira sobre seu longa de estreia, Sabes de Mim, Agora Esqueça (2026), que foi exibido na Mostra Horizontes da 20ª CineBH.
A conversa mergulha nas visões da diretora sobre o cinema brasileiro feito a partir da periferia e por mulheres. Denise reflete sobre o processo de construção compartilhado com as atrizes, a urgência de redefinir o cinema popular fora dos padrões hegemônicos e a potência de uma criação guiada pela intuição e pelo erótico que vai em contramão da racionalidade:
“[...] o cinema é um jeito de adentrar em coisas que são complexas e ver sentimentos, lados que às vezes são opacos, podendo adentrar outros universos.”
🔗 Leia a entrevista completa em sarayrosa.com
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En una nueva entrevista publicada en el site, Anna Lia conversa con la cineasta Denise Vieira sobre su largometraje de debut, "Sabes de Mim, Agora Esqueça" (2026), que se proyectó en la sección Horizontes de la 20ª edición de CineBH.
La conversación profundiza en la visión de la directora sobre el cine brasileño realizado desde la periferia y por mujeres. Denise reflexiona sobre el proceso de construcción compartido con las actrices, la urgencia de redefinir el cine popular al margen de los estándares hegemónicos y la potencia de una creación guiada por la intuición y lo erótico, que se aleja de la racionalidad:
"[...] el cine es una manera de adentrarse en cosas que son complejas y ver sentimientos, lados que a veces son opacos, pudiendo entrar en otros universos".
🔗 Lee la entrevista completa en sarayrosa.com](https://scontent-lhr6-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/849508579_17937437964390781_2655953640829663480_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=108&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=QvrHfJloTAwQ7kNvwEfperp&_nc_oc=AdrvYxmuJnVBHhcah2rNEo8UfCO6JXhSGNniz7OH-7-p3C63Wdghb1v8eGySLLmP8Rc&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-lhr6-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=LvJI5AaQWFqIqodD7RCJDQ&_nc_tpa=Q5bMBQJ-mtdZAOfuHz_zFzts5ChNFwkxbVTPfCsjztYtvDaDDJo6GJAByaJsjYdJe71eNnNKZAwIdq62&oh=00_AQP7VhiURx-NCxN0D1iMQ3uryqm8wOc6K8efLgWm-Xx6nA&oe=6ADFE74F)







![A partir da exibição de "Virtuosas" na 20ª CineBH, em novo texto do site, Nayara Aguiar destrincha como a diretora Cíntia Domit Bittar articula as mecânicas do fundamentalismo religioso no Brasil contemporâneo.
Ao articular a lógica de mercado da fé e a vigilância moral exercida entre as próprias mulheres, o texto investiga as raízes dessa violência e a escolha da linguagem do terror:
"É no pathos específico das políticas afetivas deturpadas do fundamentalismo religioso que nasce um moralismo pungente e, desse moralismo, uma violência [...] fria na engrenagem que a arquiteta, quente nas mãos que as executam — um terror naturalista, afinal, onde mais se travaria um filme do gênero senão em Santa Catarina?”
🔗 Leia a crítica completa em sarayrosa.com
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Tras la proyección de "Virtuosas" en la 20ª Muestra CineBH, Nayara Aguiar diseca en el nuevo artículo en el site cómo la directora Cíntia Domit Bittar articula la mecánica del fundamentalismo religioso en el Brasil contemporáneo.
Al vincular la lógica mercantil de la fe con la vigilancia moral ejercida sobre las propias mujeres, el texto investiga las raíces de esta violencia y la elección del lenguaje del terror:
"Es en el pathos específico de las políticas afectivas deturpadas del fundamentalismo religioso donde nace un moralismo punzante y, de ese moralismo, una violencia que la película de Cíntia Domit Bittar transforma en propuesta: fría en el engranaje que la arquitecta, cálida en la mano que la ejecuta — un terror naturalista, al fin y al cabo, ¿dónde más se libraría una película del género sino en Santa Catarina?"
🔗 Lea la crítica completa en sarayrosa.com](https://scontent-lhr11-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/825270038_17934869712390781_1812860770498213797_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=106&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=gKePqIzI4RAQ7kNvwEhmXUI&_nc_oc=AdowAM6HfF40xpvewXBK2OMiSkuY_y9P-Tx1tNHXc1Axqfn6BZRKyH4LrPvF6K3GZ68&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-lhr11-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=LvJI5AaQWFqIqodD7RCJDQ&_nc_tpa=Q5bMBQJYnLeBf8TLAtyy6Kduln7umLBzzVAHf_ZAGyBd_wO0UOKbvrIxrP_0cR4SLpkYXXo09-_9n8SB&oh=00_AQMXW5g8dJ2UbWp4fWHGT9fgz5tVhqs62JbcbLh5PF0p7w&oe=6ADFFC56)





















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