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20ª CineBH - A repetição nos sobrevive em Ejercicios de Memoria

11 de out.
4 min de leitura

Atualizado: 13 de out.

Por Márcia Amorim | Críticas


Texto escrito em cobertura colaborativa da 20ª CineBH, promovida pela plataforma Sara y Rosa, com revisão e edição de Juliana Gusman e Nayara Aguiar.


Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

A memória é quem somos. E mesmo que nos arranquem esta carne, os sentimentos e o sangue, algo em nós continua elaborando aquilo que nos ancestra. Quando movemos o corpo, exercitamos memórias que, por natureza, reinventam caminhos. Ao transformá-las em imagem, encontramos de imediato novas formas de experimentar, significar e pertencer ao fluxo contínuo de nosso entre-lugar. 


Sabê-las, no entanto, abre conversa entre quem já fomos e com as subjetividades que configuram nosso presente. É nessa herança, movida pelo corpo e intersubjetividades que Paz Encina pousa sua câmera. A janela, de suas lentes, se abre para olhar profundamente o que seus olhos buscam: o trágico e antitrágico através da arte.


Exercícios de Memória (2016) é um cinema de muitas águas.  O documentário acompanha as memórias dos filhos de Agustín Goiburú, dirigente político do Movimento Popular Colorado (MOPOCO), sequestrado por uma força-tarefa especializada e entregue à polícia da ditadura de Alfredo Stroessner, Entre Ríos, na Argentina. Ao recuperar suas lembranças, o filme registra uma das experiências mais violentas do território paraguaio: os trinta e cinco anos da mais longa ditadura da América Latina.


Esse período roubou a juventude dos filhos e deixou um país marcado pela perseguição, pelo exílio e pelo contrabando, que é sustentado e normalizado pelas estruturas políticas e econômicas do regime, cujos efeitos ainda se prolongam no Paraguai contemporâneo. Décadas depois, ao retornarem ao lugar onde o pai foi visto pela última vez, Rogelio, Rolando e Jazmín reabrem não apenas uma ferida particular, mas também um arquivo político atravessado pela violência, pelo desaparecimento e pela memória do exílio.


A obra nos envolve numa realidade imagética feita de silêncios e pausas. Mesmo quando se movimenta, o ar pousa. O tempo é suspenso por planos que se demoram, para que possamos habitar cada quadro, bem devagar. Quase vestimos os sapatos deixados. Parece que mordemos uma fruta doce e a esquecemos para as formigas. Bordamos algum desejo e nos ferimos com uma agulha trágica. Habitamos a lembrança familiar das pessoas desaparecidas. Abandonamos a criança antes de crescer por necessidade. 


Imersos, os primeiros planos de Paz Encina na elaboração do filme apresentam uma câmera na mão, ou ao menos entregam essa sensação. A imagem também se encontra levemente trêmula, criando um efeito que remete à água, sustentando a presença do habitar a poesia.


Após a porta abrir e ranger, a construção da sequência alterna entre câmera fixa e oscilação em closes nos documentos registrados durante a ditadura paraguaia. Depois, a câmera retoma o movimento na mão, porém agora firme e estabilizado, acompanhando a ficção nas imagens e na voz off, sem o tremor inicial. 


Essa escolha reverbera de modo potente na relação entre voz e imagem. Muitas críticas apontam que a voz off não se conecta com as imagens, mas essa aparente desconexão é justamente parte da estratégia do filme: quando voz e imagem parecem distorcidas ou desencontradas, elas não deixam de se relacionar, apenas se associam em outro tempo, em outra camada de sentido. A voz não ilustra a imagem, nem a imagem ilustra a voz; elas se entrelaçam como fios que tecem em tempos diferentes, criando uma escuta que exige do espectador outro tipo de atenção, mais aberto às ressonâncias do que à correspondência imediata. 


A fruta mordida e esquecida é relembrada pelas crianças-personagens que encontram sabor nas goiabas. A presença de “Mi pequeño amor”, de Ramón Ayala, nessa saída do primeiro plano, por exemplo, reforça essa articulação. A música não se prende a uma correspondência literal entre letra e realidade, mas constrói sentido por meio da poesia e fabulação das imagens reveladas até ali.

O “amor pequeno” da canção pode ser lido como um amor pela terra paraguaia, um afeto que carrega dor, mas que, ao ser cantado, se transforma e ganha resiliência e novos sentidos. 


Há outros momentos no filme que navegam por esse rio. Nada é abstrato de intenção. Nas cenas em que os filhos de Agustín Goiburú falam sobre quando iam caçar com o pai, a voz off evoca memórias de infância. Enquanto narram, então, vemos as crianças afiando gravetos para pescar. 


Assim também quando Jazmín fala sobre a máquina de costura Singer, cena mais à frente no filme, ela retorna às imagens iniciais. Em vários momentos, essas imagens se reencontram com a voz off. A máquina não está em cena, mas a voz a traz; as imagens iniciais ganham novo sentido quando revisitadas pela memória. 


Ao respirar essa atmosfera se confere um sentido poético aos sons, estendendo-se a narração em off das vozes-irmãs. Nesse resultado, cabe sublinhar a contribuição de María Astrauskas na montagem, que sustenta o ritmo ao longo dos setenta minutos e articula imagens e vozes em um único movimento contínuo de construção e reformulação de sentidos. Não se tratando, portanto, de encerrar a memória numa narrativa definitiva, mas de dar forma ao que nela permanece inacabado, turbulento e ativo. 


Essa sintonia entre fotografia, montagem e som em Exercícios de Memória sugere um ponto de partida em comum tanto na elaboração estética quanto no posicionamento político diante da História, no compromisso de preservar e confrontar o que lhes atravessa. Essa sintonia também sublinha o cuidado de Paz Encina na escolha de seus colaboradores, cujas contribuições dão forma à dimensão coletiva do filme.


A estética do documentário-ficcional compreende a importância de um cinema que assume identidade, constrói público para denunciar e anunciar o sensível que nos falta. Uma maneira singular em contradizer uma única forma de contar a história.


Neste lugar, a repetição nos sobrevive. Quando a projetamos em matéria audiovisual, torna-se ainda mais viva sua circularidade tão própria da nossa condição e permanência no mundo. Talvez seja nesse movimento que tentamos remendar o coração: encarando a dor de um mundo inteiro, mas também reconhecendo a satisfação de sermos criativos o bastante para recomeçar. 


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