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20ª CineBH - O não caber no mundo em Bicho de Sete Cabeças e Mate-me Por Favor

10 de out.
5 min de leitura

Por Taís Palinski | Críticas


Texto escrito em cobertura colaborativa da 20ª CineBH, promovida pela plataforma Sara y Rosa, com revisão e edição de Juliana Gusman e Nayara Aguiar.


20ª CineBH | Foto: Divulgação
20ª CineBH | Foto: Divulgação

A vigésima edição da CineBH, guiada pela pergunta “O que será?”, nos convida a refletir sobre as angústias do presente em meio a um contexto latino-americano marcado pelo conservadorismo e pela revogação de direitos. Ao pensarmos o futuro, nada mais simbólico que reverenciamos o passado e compreendemos como chegamos até aqui; neste sentido, a Mostra Retrospectiva cria um exercício de memória com títulos que marcaram os vinte anos de festival. Dentre a seleção estão Bicho de Sete Cabeças (2001), de Laís Bodanzky, e Mate-me Por Favor (2015), de Anita Rocha da Silveira, ambos longas de estréia das diretoras. 


Separadas por uma lacuna de quinze anos, as duas obras articulam propostas estéticas e históricas distintas: enquanto Bicho de Sete Cabeças se insere no cinema da Retomada e na denúncia antimanicomial, Mate-me Por Favor explora o cinema de gênero e os códigos do horror. Ainda assim, ambos os filmes convergem no retrato brutal da juventude desamparada, mesmo que haja uma diferença crucial de classe social e de gênero que desenham a arquitetura de violência em cada narrativa. Enquanto a obra de 2001 retrata o aprisionamento de um jovem homem branco de classe média baixa pelo aparato psiquiátrico público e familiar, a obra de 2015 expõe o feminicídio e o desamparo familiar vivenciado por meninas adolescentes de classe média da Barra da Tijuca.


Uma rígida socialização de gênero molda como a raiva e a desobediência se manifestam na juventude — e também como a sociedade reage a elas, de forma antagônica conforme o corpo que as expressa. Em Bicho de Sete Cabeças, Neto (Rodrigo Santoro) encarna a recusa de um jovem rapaz em submeter-se à autoridade do pai, Wilson (Othon Bastos), e ao modelo de masculinidade focado na disciplina e na produtividade. No ambiente familiar, Neto vivencia um desamparo comunicativo. Qualquer traço de singularidade é podado e tratado como afronta. Essa opressão manifesta-se claramente na cena do brinco, na qual o pai o ataca com ofensas homofóbicas por usar o acessório, o que o leva a sair correndo de casa. Ao se ver continuamente injustiçado, Neto transforma sua raiva em combustível. A escrita do bilhete ao pai — gesto que inaugura e dita o tom da narrativa do filme  — expõe a urgência de ser ouvido: "Agora você vai me ouvir, tô te mostrando a porta da rua pra você sair sem eu te bater!”


Contudo, em uma estrutura capitalista pautada na utilidade e na produtividade, a raiva e o desenquadramento do jovem que se desvia da regra não encontram acolhimento: sua insubordinação é categorizada como rebeldia e punida com o encarceramento manicomial. Essa coerção é possibilitada pelo arranjo familiar tradicional, no qual a figura materna de Meire (Cássia Kiss) é mantida silenciada e subjugada, incapaz de intervir nas decisões do marido. Por outro lado, em Mate-me Por Favor, quando garotas adolescentes expressam raiva, libido ou autonomia, a cultura conservadora e religiosa as rotula como seres pecaminosos que necessitam de contenção moral. Diante da falta de espaço para a expressão verbal da angústia, a raiva feminina em Bia (Valentina Herszage) é somatizada e canalizada no próprio corpo de maneira física e sensorial, seja na agressividade durante a partida de handebol, nos afetos violentos com o namorado Pedro ou no gesto de tocar os lábios ensanguentados da jovem assassinada no terreno baldio.


Além das dinâmicas de gênero, os meios de punição aplicados aos jovens são rigorosamente determinados por sua posição na hierarquia socioeconômica. Para a família de Neto, é esperado que o filho cumpra, sem questionar, a cartilha de jovem obediente, disciplinado e trabalhador. Quando o pai descobre um cigarro de maconha na mochila do filho, recorre imediatamente à internação forçada em uma instituição psiquiátrica, sem que houvesse qualquer diálogo. A violência sofrida por Neto é física, psicológica e sobretudo, escancara violações sistemáticas de direitos humanos e abuso institucional, revelando como a dissidência da juventude trabalhadora é tratada pela via da coerção pública e do encarceramento em massa. Já em Mate-me Por Favor, a narrativa se passa no cenário de classe média-alta da Barra da Tijuca, caracterizado por condomínios, colégios particulares  e igrejas neopentecostais. Nesse ambiente de abundância material, a coerção ocorre pela omissão afetiva familiar e pelo completo vácuo do universo adulto, fazendo com que o pavor do feminicídio e o fascínio pelas garotas assassinadas funcionem como os únicos catalisadores de sentimento para jovens confinadas em suas próprias bolhas.


Esses marcadores sociais refletem diretamente na forma como os protagonistas vivenciam o espaço urbano e a busca por pertencimento. Na Barra da Tijuca, a rua e os grandes terrenos baldios surgem como lugares inóspitos e perigosos. No entanto, mesmo cientes da presença de um assassino em série e do risco diário de feminicídio, Bia e seu grupo de amigas insistem em caminhar e explorar os vazios da cidade. Para as adolescentes, sair de casa e ocupar a rua não é um mero ato de descuido, mas um desejo visceral de conquistar o espaço, afirmar a própria existência e pertencer ao mundo. Em contraponto, para Neto, a dinâmica urbana sofre uma ruptura traumática: se no início a rua era sua válvula de escape e o único lugar onde poderia pichar, encontrar os amigos e exercer sua liberdade contra o microcosmo autoritário do pai, o encarceramento manicomial destrói essa possibilidade. Ao sair da internação destruído psicologicamente, Neto compreende que a vida em sociedade não o aceitará e que o "lado de fora" lhe foi definitivamente interditado.


O intervalo de quinze anos entre as duas produções evidencia também a transformação dos meios de comunicação e a crescente espetacularização da dor. Em Bicho de Sete Cabeças, inserido no início dos anos 2000, um professor indaga os alunos em sala de aula sobre a chegada da internet e o ritmo de circulação das informações, momento em que a expressão da rebeldia jovem ainda exigia a presença física. Já em Mate-me Por Favor, a hiperconexão está totalmente assimilada ao cotidiano adolescente. Os smartphones surgem como uma "segunda arma" sacada por uma sociedade dessensibilizada para capturar, postar e transformar corpos violentados em motivo de engajamento e visualizações nas mídias sociais, convertendo o sofrimento alheio em espetáculo instantâneo.


A comparação entre as duas obras evidencia como o cinema brasileiro constrói diferentes retratos do desamparo juvenil. Essa tensão ganha forma no modo como habitam a cidade: enquanto a exploração das ruas por Bia e suas amigas é uma insistência em pertencer e conquistar o mundo, para Neto, a violência do hospital psiquiátrico anula a rua como válvula de escape e refúgio. Seja no isolamento do hospital ou na bolha da Barra, ambos os filmes reafirmam que a sociedade reprime aqueles que recusam a cartilha da norma estipulada. Se a violência estrutural busca conter e domesticar a juventude, é na transgressão que Bicho de Sete Cabeças e Mate-me Por Favor encontram a força de suas narrativas.


A insubordinação de Neto — expressa no picho, no fumo e na recusa à disciplina — cobra um preço trágico: o hospital psiquiátrico tenta aniquilar sua subjetividade, mas a direção Bodanzky transforma seu sofrimento em uma denúncia sobre a brutalidade do sistema manicomial. Já no cinema de gênero de Anita, a transgressão de Bia opera pela visceralidade do corpo, do desejo e do excesso. Ao buscar o perigo nos terrenos baldios, Bia e suas amigas recusam o lugar de vítimas passivas e fazem do sangue e do afeto violento a afirmação de sua própria presença. Assim, se Neto evidencia os limites dolorosos de transgredir em uma sociedade punitiva, Bia demonstra que, mesmo em meio ao pavor, a busca pelo desejo e pela experiência corporal permanece como o último e irrenunciável território de resistência.


Referências:


CAVASSANI, Maria Fernanda; SILVA, Miriam Cristina Carlos. O FEMININO NO FILME BICHO DE SETE CABEÇAS, DE LAÍS BODANZKY. Revista Trama, v. 12, n. 2, 2021.


STRZYKALSKI, N. . Bicho de sete cabeças: 'infelizes, esquecidos, malditos inúteis'. Porto Alegre: Bestiário, 2014 (Artigo).


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