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20ª CineBH - Entrevista com Denise Vieira: reverberações do agora e do futuro

12 de out.
10 min de leitura

Por Anna Lia | Entrevistas


Texto escrito em cobertura colaborativa da 20ª CineBH, promovida pela plataforma Sara y Rosa, com revisão e edição de Juliana Gusman e Nayara Aguiar.


Foto: Guiga Guimarães / Universo Produção
Foto: Guiga Guimarães / Universo Produção

Escrevo sabendo do grande privilégio que é conhecer Denise Vieira pessoalmente. Prolífera diretora de arte que faz sua estreia como diretora em Sabes de Mim, Agora Esqueça (2026).  Conheci Denise em Ceilândia, quando um projeto meu passou na Cinelaria – uma oficina/ateliê de direção de arte que ela coordena, que aconteceu em agosto do ano passado. Nós participantes não só desenvolvemos nossos filmes, mas também pudemos conhecer parte da equipe que realizou o longa-metragem: Maitê, apelido de Maria Tereza Urias, que divide a produção com Denise; Vitinho, codinome de Victor de Melo, fotógrafo que voou de Fortaleza até Ceilândia para nós encontrar; Luciana Vecchi, diretora de produção; e Ana Laryssa Gomes, que fez assistência de direção.


Talvez seja por conhecer essa gente que a alegria de ver o longa de Denise levantar vôos cada vez mais altos emociona. É ver um cinema feito por pessoas da periferia, pensado e protagonizado por mulheres, que desafia conceitos já impostos sobre nossos corpos e desejos. Depois de ter perdido as estreias em Tiradentes e em Brasília, foi finalmente minha hora de abraçar Denise depois de ver o filme, aqui em BH.


Combinados um encontro online, nós duas na mesma cidade, mas separadas por uma tela. O dia cansativo e calorento de trabalho não atrapalhou a conversa. Comecei parabenizando-a pelo prêmio da Mostra CineBH.


Anna Lia: Parabéns pelo prêmio Destaque do Júri da Mostra Horizonte do CineBH! Seu filme foi celebrado pela representação feminina. Como se sente sabendo que seu filme reverbera nesse lugar para o público?


Denise Vieira: O filme ganhou alguns prêmios anteriormente: FIDMarseille de Melhor Primeiro Filme e Melhor Fotografia e Edição de Som, no Festival de Brasília. Acho que esse último, no CineBH, eu fiquei super emocionada. Enquanto o texto estava sendo lido pelo júri, num determinado momento eu me toquei que seria o filme. E aí eu me senti muito realizada, sabe? Porque esse filme gira em torno disso mesmo.


As dinâmicas de cena, tanto das cenas de diálogo como das cenas de sexo, passaram por uma construção com as atrizes. Elas estão muito presentes, de maneira muito forte, não só porque elas estão em cena, mas porque elas estiveram comigo nesse processo de invenção dessas personagens. Eu acredito que há um trabalho de autoria muito forte das atrizes.


E era um processo que a gente começa e não sabe onde vai dar…Então, é muito bom quando o filme reverbera nesse aspecto. Eu tive uma sensação semelhante no debate do Festival de Brasília, onde as atrizes puderam estar presentes. Essa conversa com elas no festival foi muito incrível, porque sempre pode acontecer de depois que o filme está montado, elas assistirem e se decepcionarem, já que a montagem é um outro processo. Mas lá, eu senti que o filme reverberou para elas... Não sei se era o que elas esperavam, mas ainda assim senti que desencadeou algo, de reflexão de como cada uma se vê a partir do filme. Para mim, esta é a reverberação mais importante que o filme tem. E receber um prêmio por isso, então…


A.L.: Quando eu vi os créditos do filme, achei muito interessante os nomes das personagens. Tinha Safira Dominitrix, um dos rapazes era apelidado de Virgem. Isso me deixou curiosa sobre o processo de escrita do roteiro. Quem vê o filme percebe que há uma construção muito próxima das atrizes, mas o quanto disso já tinha no roteiro? Como foi esse processo? 


D.V.: Eu tinha uma escaleta que continha alguns atos – como, por exemplo, as personagens estavam na rua, elas fugiam dos Lanternas – agentes do regime opressor que persegue mulheres no contexto do filme –, eram resgatadas até a Toca – nome do cabaré em que as personagens se protegem e vivem. Mas o processo de montagem trouxe outras ideias: mantemos uma estrutura de suspense junto com um final em que elas vivem uma espécie de redenção, em que elas vão embora. Antes, o clímax final seria a morte da Margô – interpretada por Cida Souza –, quando ela está deitada no chão e mergulhamos no seu passado, no seu imaginário. Em termos narrativos, se tornou outra coisa, pois ela retorna e isso faz com que ela e a Rúbia – personagem da atriz Pietra Sousa – se aproximem após a entrada frustrada dos Lanternas na Toca.


Eu sabia que na montagem a gente poderia brincar, então além de filmar o que estava na escaleta, filmamos muitas pontas soltas que podiam ser emendadas de formas diversas. Tanto que tem muito material que não entrou na montagem, coisas de puro devaneio meu. Foi também uma forma de estar preparando as atrizes, especialmente a Laura (Ferreira) e a Cida. Elas são muito amigas e a gente ensaiou muito, mas são duas atrizes iniciantes que nunca tiveram em set. Para mim, precisava dos improvisos também para elas se acostumarem com a gente. Se rolasse alguma coisa eu estava ali com a câmera e filmava.


O nome das personagens que você perguntou. Todo mundo tinha nome, mas aquele codinome, o nome de guerra das personagens, eu meio que inventei depois. Com personagens, a não ser que todo mundo fique se chamando no filme, a maioria dos nomes não é dito, então os codinomes foram uma forma do público identificar quem é quem. Alguns a gente meio que já usava durante a filmagem informalmente, outros eu inseri depois nos créditos. Até surpreendi algumas atrizes e elas amaram.


A.L: Eu li em uma entrevista sua para o Correio Braziliense que você encontrou uma prostituta em um bar de Ceilândia, que te ofereceu trabalho, e essa foi a inspiração inicial para o filme. Como que esse encontro lá atrás, em 2015, te atravessou e levou ao seu longa de estreia? 


D.V.: Foi um encontro de uma noite estar lá bebendo e topar com essa mana no banheiro que, na maior naturalidade, me perguntou se eu já tinha feito programa. Ela queria saber se eu topava porque ela estava precisando de uma outra mulher para substituir ela num ponto.


E ela me falou uma coisa que eu acho que foi o que desencadeou, o que me despertou mais. Ela começou a me contar como ela começou. Ela falou assim, “antes de fazer programa, eu saí numa sexta-feira e transei com um cara. No final de semana seguinte, no mesmo lugar, estava lá o mesmo cara que eu peguei e o amigo dele queria me pegar também. Aí eu pensei, é melhor cobrar então”. Ela poderia ter se sentido ofendida, achar que estava sendo tratada como objeto, mas decidiu transformar isso num trabalho. De certa forma, para mim foi como algo revolucionário. Não que eu ache que a prostituição em si seja um ato revolucionário; em nenhum momento esse filme era um desejo de fazer um tratado sobre a prostituição. Mas o cinema é um jeito de adentrar em coisas que são complexas e ver sentimentos, lados que às vezes são opacos, podendo adentrar outros universos. Sobre esse tema, para mim era sobre adentrar esse universo, poder fantasiar sobre isso de maneira complexa e quanto aos significados de ter um olhar voltado para o corpo feminino. Principalmente desafiar preconceitos associados à profissão e olhar para isso com cuidado.


A. L.: Você finalizou seu discurso no Festival de Brasília dizendo: “Nossas armas de guerra mais poderosas, a intuição e a putaria”. Como você vê que essas duas armas – a intuição e a putaria – são utilizadas em Sabes de Mim…? Qual a importância de fazer um cinema intuitivo e cheio de putaria?


D.V.: O que movimenta a trama do filme e a história são percepções, coisas invisíveis. Isso que chamei de intuição, mas é uma percepção que está num outro nível, e que o cinema ajuda a concretizar. Coisas como atravessar uma parede, prever o futuro, essas que são as armas das personagens. E a putaria porque ela, junto com a intuição, desestabiliza. Vivemos um momento em que a racionalidade está em crise. Não dá mais pra viver nessa ilusão de que a racionalidade resolve as coisas. A putaria e a intuição seriam o oposto dessa racionalidade. E deveríamos olhar mais para isso.


A. L.: O projeto fez parte do Núcleo Criativo do Ceicine, o coletivo de cinema de Ceilândia. Especialmente em um contexto de desenvolvimento do cinema independente e periférico, como foi essa iniciativa e o quanto ela foi importante para Sabes de Mim…?


D.V.: O núcleo foi fundamental para o projeto. Na época, a produtora da Cinco da Norte passou no edital da ANCINE de Núcleos Criativos. Eram cinco projetos de longa-metragem, cinco roteiristas, cada um desenvolvendo o seu roteiro em um período de 18 meses. Era um recurso que proporcionava encontros entre nós, de ter dinheiro e tempo para pesquisar, escrever e contratar consultorias para desenvolver e tornar mais competitivos nossos projetos. Falávamos sobre roteiro, orçamento, plano de direção, toda a conceitualização estética do filme e a cada dois meses, lá em Ceilândia, nos encontrávamos presencialmente para conversar entre si e junto com os consultores. Foi incrível, sabe? E esse edital foi de 2016 e só esse ano, dez anos depois, foi a primeira vez que ele saiu de novo. Um edital que foi escanteado esse tempo todo e que é super importante.


O núcleo girava um pouco em torno da discussão do que é cinema popular. Estamos acostumados a ouvir que cinema popular tem que se encaixar num formato de exibição pré-concebido para alcançar um determinado público. Essa visão, definida pelas comédias americanas e o cinema de blockbuster, era o que queríamos desafiar, pensando cinema popular a partir da história do próprio cinema brasileiro. Era uma boa discussão porque queríamos filmar as pessoas que conhecíamos, dentro da Ceilândia. Procurar dentro de dinâmicas próximas a nós formas de narrar histórias e, ao mesmo tempo, trazer uma identificação e formação de público também. Não tínhamos resposta pronta, mas era o que movia nossos encontros.


A.L.: Você tinha o desejo de trabalhar simultaneamente como diretora de arte e realizadora no longa, o que acabou não se concretizando. Nesse sentido, como foi a entrada da Sarah Noda no filme? Como foram as trocas entre vocês para a construção do universo do longa?


D.V.: Era um plano quase impossível fazer direção e direção de arte conjuntamente. Para que isso acontecesse, precisava de muito tempo. Tínhamos até planejado que, se conseguíssemos encontrar o prédio com quatro meses de antecedência e dependendo do valor de aluguel, talvez desse tempo, mas não foi o que aconteceu.


Eu tinha participado de uma mesa sobre direção de arte com a Sarah. Conversei com ela e super rolou dela entrar no projeto. Não deve ter sido fácil para ela, fazer arte em um filme em que a diretora é diretora de arte, mas acho que deu certo, apesar do grande desafio para ela e toda sua equipe. Acho que elas fizeram um trabalho muito bom, mas talvez você devesse tentar conversar com ela, ouvir a opinião dela (risos).


Durante a filmagem, eu não fiquei lamentando por não ter feito a direção de arte. Foi a coisa certa a fazer e foi bom ter uma outra pessoa pensando nisso e interagindo com a gente. Mas, por causa do meu histórico mesmo, eu ainda tenho esse desejo de um dia construir a direção e direção de artes juntas, pensar um filme onde isso seja possível.


A.L.: Nesse mesmo assunto, o filme é dito como uma ficção científica, mas que também conversa muito com o presente. Como se deu a escolha de fazer uma distopia que está muito fundada na realidade? 


Foi algo que a Sarah (Noda) me questionou muito, sobre como seria o tempo no filme. Para mim, era como se elas tivessem parado no tempo, quase.


Por exemplo, decidimos não ter celular, televisão ou qualquer equipamento que fosse um marcador de tempo muito forte no filme. Foi algo, inclusive, que a gente fez questão de tirar. O que importava era o filme se passar em um espaço que misturasse o doméstico e o interior, algo como uma casa de mulheres junto ao espaço do cabaré. O plano era o espaço ser o mais comum possível, o que poderia representar tanto o passado quanto o futuro.


O importante era não dizer que aquilo era um tempo específico – sei lá, dois mil e oitenta e tantos. Para mim, o cabaré é uma coisa que os anos passam, os séculos passam e ele continua mais ou menos a mesma coisa. Esse foi o mote que eu passei para a direção de arte.


A.L.: A exemplo da homenageada da Mostra CineBH, Paz Encina, que demorou dez anos entre seu longa de estreia e o próximo, não existe pressa para fazer cinema. Mas acredito que um filme como Sabes de Mim, Agora Esqueça, que vai pensar o futuro, deixa uma pergunta: o que o futuro aguarda para você? Quais são seus próximos projetos e desejos?


D.V.: Eu espero não ficar dez anos para fazer o próximo filme (risos). Lançar o primeiro filme dá uma empolgação, sabe? Não tem como negar. 


Eu trabalho também como diretora de arte. Inclusive, estou aqui agora (em Belo Horizonte) fazendo isso, porque a gente tem que sobreviver. Mas eu estou escrevendo. Tenho agora um projeto que escrevi dentro de um edital de desenvolvimento. O filme se chama Pisa Mãos, Coro Grosso, que conta também com a Cida. Já fiz um filme de putaria, agora vou fazer um filme só de reza (risos).


É meio um filme de caça ao tesouro, sabe? Nele, quero aprofundar um pouco como trazer para o cinema os superpoderes femininos. Porque a personagem da Cida vai ter intuições sobre onde está o que ela está procurando. Tem também uma relação com o umbigo do filho que ela enterrou no Sol Nascente e não sabe onde está mais… Enfim, espero que a gente tenha editais onde colocar o filme e eu não fique dez anos para fazer o próximo (risos).


Mas o desejo de filmar é muito grande. Principalmente depois de... Dá muito trabalho fazer um filme, sabe? A gente que é mulher, principalmente, desconfia muito da nossa própria capacidade. Eu desconfiei muito, durante muito tempo. Não é fácil sustentar a coisa de levar o filme, de produzir também. O filme dá trabalho. Ele consome pelo menos cinco anos de trabalho intenso. Na verdade, é para a vida toda. Mas eu digo assim, que é muita entrega, é muito trabalho. Quando você consegue lançar e ir para os festivais, quando você vê que há reconhecimento, dá muita vontade de fazer mais. Mas para isso a gente precisa de um governo que invista no nosso trabalho, na nossa produção.


***


Ao final da entrevista, nos despedimos afetuosamente. Não disse isso à ela, mas escrevo aqui: também espero não ter que esperar dez anos para ver outro longa seu, Denise. Já estou no aguardo das rezas do seu próximo projeto. E mesmo que não seja esse, que venha a ser outra ideia, que o público (e eu também) possa encontrar mais dos seus contos no cinema, sejam eles quais forem.


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