20ª CineBH – Bicho de sete cabeças: O cinema contando a realidade do Brasil
Por Laiana Lussani | Críticas
Texto escrito em cobertura colaborativa da 20ª CineBH, promovida pela plataforma Sara y Rosa, com revisão e edição de Juliana Gusman e Nayara Aguiar.

O filme Bicho de Sete Cabeças (2000) integrou a Retrospectiva 20 anos da CineBH. Inspirado numa história real do livro Cantos dos Malditos (1990) de Austregésilo Carrano Bueno, o roteiro foi escrito por Luiz Bolognesi e dirigido por Laís Bodanzky. A expressão “bicho de sete cabeças” remete a algo que provoca angústia e preocupação, uma situação que vai crescendo e transformando a angústia em algo complicado de resolver. Acompanhamos a história de Neto, um jovem adolescente com um relacionamento complicado com a sua família, considerado um rebelde e com uma personalidade forte: ele anda de skate, picha os muros da cidade e sai com os amigos. Explorava a liberdade para fazer o que quisesse, sem entabular conversas mais profundas com seus familiares sobre suas atitudes. Um dia, o seu pai encontra um cigarro de maconha no seu casaco e a família decide colocá-lo numa clínica psiquiátrica - na verdade, um espaço de punição silenciosa, onde pessoas iriam sem ter algum laudo clínico. Nesse sentido, o filme apresenta uma realidade crua de vitimização de vários grupos sociais como: jovens rebeldes, pessoas mais velhas, mulheres, pessoas LGBTQIA +, pessoas PCDs e surdas, indivíduos que não se enquadravam nos padrões da sociedade e eram rejeitados e sofriam diversos abusos.
O filme se inicia com um senhor lendo uma carta, não entendemos de imediato mas, no decorrer da trama, compreendemos o significado da trajetória apresentada e a importância da carta que abre o filme. Neto, interpretado por Rodrigo Santoro em seu primeiro longa-metragem, exibe de forma agonizante e dramática as nuances realistas e, em muitos momentos, brutais do desenvolvimento do jovem. Seu arco narrativo se desenvolve progressivamente diante das circunstâncias às quais é submetido, marcadas pelo abismo entre ele e seus familiares. Todo esse processo gera um afastamento do personagem de tudo, e uma incapacidade de procurar conversas reais sobre seus sentimentos e frustrações.
A forma que a câmera vai construindo e apresentando a ambientação e os personagens - principais, antagonistas e figurantes - evidencia a realidade nua e crua dos hospitais, contendo o ápice de confusão, medo e crítica. O filme transforma os diálogos dos personagens em denúncias, questionando a omissão dos órgãos públicos e privados da época. Destaque para o autoritarismo dos médicos e enfermeiros que, ao não se comunicarem com os pacientes, transformam o ambiente em um espaço de pura opressão. O som das emoções, a ambiência e a trilha instituem uma atmosfera melancólica e de precariedade. Em muitos momentos, os silêncios longos, os diálogos e os monólogos apresentam a frieza entre as pessoas, enquanto a trilha intensifica ainda mais a dor.
A composição das cenas transborda um desespero sufocante, marcado pelo medo terrível e a impotência diante da impossibilidade de salvar alguém engolido por aquele sistema. Os planos mais fechados trazem a sensação de agonia e claustrofobia, enquanto a câmera lenta, e as distorções organizadas mostram os personagens à beira de um colapso mental.
A direção aproveita a construção dos atores no aspecto de mostrar a profundidade das relações familiares, entre amigos, e até no hospital psiquiátrico. A arte do ambiente possui características lúdicas e sádicas; na mesma medida, consegue-se sentir a aflição dos cortes da montagem, a forma como a trajetória do personagem vai perdendo o desejo de liberdade e pelo retorno à sua antiga versão. O filme não tenta ser leve, é direto e informativo, ele transforma a realidade do questionamento e mostra as consequências das lutas pelo controle dos indivíduos que estão internados em hospitais psiquiátricos.
Sua crítica social rendeu a distribuição de prêmios em festivais de todo o país e internacionalmente, acumulando 45 premiações e 20 indicações. É uma história que transcende o cinema brasileiro, trazendo em pauta a realidade dos hospitais psiquiátricos. O filme alavancou a discussão que, futuramente, no ano de 2001, culminou na criação da Lei nº 10.216/2001, fruto do Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM), ativo desde 1979. Diante do silêncio imposto àqueles que perderam o direito à liberdade e ao acesso a uma vida sem o sofrimento provocado por práticas como os choques elétricos, medicação e abandono psicológico, a morte chegou a ser vista como a única saída. Todas essas histórias, como a de Bicho de Sete Cabeças, são essenciais para que nunca esqueçamos o passado e os estigmas sobre a saúde mental de um país.










![Em nova entrevista publicada no site, Anna Lia conversa com a cineasta Denise Vieira sobre seu longa de estreia, Sabes de Mim, Agora Esqueça (2026), que foi exibido na Mostra Horizontes da 20ª CineBH.
A conversa mergulha nas visões da diretora sobre o cinema brasileiro feito a partir da periferia e por mulheres. Denise reflete sobre o processo de construção compartilhado com as atrizes, a urgência de redefinir o cinema popular fora dos padrões hegemônicos e a potência de uma criação guiada pela intuição e pelo erótico que vai em contramão da racionalidade:
“[...] o cinema é um jeito de adentrar em coisas que são complexas e ver sentimentos, lados que às vezes são opacos, podendo adentrar outros universos.”
🔗 Leia a entrevista completa em sarayrosa.com
🇪🇸
En una nueva entrevista publicada en el site, Anna Lia conversa con la cineasta Denise Vieira sobre su largometraje de debut, "Sabes de Mim, Agora Esqueça" (2026), que se proyectó en la sección Horizontes de la 20ª edición de CineBH.
La conversación profundiza en la visión de la directora sobre el cine brasileño realizado desde la periferia y por mujeres. Denise reflexiona sobre el proceso de construcción compartido con las actrices, la urgencia de redefinir el cine popular al margen de los estándares hegemónicos y la potencia de una creación guiada por la intuición y lo erótico, que se aleja de la racionalidad:
"[...] el cine es una manera de adentrarse en cosas que son complejas y ver sentimientos, lados que a veces son opacos, pudiendo entrar en otros universos".
🔗 Lee la entrevista completa en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/849508579_17937437964390781_2655953640829663480_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=108&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=bKcPqYU2yqYQ7kNvwFMsW6d&_nc_oc=AdrNH60YhjLpNLFZIm8TJYSNqk34MVEVg2AUne5HPi5wwaV0eCRI153Nkk4UiyiuO1c&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=AY_3awV7xbferk8I5JbXqg&_nc_tpa=Q5bMBQLO0Gefd5cMhNO7_dAUfkRBh4UklA7qvYL3h3dZqbcSTUC3a6SWpjqx8kOAUsbh8tzRhO4nGCMt&oh=00_AQRtefTxh-1kqjeQDLudK7YOxtAtbiTcRUjMIM24_4pReg&oe=6AED164F)







![A partir da exibição de "Virtuosas" na 20ª CineBH, em novo texto do site, Nayara Aguiar destrincha como a diretora Cíntia Domit Bittar articula as mecânicas do fundamentalismo religioso no Brasil contemporâneo.
Ao articular a lógica de mercado da fé e a vigilância moral exercida entre as próprias mulheres, o texto investiga as raízes dessa violência e a escolha da linguagem do terror:
"É no pathos específico das políticas afetivas deturpadas do fundamentalismo religioso que nasce um moralismo pungente e, desse moralismo, uma violência [...] fria na engrenagem que a arquiteta, quente nas mãos que as executam — um terror naturalista, afinal, onde mais se travaria um filme do gênero senão em Santa Catarina?”
🔗 Leia a crítica completa em sarayrosa.com
🇪🇸
Tras la proyección de "Virtuosas" en la 20ª Muestra CineBH, Nayara Aguiar diseca en el nuevo artículo en el site cómo la directora Cíntia Domit Bittar articula la mecánica del fundamentalismo religioso en el Brasil contemporáneo.
Al vincular la lógica mercantil de la fe con la vigilancia moral ejercida sobre las propias mujeres, el texto investiga las raíces de esta violencia y la elección del lenguaje del terror:
"Es en el pathos específico de las políticas afectivas deturpadas del fundamentalismo religioso donde nace un moralismo punzante y, de ese moralismo, una violencia que la película de Cíntia Domit Bittar transforma en propuesta: fría en el engranaje que la arquitecta, cálida en la mano que la ejecuta — un terror naturalista, al fin y al cabo, ¿dónde más se libraría una película del género sino en Santa Catarina?"
🔗 Lea la crítica completa en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/825270038_17934869712390781_1812860770498213797_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=106&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=_6dSBuDEB1QQ7kNvwE8sUiy&_nc_oc=Adp_YOaQUc97g7TGAwdQfvCJ5OW3E7MZ-GZTFHq9a09y7R6aEFI2ta5mS0vgR8FCIzA&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=AY_3awV7xbferk8I5JbXqg&_nc_tpa=Q5bMBQKse0eAreYRu3V0akwoIXn-Z5bbyqfoDYpIsRTXqcvLTxK3A6tDFkutXNshWlGt-dDh0EjYIckI&oh=00_AQQ-NIQARsG8qmkQyXhIF7QM_RLlEfVOGw-KxDOpW7vF7Q&oe=6AECF316)















Comentários