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20ª CineBH – Bicho de sete cabeças: O cinema contando a realidade do Brasil

23 de out.
3 min de leitura

Por Laiana Lussani | Críticas


Texto escrito em cobertura colaborativa da 20ª CineBH, promovida pela plataforma Sara y Rosa, com revisão e edição de Juliana Gusman e Nayara Aguiar.


Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

O filme Bicho de Sete Cabeças (2000) integrou a Retrospectiva 20 anos da CineBH. Inspirado numa história real do livro Cantos dos Malditos (1990) de Austregésilo Carrano Bueno, o roteiro foi escrito por Luiz Bolognesi e dirigido por Laís Bodanzky. A expressão “bicho de sete cabeças” remete a algo que provoca angústia e preocupação, uma situação que vai crescendo e transformando a angústia em algo complicado de resolver. Acompanhamos a história de Neto, um jovem adolescente com um relacionamento complicado com a sua família, considerado um rebelde e com uma personalidade forte: ele anda de skate, picha os muros da cidade e sai com os amigos. Explorava a liberdade para fazer o que quisesse, sem entabular conversas mais profundas com seus familiares sobre suas atitudes. Um dia, o seu pai encontra um cigarro de maconha no seu casaco e a família decide colocá-lo numa clínica psiquiátrica - na verdade, um espaço de punição silenciosa, onde pessoas iriam sem ter algum laudo clínico. Nesse sentido, o filme apresenta uma realidade crua de vitimização de vários grupos sociais como: jovens rebeldes, pessoas mais velhas, mulheres, pessoas LGBTQIA +, pessoas PCDs e surdas, indivíduos que não se enquadravam nos padrões da sociedade e eram rejeitados e sofriam diversos abusos.


O filme se inicia com um senhor lendo uma carta, não entendemos de imediato mas, no decorrer da trama, compreendemos o significado da trajetória apresentada e a importância da carta que abre o filme. Neto, interpretado por Rodrigo Santoro em seu primeiro longa-metragem, exibe de forma agonizante e dramática as nuances realistas e, em muitos momentos, brutais do desenvolvimento do jovem. Seu arco narrativo se desenvolve progressivamente diante das circunstâncias às quais é submetido, marcadas pelo abismo entre ele e seus familiares. Todo esse processo gera um afastamento do personagem de tudo, e uma incapacidade de procurar conversas reais sobre seus sentimentos e frustrações.


A forma que a câmera vai construindo e apresentando a ambientação e os personagens - principais, antagonistas e figurantes - evidencia a realidade nua e crua dos hospitais, contendo o ápice de confusão, medo e crítica. O filme transforma os diálogos dos personagens em denúncias, questionando a omissão dos órgãos públicos e privados da época. Destaque para o autoritarismo dos médicos e enfermeiros que, ao não se comunicarem com os pacientes, transformam o ambiente em um espaço de pura opressão. O som das emoções, a ambiência e a trilha instituem uma atmosfera melancólica e de precariedade. Em muitos momentos, os silêncios longos, os diálogos e os monólogos apresentam a  frieza entre as pessoas, enquanto a trilha intensifica ainda mais a dor.


A composição das cenas transborda um desespero sufocante, marcado pelo medo terrível e a impotência  diante da impossibilidade de salvar alguém engolido por aquele sistema. Os planos mais fechados trazem a sensação de agonia e claustrofobia, enquanto a câmera lenta, e as distorções organizadas mostram os personagens à beira de um colapso mental. 


A direção aproveita a construção dos atores no aspecto de mostrar a profundidade das relações familiares, entre amigos, e até no hospital psiquiátrico. A arte do ambiente possui características lúdicas e sádicas; na mesma medida, consegue-se sentir a aflição dos cortes da montagem, a forma como a trajetória do personagem vai perdendo o desejo de liberdade e pelo retorno à sua antiga versão. O filme não tenta ser leve, é direto e informativo, ele transforma a realidade do questionamento e mostra as consequências das lutas pelo controle dos indivíduos que estão internados em hospitais psiquiátricos. 


Sua crítica social rendeu a distribuição de prêmios em festivais de todo o país e internacionalmente, acumulando 45 premiações e 20 indicações. É uma história que transcende o cinema brasileiro, trazendo em pauta a realidade dos hospitais psiquiátricos. O filme alavancou a discussão que, futuramente, no ano de 2001, culminou na criação da Lei nº 10.216/2001, fruto do Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM), ativo desde 1979. Diante do silêncio imposto àqueles que perderam o direito à liberdade e ao acesso a uma vida sem o sofrimento provocado por práticas como os choques elétricos, medicação e abandono psicológico, a morte chegou a ser vista como a única saída. Todas essas histórias, como a de Bicho de Sete Cabeças, são essenciais para que nunca esqueçamos o passado e os estigmas sobre a saúde mental de um país.


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