20ª CineBH - Cinema como brincadeira, brincadeira de cinema em A Fabulosa Máquina do Tempo
Por Anna Lia | Críticas
Texto escrito em cobertura colaborativa da 20ª CineBH, promovida pela plataforma Sara y Rosa, com revisão e edição de Juliana Gusman e Nayara Aguiar.

O encontro entre equipe e protagonistas tem como pretexto uma oficina de audiovisual, em que aulas e brincadeiras se misturam com cinema direto. As meninas, espertas e engraçadas, logo tomam a cena; subvertem o que a diretora mostrava, preenchendo com sua realidade e dando outros tons. A ficção, em forma de teatrinhos, vira mecanismo de lidar com o mundo – como quando Sophia, ao entrevistar a mãe e descobrir que meninas da sua idade podem morrer, se transforma em zumbi no curtinha que protagoniza. Cinema para manejar a vida. Cinema como brincadeira, brincadeira de cinema.
Das diversas grandezas levantadas em A Fabulosa Máquina do Tempo, duas me instigaram. A primeira delas é sobre a representação da infância. De maneira geral, ela não é forjada pelo sujeito infantil, mas por adultos que convivem com crianças (Lopes, 2009; 2008). São processos nos quais as crianças não têm voz na construção do significado dessas imagens, seja para discordar delas, seja para se defender. Esse panorama agrava-se no caso de crianças em contextos de marginalização social que vivem contextos que as imagens costumam ser negativas (Guerra, 2019). É lembrar de Pixote (Hector Babenco, 1980), que cravou essa pegada no cinema nacional, e outros exemplos da retomada (com representações exclusivamente masculinas): Central do Brasil (Walter Salles, 1999) e Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002).
Surpreendentemente, o documentário joga esse quadro fora e faz magia, pois a sensação é de que as meninas fazem o filme por completo. Espontâneas, espertas e curiosas, as meninas têm suas ideias e opiniões levadas a sério. Sua realidade não é uma sentença, mas seu instrumento de fabulação. Há sonhos e questionamentos: 14 meninas no centro e no coração da tela.
Em segundo lugar, fascina a forma como a aculturação sobre machismo, maternidade e religião é ensinada de maneira tão natural. Em uma das cenas mais diretas, a câmera captura uma casa amarela e simples, ainda com pôsteres de candidatos políticos na fachada. Há um corredor de terra entre essa casa e outra. Ali, dois meninos jogam bola. Na casa, as meninas varrem a entrada. Mesmo plano, duas realidades. Quando Sophia pergunta para a mãe sobre essa diferença de tratamento, ela diz que é porque “os meninos são mais espertos”. Depois, em uma conversa entre as crianças da cidade, são eles que afirmam: “o homem é o gigante da mulher”. Mas se a sociedade é capaz de transmitir tais lições, as meninas são igualmente capazes de questioná-las. Sem necessidade de uma compreensão totalmente madura das coisas, indagam mesmo assim. É esta transformação, singela mas certeira, que é tão linda de ver.
Quando a realizadora retorna ao cenário de Severinas (2013) e No Devagar Depressa dos Tempos (2014), vai com angústias amplificadas. Se, na década passada, o motivo da ida era retratar a saída do Brasil do mapa da fome na cidade tida como modelo do Bolsa Família, agora a pergunta é: o que aconteceu com essas famílias após um governo de desmonte liderado pela extrema-direita? Voltaram para a escravidão, para a pobreza? O filme não nos dá essas respostas diretamente, o encontro com as meninas é mais avassalador. Ainda assim, essa dimensão política ressoa para além do filme.
A dias de mais uma eleição que pode definir não só os rumos do país, mas também o destino dessas meninas terão de escolher entre “brincar de cinema ou passar fome” (como disse Eliza Capai no Cine Santa Tereza), o mero risco de que isso aconteça assustou todos na sala. Junto com a realizadora, todos nos emocionamos, com medo de uma realidade em que essas 14 meninas poderiam voltar para a miséria. O impacto existe porque já aconteceu: quando a equipe retornou à Guaribas em 2021, pouco antes da gravação do documentário, muitas daquelas famílias que encontrou anos atrás haviam voltado para a fome. Se para alguns essa questão tem viés de propaganda quando exposto no filme, uma distorção das mensagens das meninas, acredito que elas sejam indissociáveis. A traição seria um documentário com essa temática, feita em Guaribas, não se posicionar sobre o perigo que elas correm. A realizadora sabe de sua responsabilidade como cineasta, que não bastaria apenas dar espaço para as feições e sensibilidades dessas meninas e não falar das ameaças à sua possibilidade de sonhar, discordar e desafiar suas realidades.
Para todas as meninas, que lhes seja permitido sonhar e viver tempos cada vez melhores. Que fabular sobre si e sobre o mundo seja a realidade, e não uma vivência distante. Que não falte políticas públicas que lhes proporcionem estudos e condições de vida. Que viver continue sendo uma eterna brincadeira, com suas fabulosas máquinas do tempo.
Referências
GUERRA (UFRN), Susana. Infância e pobreza: as crianças ao cuidado do cinema. Margens, [S.l.], v. 12, n. 18, p. 54-63, 2019. Disponível em: <https://periodicos.ufpa.br/index.php/revistamargens/article/view/7650>.
LOPES, Francisca Rodrigues. Cinema e Cultura: As Representações na Infância em filmes com crianças. In: IV Encontro Iberoamericano de Educação, 2009, Araraquara. Anais do IV Encontro Iberoamericano de Educação. Araraquara: Editora Unesp, 2009.
LOPES, José de Sousa Miguel. O Cinema da infância. Leituras transdisciplinares de telas e textos. Belo Horizonte, v. 4, n. 7, p. 22-35, 2008.




![Em nova entrevista publicada no site, Anna Lia conversa com a cineasta Denise Vieira sobre seu longa de estreia, Sabes de Mim, Agora Esqueça (2026), que foi exibido na Mostra Horizontes da 20ª CineBH.
A conversa mergulha nas visões da diretora sobre o cinema brasileiro feito a partir da periferia e por mulheres. Denise reflete sobre o processo de construção compartilhado com as atrizes, a urgência de redefinir o cinema popular fora dos padrões hegemônicos e a potência de uma criação guiada pela intuição e pelo erótico que vai em contramão da racionalidade:
“[...] o cinema é um jeito de adentrar em coisas que são complexas e ver sentimentos, lados que às vezes são opacos, podendo adentrar outros universos.”
🔗 Leia a entrevista completa em sarayrosa.com
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En una nueva entrevista publicada en el site, Anna Lia conversa con la cineasta Denise Vieira sobre su largometraje de debut, "Sabes de Mim, Agora Esqueça" (2026), que se proyectó en la sección Horizontes de la 20ª edición de CineBH.
La conversación profundiza en la visión de la directora sobre el cine brasileño realizado desde la periferia y por mujeres. Denise reflexiona sobre el proceso de construcción compartido con las actrices, la urgencia de redefinir el cine popular al margen de los estándares hegemónicos y la potencia de una creación guiada por la intuición y lo erótico, que se aleja de la racionalidad:
"[...] el cine es una manera de adentrarse en cosas que son complejas y ver sentimientos, lados que a veces son opacos, pudiendo entrar en otros universos".
🔗 Lee la entrevista completa en sarayrosa.com](https://scontent-sea5-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/849508579_17937437964390781_2655953640829663480_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=108&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=QvrHfJloTAwQ7kNvwGuIhIR&_nc_oc=AdpDHabNxe-7bTa39BG-jIWdG_u-aru6u7vjx8Ys-mHqQu4JC1pkHHo79qTnn4fovfw&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-sea5-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=TWukA0otWZOIw3B50aE1pQ&_nc_tpa=Q5bMBQLrAnCKP2_LI_GudU0h2j6U5lKnqCxo1NZ3EvTN_hVneyxDU3viNJzweHbx1wmpdblx55LTUKkj&oh=00_AQNg4zwiQRZiSomDKUuK2k7ECsnCoO7cxbMU8FSgQ85sTA&oe=6ADF3E8F)







![A partir da exibição de "Virtuosas" na 20ª CineBH, em novo texto do site, Nayara Aguiar destrincha como a diretora Cíntia Domit Bittar articula as mecânicas do fundamentalismo religioso no Brasil contemporâneo.
Ao articular a lógica de mercado da fé e a vigilância moral exercida entre as próprias mulheres, o texto investiga as raízes dessa violência e a escolha da linguagem do terror:
"É no pathos específico das políticas afetivas deturpadas do fundamentalismo religioso que nasce um moralismo pungente e, desse moralismo, uma violência [...] fria na engrenagem que a arquiteta, quente nas mãos que as executam — um terror naturalista, afinal, onde mais se travaria um filme do gênero senão em Santa Catarina?”
🔗 Leia a crítica completa em sarayrosa.com
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Tras la proyección de "Virtuosas" en la 20ª Muestra CineBH, Nayara Aguiar diseca en el nuevo artículo en el site cómo la directora Cíntia Domit Bittar articula la mecánica del fundamentalismo religioso en el Brasil contemporáneo.
Al vincular la lógica mercantil de la fe con la vigilancia moral ejercida sobre las propias mujeres, el texto investiga las raíces de esta violencia y la elección del lenguaje del terror:
"Es en el pathos específico de las políticas afectivas deturpadas del fundamentalismo religioso donde nace un moralismo punzante y, de ese moralismo, una violencia que la película de Cíntia Domit Bittar transforma en propuesta: fría en el engranaje que la arquitecta, cálida en la mano que la ejecuta — un terror naturalista, al fin y al cabo, ¿dónde más se libraría una película del género sino en Santa Catarina?"
🔗 Lea la crítica completa en sarayrosa.com](https://scontent-sea5-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/825270038_17934869712390781_1812860770498213797_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=106&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=0OWpA3cyJHoQ7kNvwHCQ_qQ&_nc_oc=Ado6y9_H-p637MyPnlJDPPAEJJiNZ60C_6EW05LT-vQs5-E2b5iKagrqwo6ntUuci4U&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-sea5-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=TWukA0otWZOIw3B50aE1pQ&_nc_tpa=Q5bMBQIcm24_NIufx0EiTjNsR74jGmpXiFnQ2IiWiy2Z1wzl1laod1WWh7w6Re8mTOXeLi6VEtL7jB1b&oh=00_AQPlW3OJwfcfuDDiMCMobu4w5cGjQeaOXZgvRXCjBzrznw&oe=6ADF1B56)





















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