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20ª CineBH - Cinema como brincadeira, brincadeira de cinema em A Fabulosa Máquina do Tempo

14 de out.
4 min de leitura

Por Anna Lia | Críticas


Texto escrito em cobertura colaborativa da 20ª CineBH, promovida pela plataforma Sara y Rosa, com revisão e edição de Juliana Gusman e Nayara Aguiar.


Foto: Eliza Capai | Divulgação
Foto: Eliza Capai | Divulgação

O encontro entre equipe e protagonistas tem como pretexto uma oficina de audiovisual, em que aulas e brincadeiras se misturam com cinema direto. As meninas, espertas e engraçadas, logo tomam a cena; subvertem o que a diretora mostrava, preenchendo com sua realidade e dando outros tons. A ficção, em forma de teatrinhos, vira mecanismo de lidar com o mundo – como quando Sophia, ao entrevistar a mãe e descobrir que meninas da sua idade podem morrer, se transforma em zumbi no curtinha que protagoniza. Cinema para manejar a vida. Cinema como brincadeira, brincadeira de cinema. 


Das diversas grandezas levantadas em A Fabulosa Máquina do Tempo, duas me instigaram. A primeira delas é sobre a representação da infância. De maneira geral, ela não é forjada pelo sujeito infantil, mas por adultos que convivem com crianças (Lopes, 2009; 2008). São processos nos quais as crianças não têm voz na construção do significado dessas imagens, seja para discordar delas, seja para se defender. Esse panorama agrava-se no caso de crianças em contextos de marginalização social que vivem contextos que as imagens costumam ser  negativas (Guerra, 2019). É lembrar de Pixote (Hector Babenco, 1980), que cravou essa pegada no cinema nacional, e outros exemplos da retomada (com representações exclusivamente masculinas): Central do Brasil (Walter Salles, 1999) e Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002).


Surpreendentemente, o documentário joga esse quadro fora e faz magia, pois a sensação é de que as meninas fazem o filme por completo. Espontâneas, espertas e curiosas, as meninas têm suas ideias e opiniões levadas a sério. Sua realidade não é uma sentença, mas seu instrumento de fabulação. Há sonhos e questionamentos: 14 meninas no centro e no coração da tela.


Em segundo lugar, fascina a forma como a aculturação sobre machismo, maternidade e religião é ensinada de maneira tão natural. Em uma das cenas mais diretas, a câmera captura uma casa amarela e simples,  ainda com pôsteres de candidatos políticos na fachada. Há um corredor de terra entre essa casa e outra. Ali, dois meninos jogam bola. Na casa, as meninas varrem a entrada. Mesmo plano, duas realidades. Quando Sophia pergunta para a mãe sobre essa diferença de tratamento, ela diz que é porque “os meninos são mais espertos”. Depois, em uma conversa entre as crianças da cidade, são eles que afirmam: “o homem é o gigante da mulher”. Mas se a sociedade é capaz de transmitir tais lições, as meninas são igualmente capazes de questioná-las. Sem necessidade de uma compreensão totalmente madura das coisas, indagam mesmo assim. É esta transformação, singela mas certeira, que é tão linda de ver.


Quando a realizadora retorna ao cenário de Severinas (2013) e No Devagar Depressa dos Tempos (2014), vai com angústias amplificadas. Se, na década passada, o motivo da ida era retratar a saída do Brasil do mapa da fome na cidade tida como modelo do Bolsa Família, agora a pergunta é: o que aconteceu com essas famílias após um governo de desmonte liderado pela extrema-direita? Voltaram para a escravidão, para a pobreza? O filme não nos dá essas respostas diretamente, o encontro com as meninas é mais avassalador. Ainda assim, essa dimensão política ressoa para além do filme.


A dias de mais uma eleição que pode definir  não só os rumos do país, mas também o destino dessas meninas terão de escolher entre “brincar de cinema ou passar fome” (como disse Eliza Capai no Cine Santa Tereza), o mero risco de que isso aconteça assustou todos na sala. Junto com a realizadora, todos nos emocionamos, com medo de uma realidade em que essas 14 meninas poderiam voltar para a miséria. O impacto existe porque já aconteceu: quando a equipe retornou à Guaribas em 2021, pouco antes da gravação do documentário, muitas daquelas famílias que encontrou anos atrás haviam voltado para a fome. Se para alguns essa questão tem viés de propaganda quando exposto no filme, uma distorção das mensagens das meninas, acredito que elas sejam indissociáveis. A traição seria um documentário com essa temática, feita em Guaribas, não se posicionar sobre o perigo que elas correm. A realizadora sabe de sua responsabilidade como cineasta, que não bastaria apenas dar espaço para as feições e sensibilidades dessas meninas e não falar das ameaças à sua possibilidade de sonhar, discordar e desafiar suas realidades.


Para todas as meninas, que lhes seja permitido sonhar e viver tempos cada vez melhores. Que fabular sobre si e sobre o mundo seja a realidade, e não uma vivência distante. Que não falte políticas públicas que lhes proporcionem estudos e condições de vida. Que viver continue sendo uma eterna brincadeira, com suas fabulosas máquinas do tempo. 



Referências


GUERRA (UFRN), Susana. Infância e pobreza: as crianças ao cuidado do cinema. Margens, [S.l.], v. 12, n. 18, p. 54-63, 2019. Disponível em: <https://periodicos.ufpa.br/index.php/revistamargens/article/view/7650>.


LOPES, Francisca Rodrigues. Cinema e Cultura: As Representações na Infância em filmes com crianças. In: IV Encontro Iberoamericano de Educação, 2009, Araraquara. Anais do IV Encontro Iberoamericano de Educação. Araraquara: Editora Unesp, 2009.


LOPES, José de Sousa Miguel. O Cinema da infância. Leituras transdisciplinares de telas e textos. Belo Horizonte, v. 4, n. 7, p. 22-35, 2008.


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