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19º CineBH: Rasga a memória e atravessa o corpo

  • Foto do escritor: Raianne Ferreira
    Raianne Ferreira
  • 11 de nov.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 14 de nov.


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Por Raianne Ferreira| Críticas


Este texto é uma colaboração especial entre a plataforma Sara y Rosa e o cineclube Guy-Blaché para cobertura do 19º CineBH.


Em sua 19ª edição, o CineBH reafirma o cinema como espaço de confronto entre memória e presente.  Em Cronicas del Absurdo (2023) de Miguel Coyula, exibido na Mostra Conexões, e Sebastiana (2024) de Pedro de Alencar, parte da Programação Muitas Familias: Fricções, Memórias e Contatos, a imagem é um corpo insurgente: convoca o espectador a encarar o trauma, a ausência e a opressão não como vestígios do passado, mas como rastros que ainda habitam e permanecem no presente. Esses filmes, embora partam de geografias distintas, Cuba e Brasil, encontram-se entre a dor íntima e o controle político, entre a lembrança individual e a história que se torna coletiva.


bell hooks, ao escrever o ensaio O Olhar Opositivo da Espectadora Negra (1992), lembra que para corpos historicamente subjugados, como mulheres, pessoas negras e artistas dissidentes, o exercício do olhar é um ato político. Olhar é desafiar a estrutura que tenta reduzir, silenciar e definir o outro. Em ambos os filmes, o olhar fílmico funciona como um contrapoder.


Cronicas del Absurdo,  de Miguel Coyula, é um documentário sobre a repressão e a censura enfrentadas por artistas independentes em Cuba, sobretudo por sua esposa Lynn Cruz. Construído a partir de gravações clandestinas, o filme expõe o controle político e suas contradições no cotidiano cubano. Lynn não é uma personagem, mas uma existência tensionada entre o gesto artístico e o confinamento social. A repressão em Cuba não se mostra através da brutalidade explícita, mas como uma violência simbólica, cotidiana, que se infiltra nas frestas da vida, moldando gestos, escolhas e desejos da artista, assim como suas relações pessoais de amizade e família. 


A câmera se aproxima dela como quem escuta uma confissão. Há uma intimidade quase desconfortável. Lynn está ali inteira: corpo, pensamento, ferida. O cinema se torna o espaço no qual ela pode existir sem pedir permissão. Sua vida, no entanto, é atravessada por controles. Como artista, teve o trabalho censurado; como mulher, enfrentou o peso de uma estrutura patriarcal que confunde  disciplina com dominação.


Coyula revela essa engrenagem de controle com uma estética que combina fragmentos de vídeo, áudios, fotografias e trilhas punk anárquicas, numa espécie de distorção visual que faz do próprio filme uma experiência de claustrofobia. Não me surpreende que algumas pessoas tenham deixado a sessão.


Filmar, aqui, é um gesto de insubordinação. hooks escreve que olhar de volta é desafiar o domínio do opressor. Lynn, ao ser filmada e ao se deixar filmar, reivindica seu direito de existir fora da moldura de controle do estado. Sua vulnerabilidade é íntima, mas sobretudo política. O filme de Coyula rasga a superfície da censura e expõe as microviolências que sustentam a “normalidade” de uma vida vigiada: o reconhecimento de que a opressão se disfarça de estabilidade. O espectador não apenas observa; ele participa da dor, atravessa o corpo de Lynn e se mistura à sua tentativa de sobreviver à memória de um país que insiste em tentar apagá-la.


Já em Sebastiana, o gesto de Pedro de Alencar é o da reconstrução. Se em Cronicas Del Absurdo o corpo é reprimido, aqui ele é ausente, mas essa ausência é também presença. O curta parte do luto e do afeto do diretor pelo pai, Isaltino, para revisitar a história da avó paterna, uma mulher negra, mãe solteira e periférica que teve sua vida ceifada pela violência patriarcal. A partir de arquivos familiares, Alencar transforma seu filme em uma ferramenta de escuta e recomposição. O luto é linguagem. Sebastiana, ausente nas imagens, é evocada pela oralidade, pelas paisagens e pelos jornais e manchetes da época que noticiaram sua trágica morte. O filme parte do vazio deixado por essa mulher, mas faz desse vazio um espaço de eco. Ao revisitar sua trajetória, o curta convoca todas as outras: as mães, filhas, e avós negras marginalizadas pelo tempo. O patriarcado, que em Cronicas del Absurdo se manifesta como controle político e simbólico, aqui aparece como violência direta sobre o corpo.


Mas Sebastiana não é apenas sobre a perda, mas sobre a permanência. O filme entende o luto como continuidade, como uma força que atravessou as gerações dessa família. Se o corpo de Sebastiana foi anulado, sua memória se refaz na imagem. A câmera torna-se ponte passado e presente, entre mortos e vivos. Filmar também é um modo de existir, e de permitir que os que vieram antes continuem respirando através da imagem. É nesse espaço que o pensamento de bell hooks ressoa novamente: a memória negra e feminina é uma forma de resistência à desumanização, uma maneira de se afirmar contra a estrutura que define quem deve ou não ser lembrado.


Rasgar a memória, nesses filmes, é também resgatar o corpo, o corpo individual, o corpo feminino e o corpo coletivo. A imagem torna-se o lugar onde o trauma se reescreve, onde o esquecimento é desafiado, onde o amor e a dor coexistem ao mesmo tempo. Ao final, o que permanece é o gesto de olhar, olhar para a história com a ferida aberta, e compreender que toda memória é também um espaço de ruptura.


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