19º CineBH: Rasga a memória e atravessa o corpo
Atualizado: 14 de nov. de 2025

Por Raianne Ferreira| Críticas
Este texto é uma colaboração especial entre a plataforma Sara y Rosa e o cineclube Guy-Blaché para cobertura do 19º CineBH.
Em sua 19ª edição, o CineBH reafirma o cinema como espaço de confronto entre memória e presente. Em Cronicas del Absurdo (2023) de Miguel Coyula, exibido na Mostra Conexões, e Sebastiana (2024) de Pedro de Alencar, parte da Programação Muitas Familias: Fricções, Memórias e Contatos, a imagem é um corpo insurgente: convoca o espectador a encarar o trauma, a ausência e a opressão não como vestígios do passado, mas como rastros que ainda habitam e permanecem no presente. Esses filmes, embora partam de geografias distintas, Cuba e Brasil, encontram-se entre a dor íntima e o controle político, entre a lembrança individual e a história que se torna coletiva.
bell hooks, ao escrever o ensaio O Olhar Opositivo da Espectadora Negra (1992), lembra que para corpos historicamente subjugados, como mulheres, pessoas negras e artistas dissidentes, o exercício do olhar é um ato político. Olhar é desafiar a estrutura que tenta reduzir, silenciar e definir o outro. Em ambos os filmes, o olhar fílmico funciona como um contrapoder.
Cronicas del Absurdo, de Miguel Coyula, é um documentário sobre a repressão e a censura enfrentadas por artistas independentes em Cuba, sobretudo por sua esposa Lynn Cruz. Construído a partir de gravações clandestinas, o filme expõe o controle político e suas contradições no cotidiano cubano. Lynn não é uma personagem, mas uma existência tensionada entre o gesto artístico e o confinamento social. A repressão em Cuba não se mostra através da brutalidade explícita, mas como uma violência simbólica, cotidiana, que se infiltra nas frestas da vida, moldando gestos, escolhas e desejos da artista, assim como suas relações pessoais de amizade e família.
A câmera se aproxima dela como quem escuta uma confissão. Há uma intimidade quase desconfortável. Lynn está ali inteira: corpo, pensamento, ferida. O cinema se torna o espaço no qual ela pode existir sem pedir permissão. Sua vida, no entanto, é atravessada por controles. Como artista, teve o trabalho censurado; como mulher, enfrentou o peso de uma estrutura patriarcal que confunde disciplina com dominação.
Coyula revela essa engrenagem de controle com uma estética que combina fragmentos de vídeo, áudios, fotografias e trilhas punk anárquicas, numa espécie de distorção visual que faz do próprio filme uma experiência de claustrofobia. Não me surpreende que algumas pessoas tenham deixado a sessão.
Filmar, aqui, é um gesto de insubordinação. hooks escreve que olhar de volta é desafiar o domínio do opressor. Lynn, ao ser filmada e ao se deixar filmar, reivindica seu direito de existir fora da moldura de controle do estado. Sua vulnerabilidade é íntima, mas sobretudo política. O filme de Coyula rasga a superfície da censura e expõe as microviolências que sustentam a “normalidade” de uma vida vigiada: o reconhecimento de que a opressão se disfarça de estabilidade. O espectador não apenas observa; ele participa da dor, atravessa o corpo de Lynn e se mistura à sua tentativa de sobreviver à memória de um país que insiste em tentar apagá-la.
Já em Sebastiana, o gesto de Pedro de Alencar é o da reconstrução. Se em Cronicas Del Absurdo o corpo é reprimido, aqui ele é ausente, mas essa ausência é também presença. O curta parte do luto e do afeto do diretor pelo pai, Isaltino, para revisitar a história da avó paterna, uma mulher negra, mãe solteira e periférica que teve sua vida ceifada pela violência patriarcal. A partir de arquivos familiares, Alencar transforma seu filme em uma ferramenta de escuta e recomposição. O luto é linguagem. Sebastiana, ausente nas imagens, é evocada pela oralidade, pelas paisagens e pelos jornais e manchetes da época que noticiaram sua trágica morte. O filme parte do vazio deixado por essa mulher, mas faz desse vazio um espaço de eco. Ao revisitar sua trajetória, o curta convoca todas as outras: as mães, filhas, e avós negras marginalizadas pelo tempo. O patriarcado, que em Cronicas del Absurdo se manifesta como controle político e simbólico, aqui aparece como violência direta sobre o corpo.
Mas Sebastiana não é apenas sobre a perda, mas sobre a permanência. O filme entende o luto como continuidade, como uma força que atravessou as gerações dessa família. Se o corpo de Sebastiana foi anulado, sua memória se refaz na imagem. A câmera torna-se ponte passado e presente, entre mortos e vivos. Filmar também é um modo de existir, e de permitir que os que vieram antes continuem respirando através da imagem. É nesse espaço que o pensamento de bell hooks ressoa novamente: a memória negra e feminina é uma forma de resistência à desumanização, uma maneira de se afirmar contra a estrutura que define quem deve ou não ser lembrado.
Rasgar a memória, nesses filmes, é também resgatar o corpo, o corpo individual, o corpo feminino e o corpo coletivo. A imagem torna-se o lugar onde o trauma se reescreve, onde o esquecimento é desafiado, onde o amor e a dor coexistem ao mesmo tempo. Ao final, o que permanece é o gesto de olhar, olhar para a história com a ferida aberta, e compreender que toda memória é também um espaço de ruptura.




![Em nova entrevista publicada no site, Anna Lia conversa com a cineasta Denise Vieira sobre seu longa de estreia, Sabes de Mim, Agora Esqueça (2026), que foi exibido na Mostra Horizontes da 20ª CineBH.
A conversa mergulha nas visões da diretora sobre o cinema brasileiro feito a partir da periferia e por mulheres. Denise reflete sobre o processo de construção compartilhado com as atrizes, a urgência de redefinir o cinema popular fora dos padrões hegemônicos e a potência de uma criação guiada pela intuição e pelo erótico que vai em contramão da racionalidade:
“[...] o cinema é um jeito de adentrar em coisas que são complexas e ver sentimentos, lados que às vezes são opacos, podendo adentrar outros universos.”
🔗 Leia a entrevista completa em sarayrosa.com
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En una nueva entrevista publicada en el site, Anna Lia conversa con la cineasta Denise Vieira sobre su largometraje de debut, "Sabes de Mim, Agora Esqueça" (2026), que se proyectó en la sección Horizontes de la 20ª edición de CineBH.
La conversación profundiza en la visión de la directora sobre el cine brasileño realizado desde la periferia y por mujeres. Denise reflexiona sobre el proceso de construcción compartido con las actrices, la urgencia de redefinir el cine popular al margen de los estándares hegemónicos y la potencia de una creación guiada por la intuición y lo erótico, que se aleja de la racionalidad:
"[...] el cine es una manera de adentrarse en cosas que son complejas y ver sentimientos, lados que a veces son opacos, pudiendo entrar en otros universos".
🔗 Lee la entrevista completa en sarayrosa.com](https://scontent-sea5-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/849508579_17937437964390781_2655953640829663480_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=108&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=QvrHfJloTAwQ7kNvwEAXY_m&_nc_oc=AdrQXgaoYdnk7Bn2F9l23cjGYLnc0Zf8ZfkLoAF6we5MV2OFh2qTDYckNMxdoi5oxVg&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-sea5-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=-F_Hb9djzLktpJ5jzNtO_A&_nc_tpa=Q5bMBQJSv-cSFC6qu_OoxR4J9HsNBk7vWFHa9dO8VdpIXNmXm6mWW26yF0w5ACXmeJOlVZrjYeEIXIzk&oh=00_AQO_mI6Jd_SwIVDZBxhiMw3VIkbbdlobzAAclbhYiN1ChQ&oe=6ADFAF0F)







![A partir da exibição de "Virtuosas" na 20ª CineBH, em novo texto do site, Nayara Aguiar destrincha como a diretora Cíntia Domit Bittar articula as mecânicas do fundamentalismo religioso no Brasil contemporâneo.
Ao articular a lógica de mercado da fé e a vigilância moral exercida entre as próprias mulheres, o texto investiga as raízes dessa violência e a escolha da linguagem do terror:
"É no pathos específico das políticas afetivas deturpadas do fundamentalismo religioso que nasce um moralismo pungente e, desse moralismo, uma violência [...] fria na engrenagem que a arquiteta, quente nas mãos que as executam — um terror naturalista, afinal, onde mais se travaria um filme do gênero senão em Santa Catarina?”
🔗 Leia a crítica completa em sarayrosa.com
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Tras la proyección de "Virtuosas" en la 20ª Muestra CineBH, Nayara Aguiar diseca en el nuevo artículo en el site cómo la directora Cíntia Domit Bittar articula la mecánica del fundamentalismo religioso en el Brasil contemporáneo.
Al vincular la lógica mercantil de la fe con la vigilancia moral ejercida sobre las propias mujeres, el texto investiga las raíces de esta violencia y la elección del lenguaje del terror:
"Es en el pathos específico de las políticas afectivas deturpadas del fundamentalismo religioso donde nace un moralismo punzante y, de ese moralismo, una violencia que la película de Cíntia Domit Bittar transforma en propuesta: fría en el engranaje que la arquitecta, cálida en la mano que la ejecuta — un terror naturalista, al fin y al cabo, ¿dónde más se libraría una película del género sino en Santa Catarina?"
🔗 Lea la crítica completa en sarayrosa.com](https://scontent-sea5-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/825270038_17934869712390781_1812860770498213797_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=106&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=0OWpA3cyJHoQ7kNvwGxKX_x&_nc_oc=AdrofYt0KIs1v7BqNsDqYxXaUkbDtztkjT8ni5XIzqed9fdBXGZR0OMyzX4c2GEA5zU&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-sea5-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=-F_Hb9djzLktpJ5jzNtO_A&_nc_tpa=Q5bMBQLRwg7qEoEbcB73Lda-pH95irLE2l4cF9A3D8jAH1TqxG_tcsYOpUy-5LzW6pQLGx_ClMyYsjYE&oh=00_AQMWmVnCae-y0aTniH_kHsiiQuSDHVj41gQB2Y4Fgqmuhw&oe=6ADF8BD6)





















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