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29ª Mostra de Tiradentes - Agora que sei, não consigo esquecer: uma folha de diário sobre o filme de Denise Vieira

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    Juliana Gusman
  • há 5 dias
  • 5 min de leitura

Por Juliana Gusman | Críticas



Tiradentes, Janeiro de 2026


Apaguei de novo a primeira linha deste texto, que renasce mais de 50 vezes como dona Margô. O nome afrancesado dessa puta-velha me lembra que todo gozo é uma espécie de pequena morte. Soterrada pela atmosfera ácida, ansiolítica e carnavalesca de um festival de cinema, ainda tento achar o meu caminho de volta.

 

I. Retomar ao carril de uma filmografia que me é familiar – para sair do prumo de novo


Mulheres da Boca (1981), documentário de tintas militantes de Inês Castilho e Cida Aidar, compartilhou com outras iniciativas de igual pendor do período um interesse no trabalho sexual. Realizadoras de uma classe branca e intelectualizada recorreram, com o auxílio mediador da recém chegada tecnologia do vídeo, a mulheres que, por causa de sua condição subalterna e inadequada – algo que lhes conferia uma força transgressora, ainda que às custas de graves perigos – poderiam ajudá-las a romper com as normas da feminilidade burguesa. Neste que talvez seja o curta mais conhecido de um conjunto ainda relativamente ignoto (essa contra-história está a se reescrever), Aidar e Castilho entrevistam Quinzinho, o “rei da Boca” – título que lhe foi atribuído pela imprensa popular dos anos 1950 – e uma cafetina anônima, os presumidos algozes de jovens inermes. Há, porém, um único depoimento indicial, em off, de uma da garota da zona. Em dissintonia com a tese posta, ela desloca o centro da ameaça para uma sentinela policial capilarizada e sem lei que se traduz, pela imagem, na iluminação panóptica de uma lanterna que vagueia pela noite escura. Quarenta e cinco anos depois, Sabes de mim, agora esqueça, de Denise Vieira, dá corpo aos espectros vigilantes e cara a outras prostitutas indômitas.


A diretora, no entanto, prescinde do registro realista, predominante nas lidas com o mercado do sexo, e de uma abordagem mais sóbria supostamente capaz de contornar estigmas, filiando-se a outras tradições figurativas. Se há ecos fortuitos entre seu longa e o documentarismo feminino dos anos 1980, resquícios ou vícios antropológicos felizmente saem dos trilhos.


Sabes de mim – que, como o próprio cinema e as primeiras zonas da capital do país, começa às margens de vias férreas – se descarrilha para uma genealogia distinta, iniciada pelo anti-melodrama de Matilde Landeta, Trotacalles (México, 1951), ramificando-se em Broken Mirros, o thriller estilizado de Marleen Gorris (Holanda, 1984), e em Baise-moi, pulp pós-porno-feminista ultraviolento de Virginie Despentes (França, 2000), até desembocar nas distopias lo-fi de Ceilândia. Como diretora de arte de Branco Sai, Preto Fica (Adirley Queirós, 2014) e Mato Seco em Chamas (Queirós e Joana Pimenta, 2022), Denise já era hábil em conjurar futuros inóspitos. Contudo, Sabes de mim erige um universo paralelo autônomo:  horrorífico, carpenteriano, debochado e com um certo brilho musical, assume seu registro singular numa linhagem de obras que flertam e fodem com gêneros fílmicos.


A protagonista, Rúbia (Pietra Sousa), encontra-se numa encruzilhada desértica com Dona Margô (Cida Souza), que a abriga das ameaças externas – sumarizadas na entidade moralizante indistinta, mas evidentemente masculina, dos Lanternas. Meio vampira, meio bruxa, Margô é a gerente secular do Toca das Gatas, um coven-cabaré que devora visitantes malquistos – o Overlook bordel do centro-oeste brasileiro. Mas não se engane ou se apavore: “O melhor lugar do mundo é aqui”. E no espaço profano que faz circular a economia da ilusão e do sonho, tudo – e nada – pode acontecer.  


Não cabe a Sabes de mim a chancela já surrada do hibridismo, nem ao seu elenco a suspeita de um naturalismo bruto. Nada seria mais injusto do que invocar a igualmente antiquada alcunha de “não-atriz” para justificar a autenticidade das presenças em tela. Profissionais de diferentes trajetórias e circunstâncias artísticas encontram uma sintonia mágica sob a condução do preparador Renan Rovida. Modula-se, com rigor e equilíbrio, a espontaneidade de uma prosa íntima – a língua corre solta entre cu e verbo – e uma imponência teatral politicamente assertiva. Eis um primeiro giro representacional: nesta transa, o filme assume, revela e eleva o bojo da prostituição. Sabes de mim é a performance da performance, a meta-encenação da hiperfeminilidade excitável e vendável.


(O filme também comenta a artificialidade das fabulações românticas. A Melina boticelliana de Aisha Lyon, por exemplo, imagina ficções amorosas e redentoras num proscênio emoldurado por cortinas de plástico).

 

 Como seguir nos afiançando na transparência de uma atuação cuja superfície mansa é perturbada por corpos que atravessam paredes? Margô flutua, impassível, para suspender a crença ingênua aterrada nas suas miragens.


Quero penetrar nas visualidades do sexo, a outra virada de chave deste filme-esfinge. Mas sou péssima em flertes e preliminares. Mesmo na escrita, sinto o incômodo desajeitado das novas paixões.

 

II.            Tesão pela câmera


Para Audre Lorde, existe uma energia erótica e tectônica capaz de abalar os limiares capitalistas, coercitivos e disciplinares que apartaram as mulheres umas das outras e de si mesmas. Ainda que diretores e diretoras de diferentes origens e contextos tenham tentado reconfigurar o imaginário abjeto da prostituição esquivando-se da sombra tensionadora do cerne do ofício – e de uma mirada que nos objetificou pela imposição de desejos estranhos – abdicar das imagens do sexo é desistir de desbravar os terrenos virgens das nossas vontades. A câmera dançante de Victor de Melo lambuza-se da porra branca que pinga em Rúbia de uma vela acesa. Há uma investigação contrassexual – para evocar o manifesto de Paul Preciado – entre campo e extracampo que ressensibiliza nossas terminações táteis. Em Sabes de mim, as mulheres são as agentes do próprio prazer ou estão no controle do deleite alheio. A ejaculação vulcânica de um cliente – Rômulo, a doce paródia dos machos da pornochanchada – explicita a vulnerabilidade e descontrole do sujeito masculino, cuja pretensa racionalidade cartesiana, legitimadora de seus domínios, sempre negou as vicissitudes da carne.

 

Porém, foi apenas depois de meu encontro com Denise, no dia seguinte da estreia retumbante e orgástica de seu filme em Tiradentes, que cheguei, como soprou outra feiticeira, perto do fogo, no umbigo do furacão – no olho da história.  

Sabes de mim, agora esqueça está cercado de anjos benjaminanos.

 

III.          O Monstrous gaze e a estética feminista

 

A teoria feminista de cinema tem como marco o texto matricial de Laura Mulvey, que em 1975 deu ao nosso vocabulário crítico o conceito de “male gaze”, a partir do qual uma mise-en-scène clássica e masculinista se organiza. Nos tropos cinemáticos da prostituição, o quadro frequentemente se compõe, para garantir uma escopofilia porno-voyeurista, a certa distância. Filma-se de longe para que segredos obscenos se avultem aos poucos. Em Sabes de mim, o tabu esmorece com uma aproximação faminta e um pacto ético: tal qual um programa, a troca entre quem filma e é filmado só se efetiva com consentimento e regras claras. Não há como negar a presença libidinal e política de uma equipe que deita e rola com risco.  


Ainda, contra as observações incriminatórias dos inimigos que espreitam a Toca das Gatas, há uma outra cadeia de olhares táticos. Os primeiros planos estendidos de Sabes de mim sustentam o poder de Medusa de putas-monstras que, contudo, não nos conduzem, hipnóticas, à sina trágica da imobilidade. Convocam-se e aliançam-se entre si e se voltam a nós, espectadoras, no desfecho épico e cíclico dos seus enigmas, para nos convidar a dançar.


Denise mencionou, no café, o livro de Thomas Mann.

 

No rebuliço dos anos 1980, Teresa de Lauretis entendeu que essa é semente da estética feminista: ela surge não apenas de um cinema de mulheres, mas de um cinema para mulheres, endereçado aos sujeitos e ao mundo que almejamos construir. O formalismo se contamina pela atmosfera mística da nossa utopia.

 

Precisei correr cinco quilômetros na primeira manhã solar em Tiradentes para dissolver palavras presas. Ao rasgar essas páginas para jogá-las ao debate público, sinto um impulso de jogá-las fora.


Mas há um consolo: como no filme, este fim também é um recomeço.

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