29ª Mostra de Tiradentes - Em louvor ao cinema que dança: uma carta a Marcela Borela
- 26 de jan.
- 3 min de leitura
Por Juliana Gusman | Críticas

Tiradentes, Janeiro de 2026
Marcela,
A minha vertigem com seu filme se desencadeou com o petiit allegro – não por acaso, o aquecimento para os grandes saltos. O piano, que me lançou ao meu abismo particular, toca a coda do prólogo de A Bela Adormecida – um balé também vertiginoso em seus excessos –, o que, de alguma forma, me remete ao tipo de dobra (ou de desdobramento) temporal que Atravessa minha carne se propõe a fazer. A partitura de Tchaikovsky, recortada, nesta cena, no fim no seu início, me fez conjurar meus próprios fantasmas no emaranhado das suas imagens anacronicamente espectrais. Aos registros da Quasar, essa longeva companhia goiana, sobrepus a memória de um palco mambembe na cidade de Curvelo, no qual um dia me encontrei em estado de oração e plenitude, enfeitiçada por esse mesmo instante de música. Agnóstica, tenho fé nos milagres da dança.
Silvia Federici, historiadora italiana marxista que abençoa minha crença num materialismo mágico, também acredita em seus mistérios. Em Além da pele – uma obra cujo nome, assim como o título do seu filme, sugere a violação transformativa das nossas fronteiras carnais – ela escreve um louvor a esse tipo de mobilidade incontida pelo acúmulo de nossos desejos que, contra a disciplina paralisante e domesticadora do capitalismo neoliberal, faz circular saberes e lutas. Para ela, precisamos decifrar essa linguagem de exploração e invenção para nos guiarmos para a nossa saúde e cura.
(Embora seja difícil se curar da dança)
Federici diz, ainda, que devemos ouvir a linguagem e os ritmos da natureza para nos guiarmos para a saúde e a cura da Terra. A dança, na verdade, é uma investigação desses poderes de conexão e atrito: imita os processos pelos quais nos relacionamos, em uma continuidade ética, embora jamais plácida, com o mundo. Os arquivos cinematográficos que você convoca, logo no início de Atravessa minha carne, comprovam essa vinculação atávica. Os tigres enjaulados de Alice Guy-Blaché têm a mesma indomabilidade das mulheres que, por tanto tempo, foram aprisionadas pelos limites de um quadro fílmico. Loïe Fuller, meio bicho, é flor e serpente. Outra pioneira, Isadora Duncan, a deusa-mãe-socialista da dança moderna, entendeu sua selvageria rebelde quando abandonou as sapatilhas e os códigos do balé para projetar o plexo ao sol e fagulhar-se de impulsos livres.
Penso que seu modo de filmar os trabalhadores e trabalhadoras da Quasar, aliás, é conduzido por essa mesma corrente elétrico-inventiva. Busca-se, por exemplo, pela continuidade poética entre a costura dos bailarinos e o giro dos figurinistas – uma fusão entre os corpos-máquina lírico-laborais de Germanie Dulac e o truque do atravessamento espacial de Maya Deren.
(Você pertence a essa linhagem de bruxas).
Há uma asserção clara: a semente da experiência estética começa a ser regada desde o extracampo da sala de ensaios. Nutrir as plantas alimenta a criação artística, e só se desliza no linóleo que alguém esticou. Dito isto, o prolongamento visual e háptico que interliga os gestos cotidianos de vários ofícios me parece muito próprio à essência disruptiva de uma tradição da dança que se inicia abandonando a beleza estática das formas clássicas. Há poucas coisas tão bonitas em tela como a sequência ilusionista de The Red Shoes (1948), que, contudo, depende da integralidade dos brisés ágeis de Moira Shearer, apenas captáveis a uma certa distância. Em Atravessa minha carne, você rasura inteirezas para expandir outros universos sensórios. Inclusive, com a proximidade tátil da câmera, você profana a coreografia de Henrique Rodovalho. De uma fricção erótica, nasce uma outra criatura híbrida. Contato e improvisação também é um método de parir cinema.
(Num país de editais públicos ainda insuficientes para abrigar soberanamente o operariado do nosso campo, a gestação de alto risco dura dez anos e o parto é feito à fórceps).
Uma confissão: na transa e no transe plástico das suas matérias de expressão, estranhei a suspensão onírica provocada pela observação documental direta, à maneira de Wiseman. Porém, entendo que, para além das suas ancestrais experimentais, aqui há uma outra afiliação que não se pode renegar, embora você, no melhor dos sentidos, seja uma filha bastarda. Wiseman consegue captar a qualidade apolínea dos integrantes olímpicos da companhia da Ópera de Paris, enquanto você se rende ao ziriguidum dionisíaco que cozinhamos aqui nos trópicos, coisa de quem já viveu o tesão da coxia e o gozo pós-espetáculo.
Marcela, já pensou em voltar a dançar?
(Pergunto sabendo, com nossa sintonia biográfica, que a gente consegue encontrar prazeres análogos na vida e na lida com os filmes).
Dizem as boas línguas que, na noite de sábado, foi a tempestade que cortou a energia em meio aos enigmas da conversa com Júlio Bressane, e que eu desfaleci na madrugada tiradentina porque troquei o voucher do jantar por meia garrafa de vinho. Mas eu credito os incidentes a Baco e aos outros espíritos divinos invocados pelo êxtase das suas figuras impuras.
Um beijo e obrigada,
Juliana









![No novo ensaio publicado em nosso site, escrito sob o calor da exibição de Vámonos, Bárbara (1978) no Cineclube Ibero-americano Permanente, nesta quarta-feira, dia 17 de junho, Juliana Gusman destrincha como a cineasta espanhola Cecilia Bartolomé tensiona o texto matriz de Martin Scorsese (Alice Não Mora Mais Aqui) através de um exercício de distanciamento formal e discursivo.
Longe de se curvar às estéticas do norte global, o texto de Juliana reafirma a posição do filme na cartografia ibero-americana, costurando cumplicidades com o cinema de ruptura feito por mulheres aqui:
“Talvez Vamos, Bárbara se achegue mais, na verdade, de nosso próprio road movie feminista inaugural, Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina. [...] a Betinha de Cristina Pereira compartilha certas inadequações incendiárias com a Bárbara de Cristina Alvarez – para além da cabalística coincidencia no nome de suas intérpretes.”
Leia mais sobre a diretora e sua obra no ensaio de @juliana.gusman, escrito para o 3º encontro do Cineclube Ibero-americano Permanente, uma parceria entre Sara y Rosa, Cine Humberto Mauro do @palaciodasartes_ e Instituto Cervantes de BH.
🔗 Leia o ensaio completo em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CeciliaBartolome #CinemaFeminista #CríticaFeminista
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En un nuevo ensayo escrito a raíz de la proyección de Vámonos, Bárbara (1978) en el Cineclub Iberoamericano Permanente, Juliana Gusman analiza cómo la cineasta española Cecilia Bartolomé desafía el material de origen de "Alice Doesn’t Live Here Anymore" (de Martin Scorsese) mediante un ejercicio de distanciamiento formal y discursivo, y reafirma el lugar de la película en el panorama de cine iberoamericano, estableciendo vínculos con el cine pionero de mujeres aqui:
"Quizás Vamos, Bárbara acercase, de hecho, a nuestro propio roadmovie feminista inaugural "Mar de Rosas"(1977), de Ana Carolina. Felicidade, el personaje poco convencional de Norma Bengell, es más sombría que Ana y su destino, menos próspero, pero la Betinha de Cristina Pereira comparte ciertas deficiencias incendiarias con la Bárbara de Cristina Álvarez, más allá de la coincidencia cabalística en los nombres de sus intérpretes."
🔗 Lee el texto en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/726575221_17917835919390781_4399166472106971886_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=110&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=OB77z4xmAqYQ7kNvwHuzScs&_nc_oc=AdqWTFpqgZlqpdse4B6MoF11Yemxxe-JP_VGLKnCn_HeK1zRGh4pv_99S9LVD-n38Ww&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=5dCUIM7eDk6mgkxHcE9ZOg&_nc_tpa=Q5bMBQEyneAcNsuxILlu7lb5ePoeocP2y8EUHQnAeAlR6n1p9axme4cQwMIN2TJmv-U2cmchUGW5Jr_C&oh=00_AQDdMpD21N1W0z43XsmK6GtK4Vj7Lk3du8AVGgmM_sBhPg&oe=6A5942FF)








![“Curar não é apenas escolher filmes; [...] é, antes de tudo, um exercício de escuta ao que pede passagem.”
Neste texto, Vanessa Santos defende a curadoria enquanto um campo relacional. Partindo da obra "Le Grand Calao", ela nos convida a romper com a lógica da exaustão e a enxergar o descanso como um gesto radical de resistência.
“Entre afetos, silêncios e partilhas, vai sendo tecida uma ode ao tempo feminino, numa atmosfera que desafia o peso do cotidiano e que irradia o desejo de existir fora das obrigações.”
Para Vanessa, o olhar curatorial é uma construção que atravessa memórias, desejos e a urgência de criar condições de aparecimento para narrativas historicamente marginalizadas. Aqui, programar filmes torna-se um ato de desobediência visual que recusa o fardo e reivindica o prazer.
Uma proposta essencial para quem pensa o cinema como um território vivo de disputas simbólicas e políticas.
🔗 Leia o texto completo em sarayrosa.com
#SarayRosa #VanessaSantos #Curadoria #CinemaNegro #PoliticasDoOlhar #LeGrandCalao
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“Curar no es meramente elegir películas; [...] es, sobretodo, un ejercicio de escucha de aquello que busca abrirse paso.”
En este texto, Vanessa Santos defiende por la curaduría como un campo relacional. Tomando como referencia la obra "Le Grand Calao", ella nos invita a romper con la lógica del agotamiento y a concebir el descanso como un gesto radical de resistencia.
“Entre afectos, silencios y actos de compartir, se teje una oda al tiempo femenino; todo ello en una atmósfera que desafía el peso de lo cotidiano y irradia el deseo de existir más allá de la obligación”.
Para Vanessa, la mirada curatorial es un constructo que atraviesa memorias, deseos y la urgencia de crear las condiciones propicias para el surgimiento de narrativas históricamente marginadas. Aquí, la programación de películas se convierte en un acto de desobediencia visual que rechaza la carga y reivindica el placer.
Una propuesta imprescindible para todo aquel que conciba el cine como un territorio vivo de disputa simbólica y política.
🔗 Lee el texto completo en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/704750670_17913389088390781_5809290323017999812_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=107&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=rFlQnmgF3D0Q7kNvwFU3wrX&_nc_oc=AdqX1JTTzwqfHHvzKICiJqk3cb24wOqmhEQIGqcFq-P-0pVca85R2mTOXismRBuQw_o&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=5dCUIM7eDk6mgkxHcE9ZOg&_nc_tpa=Q5bMBQEdoA17e3JiJDS8Bw7dtX7EA90DF8UG8zYAT3nzefhEQ3l0-kS0ZkSJcEo2NeIRzoRA5f0KiVpo&oh=00_AQAbCadPL3Jy7mIg5hoiati4Ut1cefrLypXklSF4JBvU0g&oe=6A593CB6)



![“Sou um corpo dissidente do (cis)tema de sexo-gênero (…) Habito fronteiras.”
Neste ensaio, @luignascimento parte de si para atravessar o cinema: da ausência de referências à urgência de se ver em cena, das representações estereotipadas à construção de um cinema sapatão brasileiro contemporâneo, feito por quem vive essas experiências.
Entre apagamentos, “in/visibilidades” e narrativas marcadas por violência, o texto revela também as brechas — filmes, gestos e alianças que transformam o cinema em espaço de existência, desejo e criação.
“Há um senso de urgência que acompanha esse desejo […] urgência de falar para nós, por nós, mas também de gritar ao mundo quem somos e quem podemos ser.”
Um mergulho sensível e político em um cinema que se constrói no afeto, na coletividade e na invenção de outras possibilidades de vida.
🔗 Leia na íntegra em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CinemaSapatão #CinemaQueer #CríticaFeminista #CinemaBrasileiro
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Entre las brechas sápatonas en el cine brasileño
Por Lui Nascimento
“Soy un cuerpo disidente del (cis)tema de sexo-género (…) Habito fronteras.”
En este ensayo, Lui Nascimento parte de su propia experiencia para atravesar el cine: desde la ausencia de referentes hasta la urgencia de verse en pantalla, de las representaciones estereotipadas a la construcción de un cine lesbiano contemporáneo en Brasil.
Entre invisibilidades y narrativas marcadas por la violencia, el texto también revela las grietas — películas, gestos y alianzas que transforman el cine en un espacio de deseo, existencia y creación.
“Hay una urgencia […] de hablar para nosotres, por nosotres, pero también de gritar al mundo quiénes somos y quiénes podemos ser.”
Un recorrido sensible y político por un cine que se construye desde el afecto, la colectividad y la invención de otros mundos posibles.
🔗 Lee el texto completo en sarayrosa.com
Imagens dos filmes “Peixe” (2019) de @ygcf_ysmn e “Minha história é outra” (2019) de Mariana Campos](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/693332325_17910936828390781_3741062162069005596_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=101&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=__wByj17uCYQ7kNvwH47BbF&_nc_oc=AdpRrprbjDPR4LMQUPtQSl27smfDXEb3w8zK_iaI2HmyyCkMFvwOqGbW1EtvaMuRhjw&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=5dCUIM7eDk6mgkxHcE9ZOg&_nc_tpa=Q5bMBQHdjFzu0_8koO4b9YcW38Qc96esr03x3_6NvQV9MH4Zhq6LRr5wv178YibB6YnCGcWeg139BtLm&oh=00_AQD1PYOblmgm-l_kpAYqH7ygh0R1kBfMq00ZeWWnENrBeQ&oe=6A593DD2)











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