29ª Mostra de Tiradentes – Devaneios da madrugada: notas soltas sobre a crise dos homens
Por Juliana Gusman | Críticas

Tiradentes, Janeiro de 2026.
Acordo de madrugada com o casal do quarto ao lado discutindo acaloradamente sobre o ar condicionado, para seguir a uma trepada morna. A garota se contém, enquanto o rapaz emite murmúrios de autocongratulação. Entre os intervalos das rangidas ágeis de uma cama velha, ele solta palavrões para entumecer a própria macheza. Lembro-me de três filmes vistos nesta semana em Tiradentes e, contra a natureza sagrada do meu sono e a esbórnia profana da noite festiva, faço o impensável e começo a escrever.
O primeiro filme é Grão, curta de Gianlucca Cozza e Leonardo Rosa. Em Cassino (2024), Cozza já havia aventado a tenuidade espectral da masculinidade heterocentrada. Seus personagens delinquentes deambulam, fantásmicos, pelas ruas invernais e esvaziadas do Balneário Cassino, compartilhando xavecos frustrados e ofensas afáveis. Grão retoma, com o mesmo arrojo formal e com mais refinamento político, a premissa discretamente provocadora da perambulação: Leandro vaga pela cidade com seu carro fálico, buscando, sem muita consciência, convalidações externas. Grava um áudio de putaria para excitar a si mesmo. Escuta-o de novo e de novo. Num exercício de dissociação e reflexo, procura se deparar com a imagem máscula que tenta erigir. Seu gozo é sempre perseguido nas brechas solitárias de seus fracassos: inábil no jogo da paquera, lhe resta bater punheta num beco escuro. O verniz da virilidade rui fino como os grãos extraviados para venda ilegal que vibram com o pancadão pulsante do porta-malas. Sem conseguir apreender a rarefação de seus disfarces, Leandro encarna a melancolia de quem ainda não tem vocabulário para domar uma subjetividade em ruínas.
Diego Bauer, que traduz o zeitgeist literário da autoficção para o cinema em Obeso Mórbido, sabe melhor de sua agrura. Na beira dos 30, enfrenta o emagrecimento do desejo do seu novo corpo. A medida que a precarização laboral engorda – a rotina do precariado artístico do Brasil –, a ansiedade para saciar a própria integridade psíquica e seus prazeres dormentes aumenta. Diego canaliza impulsos compulsivos para a briga de rua ou para transas fortuitas, até que se rende aos consolos antigos e familiares do cigarro e da comida. O peso retorna, o trabalho some e Diego broxa. Como Leandro, se masturba num plano longo e sem fim. Interpretando a si mesmo, o ator-diretor reencena sua transformação física, num contar-se psicanalítico que passa menos pelo verbo do que pela sistematização dramatúrgica de sensações hápticas. Como em Grão, algo pulsa sugestivamente da tela. Diego faz latejar a visceralidade do seu descontrole progressivo que, como na vida em curso, não se resolve plenamente. Na sequência final, ele retoma o hábito da corrida – libertária com a chuva límpida –, mas não abandona o conforto traiçoeiro do primeiro trago. Dos frangalhos da identidade de alguém que não é capaz de prover, criar e foder, recolhe-se, com alguma compaixão, os cacos possíveis.
Há, por fim, o mito da vingança dos Tikmû´ûn, com a animação tarantinesca Kakxop pahok: as crianças cegas, de Cassiano Maxacali e Charles Bicalho. Os maridos não retornam após uma caçada, e suas companheiras trocam seus filhos entre si como novos parceiros. No retorno dos abandonados, uma carnificina punk rock ultrarradical aparentemente incompatível com os traços simples dos desenhos à mão se instaura. Mas os garotos, mutilados, também revidam. Horrorífico, gore e surpreendente, Kakxop pahok diz algo de uma crise mais ampla dos impulsos inconfessáveis e incontidos dos homens.
E o sol se põe a nascer.




![Em nova entrevista publicada no site, Anna Lia conversa com a cineasta Denise Vieira sobre seu longa de estreia, Sabes de Mim, Agora Esqueça (2026), que foi exibido na Mostra Horizontes da 20ª CineBH.
A conversa mergulha nas visões da diretora sobre o cinema brasileiro feito a partir da periferia e por mulheres. Denise reflete sobre o processo de construção compartilhado com as atrizes, a urgência de redefinir o cinema popular fora dos padrões hegemônicos e a potência de uma criação guiada pela intuição e pelo erótico que vai em contramão da racionalidade:
“[...] o cinema é um jeito de adentrar em coisas que são complexas e ver sentimentos, lados que às vezes são opacos, podendo adentrar outros universos.”
🔗 Leia a entrevista completa em sarayrosa.com
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En una nueva entrevista publicada en el site, Anna Lia conversa con la cineasta Denise Vieira sobre su largometraje de debut, "Sabes de Mim, Agora Esqueça" (2026), que se proyectó en la sección Horizontes de la 20ª edición de CineBH.
La conversación profundiza en la visión de la directora sobre el cine brasileño realizado desde la periferia y por mujeres. Denise reflexiona sobre el proceso de construcción compartido con las actrices, la urgencia de redefinir el cine popular al margen de los estándares hegemónicos y la potencia de una creación guiada por la intuición y lo erótico, que se aleja de la racionalidad:
"[...] el cine es una manera de adentrarse en cosas que son complejas y ver sentimientos, lados que a veces son opacos, pudiendo entrar en otros universos".
🔗 Lee la entrevista completa en sarayrosa.com](https://scontent-sea5-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/849508579_17937437964390781_2655953640829663480_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=108&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=QvrHfJloTAwQ7kNvwEAXY_m&_nc_oc=AdrQXgaoYdnk7Bn2F9l23cjGYLnc0Zf8ZfkLoAF6we5MV2OFh2qTDYckNMxdoi5oxVg&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-sea5-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=-F_Hb9djzLktpJ5jzNtO_A&_nc_tpa=Q5bMBQJSv-cSFC6qu_OoxR4J9HsNBk7vWFHa9dO8VdpIXNmXm6mWW26yF0w5ACXmeJOlVZrjYeEIXIzk&oh=00_AQO_mI6Jd_SwIVDZBxhiMw3VIkbbdlobzAAclbhYiN1ChQ&oe=6ADFAF0F)







![A partir da exibição de "Virtuosas" na 20ª CineBH, em novo texto do site, Nayara Aguiar destrincha como a diretora Cíntia Domit Bittar articula as mecânicas do fundamentalismo religioso no Brasil contemporâneo.
Ao articular a lógica de mercado da fé e a vigilância moral exercida entre as próprias mulheres, o texto investiga as raízes dessa violência e a escolha da linguagem do terror:
"É no pathos específico das políticas afetivas deturpadas do fundamentalismo religioso que nasce um moralismo pungente e, desse moralismo, uma violência [...] fria na engrenagem que a arquiteta, quente nas mãos que as executam — um terror naturalista, afinal, onde mais se travaria um filme do gênero senão em Santa Catarina?”
🔗 Leia a crítica completa em sarayrosa.com
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Tras la proyección de "Virtuosas" en la 20ª Muestra CineBH, Nayara Aguiar diseca en el nuevo artículo en el site cómo la directora Cíntia Domit Bittar articula la mecánica del fundamentalismo religioso en el Brasil contemporáneo.
Al vincular la lógica mercantil de la fe con la vigilancia moral ejercida sobre las propias mujeres, el texto investiga las raíces de esta violencia y la elección del lenguaje del terror:
"Es en el pathos específico de las políticas afectivas deturpadas del fundamentalismo religioso donde nace un moralismo punzante y, de ese moralismo, una violencia que la película de Cíntia Domit Bittar transforma en propuesta: fría en el engranaje que la arquitecta, cálida en la mano que la ejecuta — un terror naturalista, al fin y al cabo, ¿dónde más se libraría una película del género sino en Santa Catarina?"
🔗 Lea la crítica completa en sarayrosa.com](https://scontent-sea5-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/825270038_17934869712390781_1812860770498213797_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=106&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=0OWpA3cyJHoQ7kNvwGxKX_x&_nc_oc=AdrofYt0KIs1v7BqNsDqYxXaUkbDtztkjT8ni5XIzqed9fdBXGZR0OMyzX4c2GEA5zU&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-sea5-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=-F_Hb9djzLktpJ5jzNtO_A&_nc_tpa=Q5bMBQLRwg7qEoEbcB73Lda-pH95irLE2l4cF9A3D8jAH1TqxG_tcsYOpUy-5LzW6pQLGx_ClMyYsjYE&oh=00_AQMWmVnCae-y0aTniH_kHsiiQuSDHVj41gQB2Y4Fgqmuhw&oe=6ADF8BD6)





















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