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Lispectorante: acionar a suspensão e lidar com o real

  • Nanda Rossi
  • 22 de mai.
  • 4 min de leitura

Fotograma do filme Lispectorante (2024) de Renata Pinheiro.
Fotograma do filme Lispectorante (2024) de Renata Pinheiro.

Por Nanda Rossi | Críticas


O longa Lispectorante (2024), de Renata Pinheiro, transporta uma mulher chamada Glória Hartman por um refrescante exercício de transformação, tateando luzes e sentimentos. Interpretada por Marcélia Cartaxo, Glória é uma artista plástica que retorna à sua cidade natal, Recife, após uma separação. Na casa em que um dia morou Clarice Lispector, eladescobre uma fresta na parede que, ao observá-la, abre a personagem e o filme a um universo fantástico. Glória se entorpece deste mundo para lidar com as dificuldades práticas de sua realidade.


Mesmo com um enredo central, o filme de Pinheiro constrói-se como um experimento audiovisual de aproximação ou, ao menos, incitação a experimentos feitos pela própria Clarice Lispector. O filme não é uma adaptação de alguma obra da escritora, mas, com outro tipo de linguagem à disposição, Lispectorante procura trabalhar as ferramentas estético-estilísticas que possui para falar de transformação, maturidade, recomeço, afeto, arte, trabalho e amor. Esses e outros temas são convocados por meio de corpos e objetos nas ruas, por espelhos, prismas, aberturas a espaços oníricos e fotografias ora arenosas, ora lusco-fusco. O filme pretende elaborar, em resumo, as fissuras naturais da condição humana – tema inescapável de Clarice e da arte como um todo – através da experiência de vida de Glória.


A atriz Marcélia Cartaxo é habituada ao universo clariceano. Já havia interpretado Macabéa na adaptação de A Hora da Estrela (1985), de Suzana Amaral. Em Lispectorante, o corpo pequeno desta personagem recém-divorciada brinca pelas ruas como uma Macabéa mais livre, mais solta – e ainda viva. A personagem célebre de Cartaxo é uma lembrança agradável em Glória; o espectador ou espectadora que carrega essa adaptação em seu repertório consegue prospectar Macabéa em mais um dos espelhos do filme. Em alguns momentos, inclusive, poderíamos imaginar algum atropelamento em um dos cruzamentos da cidade. Outras colisões ocorreram. Em Lispectorante, a Glória de Marcélia Cartaxo enfrenta desventuras que não a derrubam por completo. Tristezas familiares, burocracias e desilusões amorosas se colocam diante da mulher que continua suas aventuras pelas ruas do Recife, reconhecendo as suas várias linguagens e a si mesma.


Essa é, inclusive, uma dificuldade que espectadores podem encontrar em seu percurso pelo filme. À medida que Glória caminha pela narrativa, abrem-se muitos elementos fantasiosos. Ainda que estejamos dispostos ao onírico, ao ébrio e ao inconsciente ao olharmos pela fenda com Glória, penso que se abrem espectros excessivos nessa narrativa de suspensão da realidade.


Este outro espaço ficcional que se abre e ao qual Glória tem acesso existe para além da personagem principal e sua trama. Há algumas cenas neste espaço alternativo que não interagem ou contribuem com a história principal. Não que este seja um movimento obrigatório, mas parece haver uma trama pulsante que deseja ocupar um espaço mais relevante no enredo, o que não acontece. Há algo de onírico e até apocalíptico nas cenas que contam com a incrível Grace Passô, mas tais cenas não contribuem exatamente ao tensionamento entre ficção e realidade que o filme quer exercitar.


Glória é o ponto de força do filme. Lispectorante exerce seu melhor fascínio ao nos permitir acompanhar a abertura dessa mulher à vida, muito maior que a fresta pela qual ela observa. Lispectorante vem como uma substância entorpecente, uma droga que pertence à fatia fantástica do filme. Consumi-la ou olhar através da fresta parece ser a maneira do longa inaugurar sua ficção dentro da ficção. Ao lermos Clarice, o convite é à elaboração de um trabalho conjunto de reflexão existencial – o que pode assustar os que esperam uma trama recheada de ações em sua literatura. O acontecimento se dá pela pulsação estética das palavras e suas combinações.


Ainda falando em Clarice, através de seus textos conhecemos mulheres e seus profundos chacoalhões existenciais que se iniciam a partir de encontros aparentemente insignificantes. Em um quarto, a narradora de Paixão Segundo G.H (1964) entra no íntimo profundo da casa e do seu inconsciente. Ela quer se reconhecer em níveis mais profundos. E quer se reconhecer por outro ser humano, pelo não humano, pelo animalesco, pelo natural. Ela quer se reconhecer no limiar sutil da loucura, no sujo e no nojento. Glória procura o mesmo. Como outras mulheres clariceanas, ela quer se reconhecer no deslocamento do olhar ao que não se costuma parar para ver: uma barata em um quarto, um cego mascando chiclete ou uma fenda chamativa na parede.


A crítica literária Yudith Rosenbaum (2001), ao analisar o conto Menino a Bico de Pena (1971) de Clarice Lispector, afirma que a figura matricial da obra clariceana é um sujeito confrontado com um objeto inapreensível – realidades que escapam à compreensão plena. É o caso de Rodrigo S.M. diante de Macabéa ou da narradora diante do menino que tenta capturar com a ponta da pena. Trata-se de um sujeito que, dentro da própria narrativa, reconhece suas

limitações e o fracasso de sua linguagem representacional. No entanto, é justamente desse fracasso que emerge algo: a tentativa, por si só, já carrega uma forma de representação.


Lispectorante (2024) configura uma dessas tentativas em sua forma de cinema. E algo que emerge dessa tentativa é essa personagem-artista, que enfrenta seus altos e baixos com o corpo ereto, que tem a sensibilidade necessária para interagir com os visíveis e os invisíveis da cidade. Nessa espiral cotidiana, Glória vai se reconstruindo. Não sabemos o caminho final de todas as suas aventuras, mas saímos do filme com a certeza de suas habilidades em reiniciar seus capítulos pelo seu trabalho com as mãos, com o corpo, com a linguagem e com a magia do desconhecido.


Glória é uma mulher embaralhada entre a dureza do real e a maleabilidade do fantástico. A arte, a ficção e a fantasia que encontra pelas ruas parecem ser as suas únicas e maiores ferramentas de seguir adiante, enfrentando seus quase-atropelamentos. É também por isso que nos apoiamos na literatura, no cinema, na Clarice e no mundo atrás da fenda. É por conta das suspensões que se apresentam e que corajosamente bisbilhotamos, que Glória e nós

podemos seguir nossos caminhos.


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