Las Amantes del Señor de la Noche: o subversivo e ousado sabá de Isela Vega
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Por Gabriela Müller Larocca | Ensaios
Desde muito cedo, a bruxa tem sido uma figura central no cinema. Do filme mudo sueco-dinamarquês de 1922, Häxan – A Feitiçaria Através dos Tempos, até produções mais recentes, como o famoso A Bruxa (2015), essa figura mitológica vem povoando o audiovisual há décadas, prova de um contínuo fascínio coletivo que existe sobre ela. Embora alguns filmes retratem as bruxas por um prisma mais simpático e até mesmo cômico, na grande maioria das vezes elas são a personificação de um poderoso e antigo arquétipo que persiste em nossa cultura há séculos: o da mulher má.
De certa forma, a bruxa cinematográfica encontra-se inserida em uma longa e complexa tradição cultural do Mal feminino que, sustentada por argumentos religiosos, filosóficos e científicos, elaborou uma representação da Mulher enquanto um ser diabólico e maligno. A bruxa, personagem que surgiu na Idade Moderna a partir de tratados e da imaginação de homens da elite, se consolidou como a representação mais duradoura e palpável deste Mal, que, permeado por questões de gênero e sexualidade, afetou a vida de mulheres reais que sofreram com as perseguições conhecidas como caça às bruxas. Muitos filmes sobre bruxas malignas encontram raízes neste mesmo discurso antifeminino popularizado pela repressão na Modernidade, reforçando – de forma consciente ou inconsciente – estereótipos e narrativas negativas que associam as mulheres a conceitos negativos.
Quando falamos sobre bruxas no audiovisual é, inclusive, muito comum concentrarmos nossos esforços em produções oriundas dos Estados Unidos e Europa, as quais trazem visões específicas acerca dessa personagem feminina. Estes filmes – em sua grande maioria dirigidos por homens brancos, heterossexuais e cisgêneros – contam histórias alinhadas ao imaginário sobre a caça às bruxas na Europa ou Nova Inglaterra (atual Estados Unidos), concentrando-se em um acervo cultural e histórico bastante específico da bruxaria, construído pelo prisma de um cristianismo branco, anglo-saxão e masculino. Aqui, essas histórias alinham-se com a ideia da bruxa demonolátrica, a qual foi construída por tratados eruditas e eclesiásticos da Modernidade, sendo mostrada como um ser maléfico que repudia e antagoniza a fé cristã em busca de objetivos nefastos, como vida eterna, juventude e poder. Nesse sentido, é impossível não nos perguntarmos sobre as produções que estão situadas fora desse eixo geográfico. Teriam elas algo de diferente em suas representações? Será que encontramos mais mulheres na direção e personagens que vão além do arquétipo da mulher má? De que forma estes filmes incorporam a história e a cultura de seus países em suas narrativas?
Ao pesquisarmos sobre a figura da bruxa no cinema latino-americano, caribenho e ibérico, nos deparamos com uma situação interessante. Ainda que existam diversas produções focadas na temática, quase todas são dirigidas por homens, alinhando-se à mesma tradição em que as bruxas, personagens femininas, são representadas a partir de um olhar essencialmente masculino. Contudo, isso de forma alguma desmerece o mérito e a qualidade dessas produções. No México, por exemplo, encontramos clássicos como O Espelho da Bruxa (1960) de Chano Urueta, A Tia Alejandra (1979) de Arturo Ripstein e até mesmo Veneno para Fadas (1986) de Carlos Enrique Taboada. Já no Panamá, Diablo Rojo (2019), o primeiro filme de horror do país, trouxe uma história sobre vingança e bruxaria baseada na lenda de La Tulevieja, um criatura típica do folclore costarriquenho e panamenho.
Enquanto isso, no cinema espanhol temos títulos como As Bruxas de Zugarramurdi (2013), filme de Álex de la Iglesia que mistura horror e comédia em um enredo sobre um grupo de ladrões que se esconde em uma vila isolada, sem saber que o local é habitado por bruxas. Por outro lado, o mais recente Silenciadas (2020), uma coprodução entre Espanha, Argentina e França dirigida por Pablo Agüero, utilizou o drama para contar a história de um grupo de mulheres do País Basco que em 1609 são presas e acusadas de bruxaria devido a rumores de atividades noturnas nos bosques. Por fim, o cinema brasileiro conta com A Praga, filme dirigido por José Mojica Marins em 1980. Embora tenha sido realizado nos anos 80, A Praga permaneceu inacabado por anos, até ser recuperado, restaurado e finalizado por Eugenio Puppo em 2007, com sua versão definitiva sendo lançada em 2021. No filme, o último inédito de Mojica, acompanhamos Juvenal e Marina, um jovem casal que durante uma viagem pelo interior acaba irritando uma estranha senhora, a qual revela ser uma bruxa maligna e vingativa.
A partir desse breve processo de inventariação acerca da figura da bruxa no audiovisual latino-americano, caribenho e ibérico, é possível enxergamos como essas produções mesclam bruxaria com xamanismo, possessão, lendas e folclores locais, distanciando-se um pouco da visão europeia das bruxas e baseando suas representações em sistemas de crenças e práticas sobrenaturais mais amplas, as quais são encontradas em suas culturas e sociedades. Apesar disso, é impossível deixar de reparar como estes mesmos filmes ainda se inserem na ampla tradição do Mal feminino, construindo bruxas maléficas e antagônicas, responsáveis por destruição, caos e sofrimento. Ainda mais sintomático é o fato de cineastas homens dominarem até hoje esse tipo de produção, influenciando o imaginário cinematográfico em torno da figura da bruxa na América Latina e nos Países Ibéricos. Entre tantos títulos produzidos sobre essa temática ao longo das décadas, chama a atenção como encontramos poucos filmes dirigidos e concebidos por mulheres e menos ainda filmes que ressignificam a bruxaria enquanto uma experiência feminina de subjetividade, libertação e até mesmo subversão.
No entanto, durante esse mesmo processo de inventariação encontrou-se uma produção que frequentemente fica fora de textos que discutem o cinema latino-americano, mas que se destaca por ser dirigido, co-escrito e protagonizado por Isela Vega, uma influente atriz mexicana. Embora ressignifique o conceito da bruxaria de forma singular e ousada, Las Amantes del Señor de La Noche, produção lançada em 1983, permanece, de certa forma, relegada ao desconhecido, sendo raramente citada em pesquisas e artigos que discutem o audiovisual mexicano. Desta forma, o objetivo deste artigo não é apenas analisar a representação de bruxaria feita pelo filme de Vega, como também destacar sua originalidade e subversão, enfatizando sua importância e conexão com um contexto histórico específico.
Las Amantes del Señor de La Noche: a bruxaria como agência feminina
Embora Las Amantes del Señor de La Noche seja um dos filmes pioneiros sobre a temática, é importante ressaltar ainda que ele foi precedido por outra produção, o curta metragem La Brujita, dirigido em 1965 por Cecilia Bartolomé. Filmado em preto e branco, o curta conta a história de uma jovem isolada e chateada com a dinâmica familiar, que utiliza bruxaria para se rebelar contra as circunstâncias da vida. Quase vinte anos depois, Isela Vega retomou o tema da bruxaria no audiovisual mexicano com um empreendimento bastante ousado para a época.
Nascida em 1939 em Hermosillo no México, quando dirigiu Las Amantes del Señor de La Noche, Vega já era uma atriz famosa no país, consolidando sua carreira nos anos 60 em diversos filmes de ação. Embora seu papel mais famoso tenha sido como Elita no longa Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (1974) de Sam Peckinpah, durante sua carreira ela chegou a atuar em mais de 130 produções e nunca parou de trabalhar até sua morte em 2021. Vista como um símbolo sexual no México, Vega ainda foi a primeira mulher latina a aparecer na revista Playboy.
No início dos anos 1980, ela começou a trabalhar naquele que seria seu primeiro e único filme como diretora: Las Amantes del Señor de La Noche. Vega, que anteriormente já havia atuado em produções de horror, como A Câmara do Terror (1968) e Pacto Diabólico (1969), ao lado de nomes famosos como Boris Karloff e John Carradine, se uniu ao experiente roteirista Hugo Argüelles para escrever uma história singular que mistura bruxaria, melodrama e folk horror. Protagonizado pela própria diretora, o filme acompanha Amparo, uma governanta interessada em amuletos e feitiços que cuida da jovem Vênus (Elena de Haro) e de seu pai, Don Venustiano (Emilio Fernández Romo) em uma pequena cidade no interior do México. Além da péssima reputação de Don Vestuniano, acusado de ter assassinado a esposa junto do amante anos antes, o trio enfrenta outro problema quando Vênus se apaixona por Pedro (Arturo Vázquez), um rapaz oriundo de família rica que desaprova o romance entre os jovens. Visando separar o casal, a mãe de Pedro envia o filho para morar nos Estados Unidos, enquanto Don Venustiano planeja casar Vênus com um primo distante. Desesperada, a jovem pede ajuda a Amparo, que a leva até a casa de Saurina (Irma Serrano), uma bruxa satânica que lhe fornece um feitiço para que Pedro regresse ao país, gerando consequências mortais para todos aqueles que se opõem ao relacionamento entre os dois. No entanto, tudo se complica quando Vênus não segue ao pé da letra as instruções fornecidas por Saurina, precisando, então, pagar por suas escolhas.
Entre superstições, assassinatos, ressentimentos, satanismo e erotismo, Las Amantes del Señor de La Noche permanece um dos poucos filmes mexicanos a abordar a bruxaria latino-americana pelo ponto de vista de uma cineasta mulher. Isela Vega demonstra um talento surpreendente ao conduzir uma história onde a bruxaria não é apenas um ofício feminino, mas também uma forma de expressão e vazão de desejos reprimidos. Nesse sentido, Las Amantes del Señor de La Noche surge como um filme ousado e atrevido que não tem medo de incomodar um setor da sociedade ao abordar temas como o poder patriarcal, desigualdade de classes, violência e sexualidade feminina por meio de uma narrativa de satanismo e bruxaria.
Ainda mais surpreendente é o contexto de produção do longa, principalmente ao recordarmos o histórico do México como um país profundamente religioso e católico. Aqui, vale lembrar de algumas mudanças ocorridas no cinema mexicano na época, muitas das quais reverberam em Las Amantes del Señor de La Noche. Entre as décadas de 1960 e 1980, o ocultismo se tornou um elemento central no audiovisual do país, que ficou marcado por produções que faziam menção direta ao satanismo e outras forças sobrenaturais dentro de uma sociedade predominantemente católica. No entanto, longe de apresentarem o cristianismo e o próprio catolicismo como um instrumento de salvação que derrota as forças malignas, como é comum encontrarmos em filmes hollywoodianos como a franquia Invocação do Mal, estes longas utilizavam o satanismo como resposta ao autoritarismo vivido no país e à opressão da liberdade de expressão, dos direitos das mulheres e do pensamento dissidente.
Desta forma, Las Amantes del Señor de La Noche se insere em um momento bastante peculiar no contexto histórico mexicano. Apenas alguns anos antes, em 1968, o país havia vivido o auge do autoritarismo, marcado pelo Massacre de Tlatelolco em 2 de outubro quando as forças armadas abriram fogo contra civis desarmados que realizavam uma manifestação pacífica na Praça das Três Culturas. Contudo, ao mesmo tempo, 1968 também foi tido como um momento decisivo para a revolta e rebelião social, que trouxeram frutos nos anos seguintes. A partir dos anos 1970, o país não apenas viu mudanças políticas e culturais, como também o movimento feminista enxergou seus primeiros frutos. Um deles foi o rompimento com as barreiras da censura, o qual abriu as portas para um cinema experimental povoado por filmes dirigidos e protagonizados por mulheres que exploravam sua liberdade sexual por meio das telas. Assim, alguns anos mais tarde, o filme de Isela Vega utiliza o satanismo como forma de subversão social e cultural, ao mesmo tempo em que representa a bruxaria com uma caminho para explorar o erotismo e a liberdade sexual de suas personagens. Em Las Amantes del Señor de La Noche, a bruxaria é uma linguagem de contestação e liberdade, ainda que envolta em tragédias e questões morais complexas.
Esse é possivelmente o ponto mais alto do filme que, por meio de Vênus, Amparo e Saurina, explora a bruxaria como um instrumento de resistência e transgressão, posicionando suas personagens fora da submissão que é esperada delas. Enquanto catalisadora de forças sombrias, Saurina é aquela que mais se aproxima do arquétipo da mulher má, encarnando um ser feminino que domina um conhecimento proibido e desafia a moral patriarcal e religiosa. No entanto, em nenhum momento a personagem é construída como uma vilã no sentido clássico. Ela é apenas uma sobrevivente, que transita entre a resistência e a maldição. Isso acontece também com Vênus e Amparo, que recorrem ao uso da magia sombria não por serem vilanescas, diabólicas ou por terem algum plano megalomaníaco, mas sim por serem figuras marginalizadas que buscam poder em um mundo dominado por homens. Por meio dessas três figuras femininas, que incorporam em diferentes momentos o imaginário da bruxa, Isela Vega oferece uma visão peculiar em que esse ser mítico não é unicamente um monstro ou uma antagonista, mas uma mulher real, ferida e perdida que recorre ao oculto em busca de agência e para lutar contra a opressão sufocante que permeia sua existência.
Outra temática que impera em Las Amantes del Señor de La Noche é a colisão entre o desejo juvenil e o conservadorismo social, representando um choque entre gerações. Um dos eixo centrais da narrativa, o amor proibido entre Vênus e Pedro, não apenas fornece o tom melodramático do filme, mas também permite a construção de uma sutil crítica às estruturas patriarcais e ao preconceito de classe existente na sociedade mexicana da época. Embora a história de amor impossível rapidamente se transforme em uma violenta tragédia sobrenatural, ela traz questões como a diferença de status, o controle social e patriarcal (exemplificado no casamento arranjado que Don Venustiano deseja para a filha e no fato de ter assassinado a esposa anos antes por um suposto adultério) e o embate entre o desejo individual e as normas e expectativas sociais mais amplas. Nesse sentido, Vega utiliza o erotismo e o desejo feminino – ilustrado por meio da sexualidade latente, explosiva e juvenil de Vênus – como forma de romper e até mesmo contestar o moralismo e conservadorismo, os quais muitas vezes imperam em histórias de bruxas.
A partir disso, Las Amantes del Señor de La Noche gira em torno da culpa e do desejo reprimido em um mundo onde o poder social, sexual e espiritual se imbricam. Por meio de uma atmosfera sinistra, marcada por sangue, rituais profanos e até mesmo sacrifício de animais, o filme representa o sobrenatural e o oculto como manifestações dos impulsos e desejos dos personagens, de forma que a magia blasfema surge como um espelho dos pecados humanos e o amor como uma força destrutiva. Fugindo do maniqueísmo Bem versus Mal, Vega constrói uma história na qual ninguém é totalmente culpado, nem inocente. O poder, a culpa e o desejo estão espalhados por todos os lados.
A cineasta tece uma fábula sobre mulheres que desafiam seus destinos e tentam comandar suas vidas, mas que pagam um preço alto pela transgressão. Embora a bruxaria e o satanismo sejam representados como formas alternativas de poder e desejo, situadas à margem das estruturas patriarcais e cristãs, elas ainda têm uma consequência sombria, implicando perigo, punição, ostracismo e até mesmo morte. Quando Vênus desobedece aos comandos de Saurina, as tragédias começam a se desenrolar e a violência escalona lentamente até a chocante decapitação de Amaro no final do filme, a qual se sacrifica e assume a responsabilidade para poupar Vênus. Punida por sua ousadia e agência, não é aleatório o fato de a personagem ser violentamente morta por uma multidão de moradores locais, representantes de um conservadorismo intolerante que castiga qualquer mulher que ouse pensar ou agir diferente. Contudo, por mais violento e trágico que seja esse desfecho, Vega também nos oferece um tipo de libertação simbólica, na qual as personagens enfim rompem com o ciclo de violências e submissão ao qual foram constantemente submetidas.
Ao explorar poder, repressão e desejo feminino em um contexto rural, supersticioso e patriarcal, Las Amantes del Señor de La Noche oferece uma reflexão amarga, mas precisa, sobre opressão sexual e religiosa, mostrando de forma drástica como o prazer feminino pode existir unicamente nas “sombras”, fora da moral católica e sempre sujeito a punições. Entregando um final ambíguo, no qual não sabemos se é Pedro ou não quem veio buscar Vênus (questionamento reforçado por uma cena anterior onde os jovens têm um encontro sexual e o rapaz parece ser o próprio Diabo), o filme encerra com um questionamento: seria o Senhor da Noite literalmente o Diabo ou apenas uma alegoria para o poder patriarcal que tenta dominar a vida e a existência das mulheres?
Considerações finais
Um filme envolvente e desafiador, Las Amantes del Señor de La Noche contou com uma produção modesta e limitações técnicas, as quais fizeram com que não recebesse uma distribuição ampla na época de seu lançamento. Embora seja uma das poucas produções latino-americanas dirigidas por mulheres a abordar a temática da bruxaria, até hoje o longa de Isela Vega não recebe a mesma atenção que obras realizadas por seus conterrâneos famosos, como Chano Urueta e Carlos Enrique Taboada, sendo nítida a dificuldade em encontrarmos o filme para assisti-lo.
Ainda mais sintomático, é o fato de que, mesmo demonstrando habilidade na direção, a cineasta nunca mais dirigiu nenhum outro longa em sua carreira. Apesar do orçamento reduzido e de todos os contratempos, é significativo, por exemplo, como Vega emprega uma imagética impressionante para representar as visões de Vênus e os maus presságios que aparecem ao longo da história, estes últimos personificados por um cavalo preto e selvagem que aparece tanto na primeira ida até a casa de Saurina quanto um pouco antes da chocante execução de Amaro.
Indo além, um dos grandes méritos do longa é justamente sua mistura de terror, bruxaria, erotismo, crítica social e melodrama. Embora não traga grandes cenas de terror e sangue, Las Amantes del Señor de La Noche se destaca pela forma extremamente corajosa e até mesmo audaciosa pela qual aborda questões como dominação patriarcal, agência feminina e sexualidade. Marcado por uma atmosfera sombria e cenas macabras, como o momento em que duas mulheres se banham com o sangue de uma galinha recém-decapitada, o filme escancara sua ousadia ao utilizar a bruxaria como uma metáfora para a autonomia e transgressão femininas frente às normas sociais e religiosas. Nesse sentido, Vega não apenas perturba a sociedade mexicana tradicional, enraizada em valores conservadores e cristãos, como também subverte a clássica imagem da bruxa como uma mulher má que visa unicamente a destruição e o caos, mostrando que existem formas de ressignificar essa figura para que ela represente subjetividades, ansiedades e anseios de mulheres como sujeitos complexos, históricos e plurais.
Explorando os limites entre desejo, poder e moralidade, Las Amantes del Señor de La Noche é, assim, uma obra singular dentro do cinema latino-americano na qual o oculto surge como uma forma das mulheres afirmarem sua autonomia e o erotismo deixa de ser um instrumento de dominação para ser encarado como uma forma de expressão de identidade, poder e liberdade. Em um constante jogo entre o prazer e a opressão, o filme de Isela Vega se consolida simultaneamente como uma crítica às estruturas de poder e como um conto de resistência em meio às constantes violências de gênero. Provocador e complexo, Las Amantes del Señor de La Noche mostra a potencialidade da bruxa como uma personagem cinematográfica produzida a partir de uma lente feminista e latino-americana que leva em conta recortes sociais, de gênero, sexualidade e geração. Sem medo de transitar entre o sagrado e o profano, Las Amantes del Señor de La Noche triunfa justamente ao representar mulheres/bruxas que não são santas, nem malignas, muito menos arquétipos vinculados a tradições milenares. Elas são apenas seres humanos que desafiam suas condições e limitações usando como arma sua própria escuridão.
Referências
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