19º CineBH | Entre Rios e Memórias: o luto como travessia em Cais
Atualizado: 14 de nov. de 2025

Por Micaella Matias | Críticas
Este texto é uma colaboração especial entre a plataforma Sara y Rosa e o cineclube Guy-Blaché para cobertura do 19º CineBH.
Cais, de Safira Moreira, reafirma a força de um cinema que se move entre memória, luto e ancestralidade; um cinema que não almeja apenas narrar, mas sentir. Exibido, em Belo Horizonte, na programação do 19º CineBH e na abertura da 5ª Semana de Cinema Negro, o filme se impõe pela delicadeza, que não exige do espectador uma leitura racional imediata, mas o convida a observar e a ser atravessado pelo tempo calmo das imagens, pelos sons que e pelas ausências que também falam. Observar já é, em si, uma forma de contar histórias.
Safira Moreira abre não apenas seu olhar, mas sua ferida, sua saudade, seu corpo em processo de cura. Dois meses após a morte da mãe, a cineasta embarca em uma jornada tanto física, quanto espiritual: atravessa rios, cidades e memórias em busca de um sentido para o que ficou. O cinema se torna o espaço onde essa travessia acontece. É possível perceber o desejo de se reconectar com aquilo que a morte tentou separar: o amor, a presença, o pertencimento.
O título da obra já sugere essa zona de passagem. Um lugar de encontro e despedida, de embarque e retorno. É esse meio que o filme habita. As paisagens banhadas pelos rios Paraguaçu e Alegre não são apenas cenários, eles testemunham o luto. A água, recorrente em toda a obra, é símbolo e metáfora. Ela representa o fluxo da vida, a memória que corre, se mistura. Uma afluência de lembranças que tentam apreender a dor que insiste em escorrer entre os dedos.
Em um mundo que exige rapidez e espetáculo, Safira Moreira escolhe o caminho oposto: o da pausa e da escuta. O luto, em suas mãos, não é apenas um tema, mas um processo criativo de transformar a dor em imagem, o silêncio em poesia, a ausência em presença. O cinema também pode ser um espaço de cura para quem o assiste.
Em diálogo com uma tradição dos cinemas negros brasileiros contemporâneos que entende o ato de filmar como gesto de reconexão com a ancestralidade, há, em Cais, uma força espiritual que se revela nas pequenas coisas: no gesto de olhar, na repetição dos rituais, nas margens percorridas pela câmera. Safira Moreira filma como quem reza: cada imagem é uma oferenda. A presença da mãe é invocada não pela palavra, mas pela permanência do afeto nas coisas simples. Uma casa, um retrato, um rio.
O filme, nesse sentido, vai além da dor individual. Ele dialoga com a memória de todas as mulheres negras que vieram antes, com os corpos que resistiram, com a necessidade de preservar aquilo que o tempo e o esquecimento tentam apagar.
Há ecos de autoras como bell hooks no modo como o filme entende o ato de lembrar como um gesto político e de afeto. hooks nos ensina que “o amor é um ato de vontade, tanto uma intenção quanto uma ação”. Em Cais, amar é filmar, é reconstruir, jamais completamente, mas com insistência, os rastros da mãe.
Ao final, fica uma sensação de um filme que não termina. Ele permanece, afirmando como o ato de lembrar pode ser, também, uma forma de sobreviver.
Safira Moreira faz do cinema um espelho e um altar, um espaço de reencontro entre o que fomos e o que ainda somos. Um gesto que reafirma o poder do olhar feminino e negro na construção de um cinema profundamente humano. Algumas histórias não precisam ser explicadas ou apreendidas em sua totalidade: elas precisam apenas ser experienciadas na pele. E Cais é, acima de tudo, isso. Um filme que se sente com o corpo inteiro.




![Em nova entrevista publicada no site, Anna Lia conversa com a cineasta Denise Vieira sobre seu longa de estreia, Sabes de Mim, Agora Esqueça (2026), que foi exibido na Mostra Horizontes da 20ª CineBH.
A conversa mergulha nas visões da diretora sobre o cinema brasileiro feito a partir da periferia e por mulheres. Denise reflete sobre o processo de construção compartilhado com as atrizes, a urgência de redefinir o cinema popular fora dos padrões hegemônicos e a potência de uma criação guiada pela intuição e pelo erótico que vai em contramão da racionalidade:
“[...] o cinema é um jeito de adentrar em coisas que são complexas e ver sentimentos, lados que às vezes são opacos, podendo adentrar outros universos.”
🔗 Leia a entrevista completa em sarayrosa.com
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En una nueva entrevista publicada en el site, Anna Lia conversa con la cineasta Denise Vieira sobre su largometraje de debut, "Sabes de Mim, Agora Esqueça" (2026), que se proyectó en la sección Horizontes de la 20ª edición de CineBH.
La conversación profundiza en la visión de la directora sobre el cine brasileño realizado desde la periferia y por mujeres. Denise reflexiona sobre el proceso de construcción compartido con las actrices, la urgencia de redefinir el cine popular al margen de los estándares hegemónicos y la potencia de una creación guiada por la intuición y lo erótico, que se aleja de la racionalidad:
"[...] el cine es una manera de adentrarse en cosas que son complejas y ver sentimientos, lados que a veces son opacos, pudiendo entrar en otros universos".
🔗 Lee la entrevista completa en sarayrosa.com](https://scontent-sea5-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/849508579_17937437964390781_2655953640829663480_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=108&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=QvrHfJloTAwQ7kNvwEAXY_m&_nc_oc=AdrQXgaoYdnk7Bn2F9l23cjGYLnc0Zf8ZfkLoAF6we5MV2OFh2qTDYckNMxdoi5oxVg&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-sea5-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=-F_Hb9djzLktpJ5jzNtO_A&_nc_tpa=Q5bMBQJSv-cSFC6qu_OoxR4J9HsNBk7vWFHa9dO8VdpIXNmXm6mWW26yF0w5ACXmeJOlVZrjYeEIXIzk&oh=00_AQO_mI6Jd_SwIVDZBxhiMw3VIkbbdlobzAAclbhYiN1ChQ&oe=6ADFAF0F)







![A partir da exibição de "Virtuosas" na 20ª CineBH, em novo texto do site, Nayara Aguiar destrincha como a diretora Cíntia Domit Bittar articula as mecânicas do fundamentalismo religioso no Brasil contemporâneo.
Ao articular a lógica de mercado da fé e a vigilância moral exercida entre as próprias mulheres, o texto investiga as raízes dessa violência e a escolha da linguagem do terror:
"É no pathos específico das políticas afetivas deturpadas do fundamentalismo religioso que nasce um moralismo pungente e, desse moralismo, uma violência [...] fria na engrenagem que a arquiteta, quente nas mãos que as executam — um terror naturalista, afinal, onde mais se travaria um filme do gênero senão em Santa Catarina?”
🔗 Leia a crítica completa em sarayrosa.com
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Tras la proyección de "Virtuosas" en la 20ª Muestra CineBH, Nayara Aguiar diseca en el nuevo artículo en el site cómo la directora Cíntia Domit Bittar articula la mecánica del fundamentalismo religioso en el Brasil contemporáneo.
Al vincular la lógica mercantil de la fe con la vigilancia moral ejercida sobre las propias mujeres, el texto investiga las raíces de esta violencia y la elección del lenguaje del terror:
"Es en el pathos específico de las políticas afectivas deturpadas del fundamentalismo religioso donde nace un moralismo punzante y, de ese moralismo, una violencia que la película de Cíntia Domit Bittar transforma en propuesta: fría en el engranaje que la arquitecta, cálida en la mano que la ejecuta — un terror naturalista, al fin y al cabo, ¿dónde más se libraría una película del género sino en Santa Catarina?"
🔗 Lea la crítica completa en sarayrosa.com](https://scontent-sea5-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/825270038_17934869712390781_1812860770498213797_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=106&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=0OWpA3cyJHoQ7kNvwGxKX_x&_nc_oc=AdrofYt0KIs1v7BqNsDqYxXaUkbDtztkjT8ni5XIzqed9fdBXGZR0OMyzX4c2GEA5zU&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-sea5-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=-F_Hb9djzLktpJ5jzNtO_A&_nc_tpa=Q5bMBQLRwg7qEoEbcB73Lda-pH95irLE2l4cF9A3D8jAH1TqxG_tcsYOpUy-5LzW6pQLGx_ClMyYsjYE&oh=00_AQMWmVnCae-y0aTniH_kHsiiQuSDHVj41gQB2Y4Fgqmuhw&oe=6ADF8BD6)





















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