"Se eu tivesse pernas, eu te chutaria": anotações sobre uma ressaca fílmica

Por Juliana Gusman | Críticas
A Linda de Rose Byrne é uma anti-Ofélia. Bem que ela tenta se afogar para escapar do aprisionamento discursivo e material que lhe confina ao posto amargo (e exaustivo) de mãe ruim. A personagem shakespeariana atira-se em um rio por não encontrar, para seus anseios latentes, “lugar ou palavra”, como diria Maria Rita Kehl. A personagem bronsteiniana, por sua vez, choca-se inutilmente contra as ondas bravas da maré noturna, mas até elas, após sucessivas demonstrações de desprezos humanos, a rejeitam e cospem de volta. O único descanso possível é o fim do filme. Mas é verdade que Linda, como psicanalista, talvez tenha mais ferramentas para lidar com as artimanhas da subjetividade feminina do que Ofélia, after all. Sua sobrevivência torna Se eu tivesse pernas, eu te chutaria um filme otimista?
Se a protagonista consegue, minimamente, verbalizar e sistematizar as suas angústias num divã inóspito, ela, de fato, não sabe como decifrar a própria filha, que se recusa a comer. Talvez por isso Linda devore tudo compulsivamente. É fome por vingança. A criança chutável e invisível reclama, incomoda e berra do extracampo – Bronstein não quer que nos compadeçamos facilmente pela sua condição adoecida ou por possíveis charmes infantis. O marido, como se autoprojeta a masculinidade dominante, é a racionalidade julgadora em estado puro: uma voz desencarnada que não se imiscui na sujeira do cuidado alheio. O nosso pacto ético, político e háptico (e de uma câmera tátil, sempre muito próxima) é com a mãe que tenta escapar dos buracos metafóricos e literais de sua vida: da cratera que se abre no teto do apartamento, forçando-a a se mudar para um quarto de hotel fodido; da ferida na barriga da menina que se alimenta maquinalmente por meio de um tubo, o segundo cordão umbilical; ou da menção sugestiva e assombrosa que tais orifícios fazem ao ducto vaginal que a pariu: Linda deveria tê-la abortado em vez de abdicar da primeira gravidez?, pergunta-se, sem qualquer vestígio de culpa, diante do abismo.
Em seus constantes (e às vezes concretos) atropelos – aqui, nem o hamster, fatalmente acidentado, é boa gente –, Linda é definida pela filha, logo na primeira cena, como “strechable” – flexível, alongável, maleável. Byrne, a seu modo, também revela qualidades elásticas – ela estende e dilata microscopicamente as linhas do seu rosto para tramar universos inteiros.
Na sala de cinema, a arquitetura do som – que não cessa, pois não há silêncios ou vácuos nas alucinações maternas – amplifica angústias, ressoadas coletivamente em risos contidos. O horror e o humor, que desestabilizam a ordem pela via do grotesco, têm lá as suas afinidades incômodas.
No carro, após a sessão, senti o queijo engolido numa só bocada por Linda formando nós na minha garganta. A tal da mágica empática da imagem da qual fala Jaine Gaines, às vezes, é uma maldição. Meu companheiro, o décimo de uma família de onze irmãos, desempoeirou do inconsciente uma crise de pânico e impotência da sua mãe, que uma vez se atirou no chão de casa por puro cansaço. Leonina e jovem viúva, ela retomou o prumo rápido. Não havia fim de filme para lhe resgatar da sina cíclica do trabalho reprodutivo ininterrupto.
O encontro com Se eu tivesse pernas, eu te chutaria sucede minha leitura de Maternidade, de Sheila Heti, e o lançamento da série All her fault (título que ressoa a frase cínica mil vezes recitada no filme de Bronstein), criada por Minkie Spiro. Há de se repesar, os murmúrios feministas me sugerem, a gravidade dos arrependimentos. Sem pernas e sem pesares, talvez Linda pudesse voar.

























![No novo ensaio publicado em nosso site, escrito sob o calor da exibição de Vámonos, Bárbara (1978) no Cineclube Ibero-americano Permanente, nesta quarta-feira, dia 17 de junho, Juliana Gusman destrincha como a cineasta espanhola Cecilia Bartolomé tensiona o texto matriz de Martin Scorsese (Alice Não Mora Mais Aqui) através de um exercício de distanciamento formal e discursivo.
Longe de se curvar às estéticas do norte global, o texto de Juliana reafirma a posição do filme na cartografia ibero-americana, costurando cumplicidades com o cinema de ruptura feito por mulheres aqui:
“Talvez Vamos, Bárbara se achegue mais, na verdade, de nosso próprio road movie feminista inaugural, Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina. [...] a Betinha de Cristina Pereira compartilha certas inadequações incendiárias com a Bárbara de Cristina Alvarez – para além da cabalística coincidencia no nome de suas intérpretes.”
Leia mais sobre a diretora e sua obra no ensaio de @juliana.gusman, escrito para o 3º encontro do Cineclube Ibero-americano Permanente, uma parceria entre Sara y Rosa, Cine Humberto Mauro do @palaciodasartes_ e Instituto Cervantes de BH.
🔗 Leia o ensaio completo em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CeciliaBartolome #CinemaFeminista #CríticaFeminista
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En un nuevo ensayo escrito a raíz de la proyección de Vámonos, Bárbara (1978) en el Cineclub Iberoamericano Permanente, Juliana Gusman analiza cómo la cineasta española Cecilia Bartolomé desafía el material de origen de "Alice Doesn’t Live Here Anymore" (de Martin Scorsese) mediante un ejercicio de distanciamiento formal y discursivo, y reafirma el lugar de la película en el panorama de cine iberoamericano, estableciendo vínculos con el cine pionero de mujeres aqui:
"Quizás Vamos, Bárbara acercase, de hecho, a nuestro propio roadmovie feminista inaugural "Mar de Rosas"(1977), de Ana Carolina. Felicidade, el personaje poco convencional de Norma Bengell, es más sombría que Ana y su destino, menos próspero, pero la Betinha de Cristina Pereira comparte ciertas deficiencias incendiarias con la Bárbara de Cristina Álvarez, más allá de la coincidencia cabalística en los nombres de sus intérpretes."
🔗 Lee el texto en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/726575221_17917835919390781_4399166472106971886_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=110&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=Qnbzb7fTYloQ7kNvwEg_Vea&_nc_oc=Ado9VlZz5sT12cBUVjt6OjRgPZQwD2sB9xDYuvx0oCr0TSWeSKbx0Yqrsn4oWzM5sOE&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=evzXVLaqm0LZqsyRaWpqMA&_nc_tpa=Q5bMBQLRzXe31AykfRCIyVcDEQgUbkCN8p_lmLr12pe2G5euYyMdOZ6kA2k8R4s2dKD-HRzcGGkLLtOw&oh=00_AQI650hYYvGI8pBTtASUvFItpbxuDh1IITDHzPo-JfBwAQ&oe=6AB9807F)








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