20ª CineBH - O príncipe de Nanawa e a feiticeira de Corrientes
Por Juliana Gusman | Ensaios

Os últimos filmes de Lucrécia Martel, Albertina Carri e Clarisa Navas, a notável trinca de realizadoras argentinas destacadas em programa especial na 20ª CineBH, não conformam um conjunto harmônico – o que seria, na verdade, um arranjo descabido para uma cinematografia que elabora sua potência na desobediência normativa. Nem entre cada fortuna artística há consensos. Da crônica ácida e anti-burguesa de O Pântano (2001) ao documentário-denúncia Nossa Terra (2025), de Martel, ou da autobiografia política de Los Rubios (2003) ao road movie lesbofeminista Caiam as rosas brancas! (2025), de Carri, há mais do que vinte anos de distância.
Navas, a mais jovem do grupo, estreante correntina da Nueva Ola de seu país, também se reinventou muito, em tiro curto. O príncipe de Nanawa (2025) é sua primeira não-ficção, embora já se dedicasse ao seu projeto-monumento quando produziu e finalizou Hoy partido a las 3 (2017) e Las mil y una (2020). Mas é justamente o imponderável de um recorte circunstancial – as obras das três mujeres mutantes se achegam pelo seu ineditismo – que faz chispar a poesia malandra do acaso. Se, como escreveu o curador da mostra, Cleber Eduardo, as autoras, cada qual a seu modo, “lidam com imagens no interior de seus filmes, imagens de pessoas, imagens de um filme em construção, imagens de um crime” e, portanto, “lidam com olhares”, flagramos, entre elas, algumas piscadelas inesperadas e furtivas. Há um flerte em jogo.
Na metaficção “tremendamente pornográfica” de Albertina Carri, em que seu bando sapatão se vê às voltas com as imposições gramaticais de um mercado audiovisual mainstream que tenta cooptar talento e tesão, há, em certo momento, a imposição de um desvio. Depois de navegar desertos nortenhos, Viole (Violeta Valiente), Agustina (Mijal Katzowicz), Rosario (Maru Marcet) e Carmen (Rocío Zuvirí) vagam pelas ruas de São Paulo com uma Super-8 e o objetivo de produzir um documentário (encomendado, casto, careta, castrado) sobre urbanismo aporofóbico. Num deambular que percorre, sob um som grave, os clichês icônicos da degradação metropolitana, deparam-se com uma figura estranha, fantástica, ancestral. “Chicas!”, alerta Rosario: a personagem benjaminana de Luisa Gavasa – mais vampírica do que angelical, porém – atravessa o quadro resoluta e, sem saber ou se importar com seu destino, o quarteto a persegue em estado de transe e fascínio.
Numa rima improvável que ecoa no tão distinto trabalho de Navas – eis a malandragem do imprevisto curatorial –, outra espécie de anjo captura atenções fílmicas e enfeitiça caminhos. Assim como Gavasa, Angél Omar Stegmayer, um garoto de nove anos de idade e uma eternidade de sabedoria, invade as bordas do campo, recalibra o foco da lente e altera rumos de cinema e vida. Clarisa, que investigava as barreiras linguísticas de um território colonialmente cindido entre o guarani e o castelhano, se rende à intuição, abandona premissas e põe-se a seguir, também magneticamente, a criança-anciã pelas curvas infinitas do menor dos municípios paraguaios. E então, embevecida, prolonga seu (i)modesto cortejo espiralar deste pequeno príncipe por uma década.
Angél, articulado e altivo, esboça de início uma adultice precoce que, posteriormente, seria maturada não só pela sua sensibilidade e argúcia, mas pela precarização de sua condição de classe. De um prodígio insuspeito a marido e jovem pai, testemunhamos sua transmutação em elipses fluídas e continuidades fraturadas. O corpo espicha, os pelos crescem, a libido acorda. E Clarisa volta.
Clarisa também muda, é claro. Fisicamente, nem tanto – o rosto moço se afina, mas segue emoldurado por mechas castanhas que caem de coques indômitos; seus modos de (auto)inscrição, empero, se transformam. De uma voz doce a uma crescente presença cênica, de diretora a personagem, de uma estrangeira a amiga-irmã, a realizadora de cabelos rebeldes tampouco doma táticas, estéticas e éticas. Seu método é o afeto, e ninguém controla plenamente as paixões.
Angél, munido de seu próprio aparato digital, às vezes a contempla de volta. Em um de seus primeiros ímpetos de experimentação, pede que Clarisa corra a esmo, “por la péli”, na noite quieta de Nanawa. Nesta ciranda de funções, ela acata inspirações alheias com traquinagem e ternura. Aos poucos, se integra a outras cenas, mais mundanas. Deixando a câmera fixa ou delegando-a a uma terceira pessoa – no caso, ao companheiro de labuta, Lucas Olivares – passa a sentar-se à mesa cheia, deitar-se na cama larga e mirar, sem medo ou rancor, a chuva grossa e traiçoeira da janela do quarto de Angél. Nem a casa inundada esmorece desejos de seguir criando juntos. O caos é fagulha e a água impura, boa condutora de cargas elétricas, não abranda energias.
Mesmo quando Clarisa não se coloca plenamente visível – estado que, ao longo de três horas e meia, parece assentar em naturalidade e conforto – , ela semeia indícios do que Coutinho chamou, um dia, de “justa distância” – aquela na qual, segundo o velho mago brasileiro, as pessoas ou se amam, ou se aniquilam. De um jeito ou de outro, se roça na pele do risco mútuo. Filmar de perto, filmar de dentro, tocar avessos e burlar fronteiras: geográficas, cinematográficas, íntimas. Clarisa não se contém em lugares fixos. No abraço e no confronto – e como os há, ela é firme na candura –, finca com Angél apenas um único pacto raro: a amizade vem antes do filme. Não há interdições ou questionamentos à (im)postura documentarista, já que os limites negociados entre eles se forjam em outras instâncias. Brincam sério com a câmera, que passa a dançar de mão em mão, na batida trap dos segredos confessos e na ponta dos dedos ágeis. Nesta poética-moleca, a forma vibra.
Vibra menos, é certo, nas reticências do desfecho. Uma nova criança, a herdeira nobre de Nanawa, que também passeia entre colos, pesa bem mais que uma câmera e cobra estabilidades. No fim, Clarisa e Angél se revezam no cuidado reprodutivo, como vinham fazendo com a própria ideia vaga da autoria fílmica. E repetem, de novo, o ritual fundante e hipnótico desta relação, de atravessar a “Pasarela de la Amistad”: ele, à frente, com mais responsabilidades; ela, atrás, com mais distância; ambos, em sintonia, com mais calma. Afinal, não se cruza o mesmo rio duas vezes. Na última, aliás, nem há mais rio sob a ponte. Até a paisagem é impermanente.
“Cuando ustedes está en un lugar que te queres quedar toda la vida, termina rápido”, disparara Angél à contra-luz de um sol baixo e melancólico em um verão longínquo. Dez anos ou três horas e meia cabem em um instante. E um frame pode durar para sempre. Futeboleira, eis a magia de Clarisa Navas: driblar o tempo.










![Em nova entrevista publicada no site, Anna Lia conversa com a cineasta Denise Vieira sobre seu longa de estreia, Sabes de Mim, Agora Esqueça (2026), que foi exibido na Mostra Horizontes da 20ª CineBH.
A conversa mergulha nas visões da diretora sobre o cinema brasileiro feito a partir da periferia e por mulheres. Denise reflete sobre o processo de construção compartilhado com as atrizes, a urgência de redefinir o cinema popular fora dos padrões hegemônicos e a potência de uma criação guiada pela intuição e pelo erótico que vai em contramão da racionalidade:
“[...] o cinema é um jeito de adentrar em coisas que são complexas e ver sentimentos, lados que às vezes são opacos, podendo adentrar outros universos.”
🔗 Leia a entrevista completa em sarayrosa.com
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En una nueva entrevista publicada en el site, Anna Lia conversa con la cineasta Denise Vieira sobre su largometraje de debut, "Sabes de Mim, Agora Esqueça" (2026), que se proyectó en la sección Horizontes de la 20ª edición de CineBH.
La conversación profundiza en la visión de la directora sobre el cine brasileño realizado desde la periferia y por mujeres. Denise reflexiona sobre el proceso de construcción compartido con las actrices, la urgencia de redefinir el cine popular al margen de los estándares hegemónicos y la potencia de una creación guiada por la intuición y lo erótico, que se aleja de la racionalidad:
"[...] el cine es una manera de adentrarse en cosas que son complejas y ver sentimientos, lados que a veces son opacos, pudiendo entrar en otros universos".
🔗 Lee la entrevista completa en sarayrosa.com](https://instagram.ftlv23-1.fna.fbcdn.net/v/t51.82787-15/849508579_17937437964390781_2655953640829663480_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=108&_nc_map=urlgen_bucketless&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=bKcPqYU2yqYQ7kNvwHYBt6u&_nc_oc=Adqw9L3cxOtTWGbSeJQshB0mvzSUGIWoCor4Got_hnsOnvMlbbJHDH4pq2HHOo3xfMQ&_nc_zt=23&_nc_ht=instagram.ftlv23-1.fna&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=J8f2NmweG9eDw9VMByQ3EQ&_nc_tpa=Q5bMBQI-wvkl7rrvg-6EgobQDf09QyrEq1MkV5UlKi2LxXW451c11S25l5lcJs0tWyuFU_L1mPDm__Sm&oh=00_AQQGhK5y3p6QRnAdt6fjEuTozCyYSD1UDtYse4N4JqiGdg&oe=6AECDE0F)







![A partir da exibição de "Virtuosas" na 20ª CineBH, em novo texto do site, Nayara Aguiar destrincha como a diretora Cíntia Domit Bittar articula as mecânicas do fundamentalismo religioso no Brasil contemporâneo.
Ao articular a lógica de mercado da fé e a vigilância moral exercida entre as próprias mulheres, o texto investiga as raízes dessa violência e a escolha da linguagem do terror:
"É no pathos específico das políticas afetivas deturpadas do fundamentalismo religioso que nasce um moralismo pungente e, desse moralismo, uma violência [...] fria na engrenagem que a arquiteta, quente nas mãos que as executam — um terror naturalista, afinal, onde mais se travaria um filme do gênero senão em Santa Catarina?”
🔗 Leia a crítica completa em sarayrosa.com
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Tras la proyección de "Virtuosas" en la 20ª Muestra CineBH, Nayara Aguiar diseca en el nuevo artículo en el site cómo la directora Cíntia Domit Bittar articula la mecánica del fundamentalismo religioso en el Brasil contemporáneo.
Al vincular la lógica mercantil de la fe con la vigilancia moral ejercida sobre las propias mujeres, el texto investiga las raíces de esta violencia y la elección del lenguaje del terror:
"Es en el pathos específico de las políticas afectivas deturpadas del fundamentalismo religioso donde nace un moralismo punzante y, de ese moralismo, una violencia que la película de Cíntia Domit Bittar transforma en propuesta: fría en el engranaje que la arquitecta, cálida en la mano que la ejecuta — un terror naturalista, al fin y al cabo, ¿dónde más se libraría una película del género sino en Santa Catarina?"
🔗 Lea la crítica completa en sarayrosa.com](https://instagram.ftlv23-1.fna.fbcdn.net/v/t51.82787-15/825270038_17934869712390781_1812860770498213797_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=106&_nc_map=urlgen_bucketless&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=_6dSBuDEB1QQ7kNvwERau_Q&_nc_oc=AdrV6BrrGA5mGwf0v2Rkn1YXvB4gpbR4ZtuHzHooeI3naNBVCRObm6wBis7TY4swZ8I&_nc_zt=23&_nc_ht=instagram.ftlv23-1.fna&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=J8f2NmweG9eDw9VMByQ3EQ&_nc_tpa=Q5bMBQJZL57qlgh9WGg8RMbjWl9CGsAz-Gy5dH4Vu6J9Vj0Zknd-Pah-69I9F7pRLag-d5zMxIrzUtEM&oh=00_AQRNKXvmEivA9764Z7xwlf3h_5-VjfRCMQ5KncAN68bZnQ&oe=6AECF316)















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