Tiradentes: Abraçar Medusa e Medeia e gozar juntas numa sala de cinema
Atualizado: 2 de fev. de 2025

Por Juliana Gusman | Críticas
Com a publicação de O prazer visual e o cinema narrativo, artigo de Laura Mulvey convencionalmente assinalado como o ponto de partida de uma crítica feminista em 1973, as formas de objetificação das mulheres no cinema começaram a ser tensionadas e subvertidas, por realizadoras, em tela. A hiperssexualização dos corpos femininos, cênicamente compostos e ordenados para apetecer um público presumivelmente cismasculino e normativo, configurou-se como uma das principais estratégias de domesticação discursiva e converteu-se, portanto, em um ponto sensível em análises politicamente orientadas. Sobretudo numa produção mais recente, uma resposta a essa tendência presente em cinematografias diversas foi a recusa total às imagens do desejo. Dessexualizar para humanizar: este foi um caminho possível. E igualmente traiçoeiro.
A historiadora italiana Silvia Federici alerta que, no capitalismo colonial e heteropatriarcal, o corpo foi o primeiro território de expropriação coletiva, transfigurado em uma máquina - objetificada, por outras vias - de produção e reprodução. Recuperá-lo, ela nos diz, é o ponto zero da revolução. O corpo deve ser alvo de uma mudança radical incendiada pelo ócio, pela dança, pelo eros. O erótico, como assopra Audre Lorde, é uma força vital, por meio da qual podemos nos transformar, umas às outras, abalando pilares e certezas eretos de um mundo forjado por homens.
Na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes, realizada em 2024, a libido masculina entumeceu-se com abundância e ousadia por meio de um conjunto de filmes, sobretudo curtas-metragens, obstinados a distender fronteiras do gosto e do gozo. Se toda expansão política-sexual é bem-vinda, tal excesso revelou o silêncio constrangido da nossa própria fome (em debate, o programador Roger Koza chegou a dizer que este é o festival com mais relances de pênis que já viu na vida).
Com excitação, percebo que em 2025 as fantasias femininas e de pessoas com bucetas voltaram a conjurar visualidades destemidas.
A começar por Safo: a doce-amarga (Larissa Muniz, MG), uma pérola da Mostra Panorama, uma janela não competitiva e, muitas vezes, mais arrojada, do evento. A própria diretora o definiu como amador. Sim, é um curta de quem ama mulheres e filmes. Muniz maneja com cuidado e irreverência recortes de ficções lésbico-feministas dos anos 1970 e 1980, colando ou montando, numa narrativa rimada e positivamente afrouxada, pequenos pedaços de ternura, tesão e flerte. Sem anunciar, de antemão, a procedência de figuras mais ou menos reconhecíveis - como a Jeanne Dielman de Chantal Akerman, a Yolanda de Sara Gómez ou as freiras sapatonas de Su Friedrich - percebemos, pela textura das imagens, um outro tempo de cinema. Na reconstrução de uma história dos gestos, adensada pela leitura fracionária de Anne Carson e Monique Wittig, Muniz revela os vestígios de um atrevimento amplo e irrestrito que nos cabe retomar. Olhar, tocar, beijar, roçar e foder: abraçar Medusa sem medo do congelamento. A reciprocidade carnal é libertária. Uma personagem diz: “I love to have sex in front of the camera”.
Na Mostra Foco, Entre Corpos, de Mayra Costa (AL), também investe numa montagem-colagem para dilatar afetos. É um filme ligeiro, estranho, em que o banal e o inusitado partilham uma mesma temperatura dramática - continuidade acentuada pelo uso nivelador do branco e preto. A costureira Vânia (Ticiane Simões) alinhava bainhas e dá nós em cus. Explora vontades, mais ou menos acatadas pelos seus clientes, com o desprendimento fresco da curiosidade infantil. A protagonista, inclusive, nutre confidências com uma criança, o que ressalta (corajosamente) a dimensão lúdica deste jogo sexual. E Vânia registra tudo: na sua própria montagem-colagem, constrói um porno-mural de fotografias com a viscosidade dos seus fluídos genitais: ela masturba e cola para extravasar pulsões. No campo e antecampo, personagem e diretora reordenam imaginários da feminilidade contra a caretice.
O que mais enfraquece a proposição estética e temática do trabalho de Costa é seu paratexto, a sinopse. Caracteriza-se a Vânia de Ticiane Simões como “uma mulher marcada por traumas”, aventando-os como origem da sua busca resoluta pelo prazer. Esses traumas, felizmente, não se traduzem para a fatura do filme, que na verdade projeta uma mulher muito capaz de sustentar e rebater investidas alheias.
A colagem crítica e imaginativa seguiu como disparador de obras feministas. Tamagochi_Balé, de Ana Costa e Silva (RJ), é uma distopia performática e ciberpunk que lamenta a desmaterialização das relações humanas. Evoca outro curta exibido no ano passado em Tiradentes, Onde Está Mymme Mastroiagnne? (2023), de biarritzzz, que, como Tamagochi_Balé, se inscreve na cultura do machinima (junção das palavras “machine”, “animation” e “cinema”, em inglês). O metaverso construído no trabalho de biarritzzz ambicionava erigir um espaço, complementar ao mundo real, capaz de acomodar a amplitude das vivências queer. Em Tamagochi_Balé, ao contrário, há pessimismo e terror com as possibilidades inventivas das tecnologias digitais, indissociáveis de um neoliberalismo que mina, justamente, a fisicalidade transformativa das satisfações comuns. O futuro do sexo fake é inóspito. Feito inteiramente com imagens de arquivo (bem diferentes daquelas de Safo: a doce-amarga) e com captações do aplicativo Zoom, descorporifica-se até o sujeito atrás da câmera. Às vezes, o tom mais explicativo da narração contrasta com a qualidade alucinada do universo virtual. Mas o filme é contundente em seus receios. E não é derrotista: termina ao som de Cher, cujo refrão-pergunta adquire outros sentidos: "do you belive in life after love?”. Ana Costa, com sua atriz dançante, parece dizer que não.
Reconhecer o desejo do desejo pelo cinema implica, de fato, acatar nossos medos e seus riscos. Luna Alkalay, realizadora septuagenária que fez parte de uma geração que desbravou caminhos, retoma a direção, após um longo hiato, para falar do amor maldito da mulher velha. Em uma obra sobriamente caótica, conscientemente delirante, Alkalay reencena a angústia de “apaixonar-se por inteiro por um homem pela metade”, 35 anos mais novo. Faz no cinema o que Annie Ernaux, em Paixão Simples (2023), fez na literatura. Ambas audazes no enfrentamento do tema e no manejo de suas linguagens autoficcionais.
Como nos outros filmes, Trópico de Leão (SP) assume - à sua maneira, evidentemente - uma colagem dissonante de diferentes registros: de narrações e encenações sobrepostas, de performances teatrais e seus ensaios avessos - o que implicou um esforço minucioso da montadora Rama de Oliveira, que consegue alinhavar o caos sem esvaziar sua energia provocativa. Para domar, num sentido psicanalítico, as sequelas de uma relação abusiva, Alkalay invoca três figuras fundadoras dos mitos e contra-mitos da feminilidade, fragmentos do seu espelho narcísico e irascível que a acolhem e multiplicam: Eco (Chris Maksud), que recita tudo o que o homem lhe diz; Penélope (Fabia Renata), que o espera, obedientemente; e Medeia, uma Helena Ignez em chamas que quer vingança.
A metáfora, como ferramenta, acompanha Alkalay desde Cristais de Sangue (1974), seu primeiro longa, recentemente restaurado depois de décadas de sua última exibição. Nele, a metáfora é uma artimanha contra a censura para falar das violências da ditadura militar (1964-1985). Em Trópico de Leão, a metáfora também parece servir ao não-dito, ao que é silenciado por outras estruturas de coerção e poder: não um regime autoritário, mas um patriarcado mutável e persistente, que segue combatendo a impertinência das nossas paixões.
Para além das metáforas, Trópico de Leão herda de Cristais de Sangue seus arquivos e sua carne, evidenciando que as preocupações da diretora persistem cinquenta anos depois. A ditadura, o massacre dos povos Yanomami, a pandemia ou a dureza e crueza dos campos de concentração que aprisionaram sua mãe no passado são questões que atravessam e agravam o seu martírio. Este cinema metafórico é seu modo de “transformar tragédias em dramas altamente suportáveis”, ainda que, quando fala da morte, crave que “toda metáfora é literal”. O eco que fica, após a sessão, tem voz de mulher.
A única obra dirigida por uma realizadora na Mostra Aurora, competitiva dedicada às primeiras direções de longa-metragem, confirma a aposta de um certo cinema feminista contemporâneo na ambiguidade (e potência) do eros. Cartografia das Ondas (RJ), de Heloísa Machado, adota o mis en abyme como alicerce de sua disposição formal: há um filme dentro do filme dentro do filme. Numa primeira camada, de tonalidades documentais-ensaísticas, os dois roteiristas - Machado e Gledson Mercês - discorrem sobre suas lidas respectivas com a vida e com o trabalho cinematográfico em processo de feitura. Renovam uma certa tradição do documentário em primeira pessoa, com duas (e mais) instâncias narradoras que se encontram e desencontram na tentativa de finalizar um projeto começado há dez anos. Tocam nas dificuldades do fazer cinema, sem perder de vista dimensões de classe e raça que existem no ofício.
Este projeto inacabado, ficcional, envolve a história de uma prostituta, Teresa (Indira Nascimento), que é levada por Caronte a uma ilha-paraíso das putas mortas. A ilha, porém, não é tão idílica, onírica. O arranjo da fotografia e os figurinos remetem às elaborações pictóricas de uma arte renascentista produzida, majoritariamente, por homens - em verdade, é um homem, o alter ego de Mercês, que engendra estes quadros diegeticamente. As mulheres, ainda, não parecem nutrir cumplicidades firmes. Mesmo a cena em que dançam juntas, como bruxas, parece ser mais tributária às visualidades hegemônicas dos sabás do que à sua reinvenção. Por fim, a obra sugere a incompatibilidade do prostituir e do maternar, já que as mulheres da ilha são obrigadas a abandonar seus filhos, obstáculos do pleno prazer. A dicotomia esposa/mãe-puta é um dos pólos ontológicos que constituem a feminilidade estimada. A puta, oposição abjeta, é a sua negação. Na defesa da autonomia dos corpos, Cartografia das Ondas pode reiterar essas cisões aparentemente irreconciliáveis.
Tais desconfortos, contudo, não são necessariamente danosos. Machado assume, altivamente, o perigo da incompreensão. O filme dentro do filme carrega as idiossincrasias do roteirista dentro do personagem. Contradições fazem sentido dentro de uma obra errante e tateante.
Há de se destacar, e aí sim celebrar, uma outra referência de Cartografia das ondas à história das artes visuais. A diretora, cuja carreira foi transpassada por uma gravidez - o que é incorporado ao longa - nos oferece sua própria releitura de A origem do mundo, de Courbet. Abre sua intimidade e suas pernas, lembrando o público de Tiradentes que nem só de paus pulsantes se faz um cinema radical.




![Em nova entrevista publicada no site, Anna Lia conversa com a cineasta Denise Vieira sobre seu longa de estreia, Sabes de Mim, Agora Esqueça (2026), que foi exibido na Mostra Horizontes da 20ª CineBH.
A conversa mergulha nas visões da diretora sobre o cinema brasileiro feito a partir da periferia e por mulheres. Denise reflete sobre o processo de construção compartilhado com as atrizes, a urgência de redefinir o cinema popular fora dos padrões hegemônicos e a potência de uma criação guiada pela intuição e pelo erótico que vai em contramão da racionalidade:
“[...] o cinema é um jeito de adentrar em coisas que são complexas e ver sentimentos, lados que às vezes são opacos, podendo adentrar outros universos.”
🔗 Leia a entrevista completa em sarayrosa.com
🇪🇸
En una nueva entrevista publicada en el site, Anna Lia conversa con la cineasta Denise Vieira sobre su largometraje de debut, "Sabes de Mim, Agora Esqueça" (2026), que se proyectó en la sección Horizontes de la 20ª edición de CineBH.
La conversación profundiza en la visión de la directora sobre el cine brasileño realizado desde la periferia y por mujeres. Denise reflexiona sobre el proceso de construcción compartido con las actrices, la urgencia de redefinir el cine popular al margen de los estándares hegemónicos y la potencia de una creación guiada por la intuición y lo erótico, que se aleja de la racionalidad:
"[...] el cine es una manera de adentrarse en cosas que son complejas y ver sentimientos, lados que a veces son opacos, pudiendo entrar en otros universos".
🔗 Lee la entrevista completa en sarayrosa.com](https://scontent-sea5-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/849508579_17937437964390781_2655953640829663480_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=108&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=QvrHfJloTAwQ7kNvwGuIhIR&_nc_oc=AdpDHabNxe-7bTa39BG-jIWdG_u-aru6u7vjx8Ys-mHqQu4JC1pkHHo79qTnn4fovfw&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-sea5-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=Ze0fwRHf7q8C51K_3-vWlg&_nc_tpa=Q5bMBQKONlO5JmqbNhWaWHoGgGzrirMMMRCrgHtRos0DbzzIeNsXKJB6Dn9XCVJgKedrtY8fCUdWiZ2D&oh=00_AQNXy-uy6nseRH87c3RG1_0Om3Sy6aZ85SJnhLvfQEXg_A&oe=6ADF3E8F)







![A partir da exibição de "Virtuosas" na 20ª CineBH, em novo texto do site, Nayara Aguiar destrincha como a diretora Cíntia Domit Bittar articula as mecânicas do fundamentalismo religioso no Brasil contemporâneo.
Ao articular a lógica de mercado da fé e a vigilância moral exercida entre as próprias mulheres, o texto investiga as raízes dessa violência e a escolha da linguagem do terror:
"É no pathos específico das políticas afetivas deturpadas do fundamentalismo religioso que nasce um moralismo pungente e, desse moralismo, uma violência [...] fria na engrenagem que a arquiteta, quente nas mãos que as executam — um terror naturalista, afinal, onde mais se travaria um filme do gênero senão em Santa Catarina?”
🔗 Leia a crítica completa em sarayrosa.com
🇪🇸
Tras la proyección de "Virtuosas" en la 20ª Muestra CineBH, Nayara Aguiar diseca en el nuevo artículo en el site cómo la directora Cíntia Domit Bittar articula la mecánica del fundamentalismo religioso en el Brasil contemporáneo.
Al vincular la lógica mercantil de la fe con la vigilancia moral ejercida sobre las propias mujeres, el texto investiga las raíces de esta violencia y la elección del lenguaje del terror:
"Es en el pathos específico de las políticas afectivas deturpadas del fundamentalismo religioso donde nace un moralismo punzante y, de ese moralismo, una violencia que la película de Cíntia Domit Bittar transforma en propuesta: fría en el engranaje que la arquitecta, cálida en la mano que la ejecuta — un terror naturalista, al fin y al cabo, ¿dónde más se libraría una película del género sino en Santa Catarina?"
🔗 Lea la crítica completa en sarayrosa.com](https://scontent-sea5-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/825270038_17934869712390781_1812860770498213797_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=106&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=0OWpA3cyJHoQ7kNvwHCQ_qQ&_nc_oc=Ado6y9_H-p637MyPnlJDPPAEJJiNZ60C_6EW05LT-vQs5-E2b5iKagrqwo6ntUuci4U&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-sea5-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=Ze0fwRHf7q8C51K_3-vWlg&_nc_tpa=Q5bMBQIpO-XhtHOyAGd0Qg-7pngd9RB-1IPga3e8VsKoUxMmq98fgnrpurlBbNjgpsmqpPirNZ8oFQ2f&oh=00_AQNoznopj9bdc1JeIkky7FI2_jyy8uHsnmZ67DTwiQIeqw&oe=6ADF5396)





















Comentários