Sessão Cineclube Ibero-americano Permanente: as pequenas revoluções diárias das senhoras de ninguém
- 1 de abr.
- 5 min de leitura
Atualizado: 2 de abr.

Por Juliana Gusman | Ensaios
A censura perpetrada pelo regime repressor na Argentina dos anos 1970 privou Leonor Vitali, personagem de Luisina Brando em Señora de Nadie (1982), de alguns excessos. Maria Luísa Bemberg teve que readequar o primeiro roteiro que ousou filmar, no cume dos seus cinquenta anos, para preservar a impertinência da dona de casa que se confronta com o cinismo insustentável da família burguesa. Retomando-o após o seu engavetamento compulsório de meia década e de uma outra estreia em longa-metragem com o não menos acintoso Momentos (1981), Bemberg, sob resquícios dos receios impostos, moderou-se na figuração de desejos femininos recém-despertos. Chegou ao ponto de imaginar um desfecho comodamente redentor, no qual a protagonista, que abandona marido e filhos no primeiro ato da obra, retorna à redoma de vidro do lar. Contudo, Bemberg, uma das realizadoras pioneiras de seu país, agarrou-se na convicção típica das transgressoras e preservou o seu final inconclusivo: a vida da mulher que transborda para o extracampo da cena matrimonial segue transcorrendo, sem amarras, para além dos limites da narrativa fílmica. Mesmo sob o hálito quente da ditadura à sua nuca, Maria Luísa deu-lhe os ombros e seguiu, também, os seus rumos irrestritos.
Na Argentina, como em outros países da Ibero-américa, há poucos registros de mulheres diretoras e produtoras. Existem referências parcas sobre Emilia Saleny – os poucos ensaios críticos que mencionaram seu nome raramente incluem detalhes biográficos, e aqueles que o fazem oferecem especulações inconclusivas, ainda que haja algum consenso sobre o lançamento de seu primeiro filme, La niña del bosque, de 1917. Existe, ainda, uma cópia restaurada do seu média-metragem El pañuelo de Clarita, de 1919, um drama de classes elaborado a partir da perspectiva de uma menina. María de Celestini, por sua vez, teria dirigido Mi derecho em 1920, sobre uma mulher separada do seu filho, concebido fora da instituição normativa do casamento. Vlasta Lah foi a primeira realizadora mulher a dirigir um filme sonorizado na Argentina, Las Furias, de 1960, em que cinco arquétipos da feminilidade – a mãe, a esposa, a amante, a irmã e a filha – levam um homem à loucura. Após o lançamento do mais exitoso Las modelos, em 1963, Lah, não se sabe o porquê, embora possamos imaginar, parou de filmar.
A essa altura, o cinema masculino argentino fertilizava-se em três tendências: o cinema mainstrem de caráter comercial, em geral comédias; o cinema novo independente influenciado pelas experiências do cinema de autor europeu, sobretudo francês e italiano; e o cinema político, tensionado pelas ditaduras militares – três dos seis golpes de estado que aconteceram no século XX na Argentina eclodiram neste período, em 1962, 1966 e 1976 –, exemplificado pelo trabalho de Fernando Birri e Fernando Solanas. Contra o pessimismo da história, Maria Luísa Bemberg desbravou, a partir dos anos 1970, suas próprias veredas, pavimentando os caminhos de terra abertos por suas antecessoras fantásmicas.
Señora de Nadie, em particular, estabelece curiosos paralelos - estéticos, narrativos, políticos - com um filme brasileiro que lhe antecedeu ao abalar as relações capital-patriarcais de posse. Os homens que eu tive (1973), de Teresa Trautman – alvo dos nossos próprio milicos incultos – já anuncia no título uma personagem – Pitty, de Darlene Glória – como dona das suas vontades, assim como Bemberg prevê as futuras aquisições de alguém que se apropria de si mesma quando deixa de pertencer ao marido-chefe e à bruta lógica domesticadora do trabalho de reprodução social da vida. Estas duas obras anti-épicas, de temperatura amena, acolhem as vibrações sísmicas das pequenas revoluções diárias. Pitty, de início, e Leonor, por decreto, transitam entre homens e espaços, desatando os nós de uma rede de apoio nuclear que nunca suportou o fardo das necessidades femininas. As duas se enredam em outros laços comunitários a medida que se afastam das convenções que limitam a criatividade dos nossos afetos. Se Pitty decide ter filhos depois de constituir uma estrutura rizomática e maleável de amparos mútuos, Leonor despreende-se pouco a pouco dos seus para explorar novos vínculos.


A personagem de Brando empreende uma jornada de reconstrução subjetiva, mas não sem antes entregar-se ao cansaço da exploração laboral intermitente e do baque de ver-se diante do excesso desestabilizador da realidade da farsa conjugal: autoliberta, seu primeiro gesto de desobediência é dormir. De fato, Bemberg se preocupa em evidenciar, no prólogo de Señora de Nadie, a coreografia árdua de suas tarefas sucessivas: lavar roupas, pôr a mesa, alimentar crianças parrudas. A transa com o marido também é uma incumbência corriqueira, cujo tempo é delimitado pelo despertar de um alarme que controla a cadência morna e precisa de sua rotina. A câmera da diretora acompanha Leonor pela casa, cúmplice. Não por acaso, o plano inaugural do filme enquadra o girar entediante e lento de um ventilador, reproduzindo a provável perspectiva da mulher que se perde nas trincas do teto enquanto se aliena do gozo alheio.
Ainda, esta câmera aliada parece, logo em seguida, rebelar-se sob o ritmo frenético da protagonista: no rompante revoltoso de Leonor, suas bordas estáveis tremulam com a urgência desconcertante de sua partida. Que a personagem espalhe post-its instrutivos antes de abdicar-se como engrenagem fundamental da máquina familiar diz menos de uma preocupação com manutenção de seu bom funcionamento do que da necessidade – política, de Bemberg – de explicitar a natureza de seus mecanismos, afiançados por esforços tão essenciais, quanto invisíveis. Quando, já mais desprendida das demandas da feminilidade hegemônica, Leonor diz à empregada – a mulher subalterna que, após a debandada da esposa, segue sustentando e servindo à mesma ordem – que sente pena de sua condição enclausurada, a funcionária responde, com o tino ácido e interseccional da consciência de classe: “a mim, me pagam”. A reconstrução subjetiva de Leonor também passa pela ruína das suas piores contradições.
Mantendo-se, apesar de tudo, acolhedora e paciente, Bemberg acompanha, sem mais alardes, o despertar moroso de uma consciência feminista. Leonor vai gradativamente desprendendo-se uma imagem rígida, adornada por figurinos de cortes retos e cores neutras – tão contrastantes com a túnica vermelha esvoaçante da amante do marido, encarnada por Susú Pecoraro –, para permitir-se mover, ela mesma, com a fluidez de tecidos leves. Luisina Brando, numa atuação refinada, modula os relevos de seu rosto para expandir as sensações de uma mulher que se abre ao mundo. O reencontro com o marido em determinado momento – entre outros encontros fugazes – não lhe desvia de suas conquistas. Ao final de um diálogo tão apaziguador quanto irreconciliável, Fernando, saudoso dos seus confortos, diz que lhe ama. Leonor replica, com ambiguidade: “eu também” – e então, conjura a si mesma como o sujeito oculto da declaração, reiterando o amor-próprio que não a deixará recair em armadilhas sentimentais.
Os censores se escandalizaram com a suposta perversidade da mulher que abdica da maternidade sacralizada e se contenta, ao fim e ao cabo, com os arranjos familiares estabelecidos com um amigo gay. Leonor, no entanto, jamais recusa as atribuições advindas de uma responsabilidade ética com os outros: ela apenas desprivatiza o cuidado e se inclui no rol dos seres zeláveis.
Señora de Nadie estreou em 1 de abril de 1982. Na segunda sessão do Cineclube Ibero-americano Permanente, celebramos sua irreverência, exatamente 44 anos depois.



![No novo ensaio publicado em nosso site, escrito sob o calor da exibição de Vámonos, Bárbara (1978) no Cineclube Ibero-americano Permanente, nesta quarta-feira, dia 17 de junho, Juliana Gusman destrincha como a cineasta espanhola Cecilia Bartolomé tensiona o texto matriz de Martin Scorsese (Alice Não Mora Mais Aqui) através de um exercício de distanciamento formal e discursivo.
Longe de se curvar às estéticas do norte global, o texto de Juliana reafirma a posição do filme na cartografia ibero-americana, costurando cumplicidades com o cinema de ruptura feito por mulheres aqui:
“Talvez Vamos, Bárbara se achegue mais, na verdade, de nosso próprio road movie feminista inaugural, Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina. [...] a Betinha de Cristina Pereira compartilha certas inadequações incendiárias com a Bárbara de Cristina Alvarez – para além da cabalística coincidencia no nome de suas intérpretes.”
Leia mais sobre a diretora e sua obra no ensaio de @juliana.gusman, escrito para o terceiro encontro do Cineclube Ibero-americano Permanente, uma parceria entre Sara y Rosa, Cine Humberto Mauro do @palaciodasartes_ e Instituto Cervantes de BH.
🔗 O ensaio completo está disponível em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CeciliaBartolome #CinemaFeminista #CríticaFeminista](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/726575221_17917835919390781_4399166472106971886_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=110&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=ywrC2I0ZW1oQ7kNvwFdrxTX&_nc_oc=AdqsBN-5D3zjRu_TBFFbb7fVapJQem7vz2gNBJDw3j8U8P3zhb2MGolbOkeCOhfQBRo&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=rje5imGSm6BNyYNvklzpFg&_nc_tpa=Q5bMBQERyq237b7G9IayhMNjSDzOuxPcFq7zCpQpQKit87p8r7Ugy1QAR2DGDxifLq1aGQG1XVSt8ZpR&oh=00_Af-Xv7UKkvacBNtb9j_q1rjKmTvhWev_iB8O_4ZXSKjHrw&oe=6A4311BF)








![“Curar não é apenas escolher filmes; [...] é, antes de tudo, um exercício de escuta ao que pede passagem.”
Neste texto, Vanessa Santos defende a curadoria enquanto um campo relacional. Partindo da obra "Le Grand Calao", ela nos convida a romper com a lógica da exaustão e a enxergar o descanso como um gesto radical de resistência.
“Entre afetos, silêncios e partilhas, vai sendo tecida uma ode ao tempo feminino, numa atmosfera que desafia o peso do cotidiano e que irradia o desejo de existir fora das obrigações.”
Para Vanessa, o olhar curatorial é uma construção que atravessa memórias, desejos e a urgência de criar condições de aparecimento para narrativas historicamente marginalizadas. Aqui, programar filmes torna-se um ato de desobediência visual que recusa o fardo e reivindica o prazer.
Uma proposta essencial para quem pensa o cinema como um território vivo de disputas simbólicas e políticas.
🔗 Leia o texto completo em sarayrosa.com
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“Curar no es meramente elegir películas; [...] es, sobretodo, un ejercicio de escucha de aquello que busca abrirse paso.”
En este texto, Vanessa Santos defiende por la curaduría como un campo relacional. Tomando como referencia la obra "Le Grand Calao", ella nos invita a romper con la lógica del agotamiento y a concebir el descanso como un gesto radical de resistencia.
“Entre afectos, silencios y actos de compartir, se teje una oda al tiempo femenino; todo ello en una atmósfera que desafía el peso de lo cotidiano y irradia el deseo de existir más allá de la obligación”.
Para Vanessa, la mirada curatorial es un constructo que atraviesa memorias, deseos y la urgencia de crear las condiciones propicias para el surgimiento de narrativas históricamente marginadas. Aquí, la programación de películas se convierte en un acto de desobediencia visual que rechaza la carga y reivindica el placer.
Una propuesta imprescindible para todo aquel que conciba el cine como un territorio vivo de disputa simbólica y política.
🔗 Lee el texto completo en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/704750670_17913389088390781_5809290323017999812_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=107&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=pk4eufibvvYQ7kNvwFrdXzl&_nc_oc=Ado87aKoCjUMvN8c8O49b_t4T-n95gsZQwMSfYtN9UgdivKM364oSiBZZgqyrfIk3EI&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=rje5imGSm6BNyYNvklzpFg&_nc_tpa=Q5bMBQHgPeBt8snyGGi8DJftVZU9ypkH7TTaV2M1-_qAAh4aMhvp4-a1q60U5Kr0hHT8ejmjBVhwLrhL&oh=00_Af9OrxuqyOF78cNo37ysbGR1IK0Boi11Qw67aa41toNWwA&oe=6A430B76)



![“Sou um corpo dissidente do (cis)tema de sexo-gênero (…) Habito fronteiras.”
Neste ensaio, @luignascimento parte de si para atravessar o cinema: da ausência de referências à urgência de se ver em cena, das representações estereotipadas à construção de um cinema sapatão brasileiro contemporâneo, feito por quem vive essas experiências.
Entre apagamentos, “in/visibilidades” e narrativas marcadas por violência, o texto revela também as brechas — filmes, gestos e alianças que transformam o cinema em espaço de existência, desejo e criação.
“Há um senso de urgência que acompanha esse desejo […] urgência de falar para nós, por nós, mas também de gritar ao mundo quem somos e quem podemos ser.”
Um mergulho sensível e político em um cinema que se constrói no afeto, na coletividade e na invenção de outras possibilidades de vida.
🔗 Leia na íntegra em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CinemaSapatão #CinemaQueer #CríticaFeminista #CinemaBrasileiro
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Entre las brechas sápatonas en el cine brasileño
Por Lui Nascimento
“Soy un cuerpo disidente del (cis)tema de sexo-género (…) Habito fronteras.”
En este ensayo, Lui Nascimento parte de su propia experiencia para atravesar el cine: desde la ausencia de referentes hasta la urgencia de verse en pantalla, de las representaciones estereotipadas a la construcción de un cine lesbiano contemporáneo en Brasil.
Entre invisibilidades y narrativas marcadas por la violencia, el texto también revela las grietas — películas, gestos y alianzas que transforman el cine en un espacio de deseo, existencia y creación.
“Hay una urgencia […] de hablar para nosotres, por nosotres, pero también de gritar al mundo quiénes somos y quiénes podemos ser.”
Un recorrido sensible y político por un cine que se construye desde el afecto, la colectividad y la invención de otros mundos posibles.
🔗 Lee el texto completo en sarayrosa.com
Imagens dos filmes “Peixe” (2019) de @ygcf_ysmn e “Minha história é outra” (2019) de Mariana Campos](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/693332325_17910936828390781_3741062162069005596_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=101&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=OouZSJ2qI_wQ7kNvwFibPTF&_nc_oc=Ado7mTmIPIRwqzmefKLDS8rDZ2jBCahInc4ohH4v4O48To2rHPlE7stX8v0iHJal0nQ&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=rje5imGSm6BNyYNvklzpFg&_nc_tpa=Q5bMBQF1KyLvqwaPjhIXt8hCMejwdoyT1d_bNLeBZygDZYNZOqkgeRIYtf0Y48fZ-4w3Pdl2bql3EdL1&oh=00_Af_GNihlZwuIRAXRVQkNCtH7xleweTwgVkSuO3piVGQd3Q&oe=6A430C92)

















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