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Ressaca: bate e volta Tiradentes

  • Foto do escritor: Juliana Gusman
    Juliana Gusman
  • há 5 dias
  • 5 min de leitura

Por Juliana Gusman | Metacrítica


Juliana Antunes, Camila Matos, Laura Godoy e Marcella Jacques, equipe de "Bate e volta Copacabana". Foto: Leo Lara
Juliana Antunes, Camila Matos, Laura Godoy e Marcella Jacques, equipe de "Bate e volta Copacabana". Foto: Leo Lara

Quando Juliana Antunes e Camila Matos sobem ao palco do Cine-Tenda para receber um prêmio carregando um cartaz em que se lê “políticas públicas para diretoras”, com um cifrão circulado em vermelho, lembrei-me de Matilde Landeta. Tenho estudado sua obra nos últimos meses. Landeta foi a única mulher a dirigir um longa-metragem na Era de Ouro do cinema mexicano, entre os anos 1940 e 1950. Precisou assistir em roteiro e direção de mais de 70 filmes até que os burocratas dos estúdios lhe dessem aval para seguir com seu primeiro projeto autoral. Mesmo assim, sem dinheiro. Vendeu o carro, hipotecou a casa e pediu favor a conhecidos para fundar a própria produtora, a TACSA. Lola Casanova foi lançado em 1948 com atraso, depois de um boicote de mais de ano. Estreou, proposital e cruelmente, numa terça-feira esvaziada de Semana Santa. Com La Negra Angustias, de 1950, e Trotacalles, de 1951, as dificuldades se mantiveram coladas à sua teimosia ferina. Seu melodrama de cabaré proto-feminista, que por iniciativa da plataforma Sara y Rosa, será exibido pela primeira vez em Belo Horizonte na próxima semana, foi a ponta de um hiato que se estendeu por quatro décadas. Nocturno a rosário foi lançado em 1991, antecedendo em oito anos a morte de Landeta.


Seus adversários seguem vivos.


Na Mostra de Cinema de Tiradentes, contamos 36 filmes nas principais categorias competitivas: seis da Aurora, sete na Olhos Livres, cinco da Autorias, seis no Work in Progress, totalizando 24 longas somados aos 12 curtas da mostra Foco. Neste conjunto, há doze filmes dirigidos por mulheres, oito sem partilhar a assinatura com um colega homem. 33% e 22% são as porcentagens que ilustram cenários ainda inóspitos, que podem se agravar a depender de outros atravessamentos.  


Penso na proposição temática da “Soberania Imaginativa”, que evoca o gingado de uma autodeterminação que não se dobra a vocabulários e formas impostas de fora. No microcosmo do interior de Minas, cria-se, como já aventou a programadora Cíntia Gil, presente no evento, outros centros de valoração de proposições estéticas, artísticas, políticas, desde a base do que os nossos territórios podem prover. O solo é fértil e, em Tiradentes, não se teme a colheita.


Tais frutos – que nos saciam tão abundantemente – não são distribuídos ao sabor do acaso. Em mais de um fórum de debates, falou-se sobre os modos específicos de circulação que cada filme demanda. Em outro aceno a Gil, existe, na atividade de curadoria, um gesto de “tradução cultural”, uma busca pelas maneiras pelas quais os filmes podem se conectar com contextos de programação que melhor poderão lhe acolher – o que não significa uma adesão plena –, seja em termos de escala, de público, de circunstâncias históricas ou até da natureza de sua matéria. Para Gil, é possível, e até legítimo, que um filme, que talvez se perca na sucata das imagens excedentes, perdure pelos textos. Em Tiradentes, há toda uma sorte de encontros oportunos e nada fortuitos. Há um cálculo quase matemático para fazer aflorar a poesia de experiências sensórias diversas. Os filmes realmente chegam às pessoas às quais, num exercício de projeção, fé e promessa, eles se destinam.  


Mas as mulheres diretoras chegam a Tiradentes?


Com a premiação do WIP, Juliana e Camila poderão, quem sabe em breve, terminar uma jornada de produção de quase dez anos, abandonar a estrada esburacada da precariedade laboral e retornar ao festival com o seu Bate e volta Copacabana. O cifrão de seu cartaz não foi circulado em vermelho à toa. Para que um filme de uma cineasta seja programado ele precisa, para além de uma recodificação perceptiva feminista que radicaliza (e democratiza) ainda mais a ideia de soberania imaginativa, existir.


Nesse sentido, talvez o Prêmio Helena Ignez, iniciativa importante que reconhece presenças femininas singulares no festival, pudesse ser atribuído não pelo júri oficial, encarregado de premiar os filmes inscritos das mostras Olhos Livres e Foco, o que reduz o escopo de mapeamento dessas figuras. Uma coletividade que olhe de maneira transversal para a programação talvez conseguisse apreender, sistematizar e provocar as linhas de força que apontam para a continuidade (inquieta, desacomodada) de uma contra-história do “cinema de mulheres” feito no Brasil.


Há mais de dez anos, muitas pesquisadoras se dedicaram a virgular essa história, inclusive pela atividade crítica. Junto com uma proposta urgente e concreta de literacia cinematográfica nas escolas, a crítica foi alçada, nas discussões durante o festival, como vetor fundamental para disputas frente à monocultura da nossa atenção. A crítica tem uma vocação memorialística e propositiva. Para não perder minha xará e Camila de vista, a crítica intervém no “bate e volta” das ideias que moldam o cinema. De certa forma, são as palavras que fazem ecoar, com limpidez ou ruídos, os instantes de suspensão idílica e carnavalesca que se conjuram, magicamente, durante nove dias no sul chuvoso de Minas Gerais.


Deixei Juliana e Camila próximas para pegar o cartaz emprestado. Uma das pontas mais precarizadas da economia cinematográfica nacional, a crítica também está em apuros.


A crítica de cinema independente – seja ela de verve feminista ou não – encontra um respaldo de infraestrutura incomum e louvável em Tiradentes. Ainda assim, e em todo lugar, uma lógica algorítmica gravitacional insiste em nos puxar para fora dos filmes que amamos e queremos guardar. Tanto quanto realizadoras e realizadores que, como Marcela Borela (ela, ao vencer a Mostra Autorias, de fato pegou o cartaz emprestado), se lançam ao risco da incompreensão hostil para soltar-se numa dança mais livre e descodificada com as imagens, os críticos e críticas que dançam junto estão diante dos mesmos abismos. Sem vínculos empresariais, acordos publicitários ou uma rede ampla de colaboradores, quase sempre construída a partir do apelo sedutor a um circuito cultural hegemônico, massificado, já conhecido e procurado pelas audiências – o blockbuster como isca – nos resta a insensatez dos apaixonados.


A crítica substantiva, para além das resenhas mais imediatas, depende de maturação. Não há como digerir o banquete tiradentino em poucos dias. Porém, escrevo este texto – no qual certamente verei, mais a frente, lacunas imperdoáveis – num domingo à noite com a ressaca acachapante de quem acaba de chegar em casa. Amanhã já preciso retomar meus estudos de Landeta, pois há contas a pagar e não há tempo a perder.


Sara y Rosa, plataforma que co-criei e coordeno, nasceu graças à Lei Paulo Gustavo, numa abertura muito rara para nossa área de atuação. Conseguimos pagar todas as autoras que já colaboraram conosco. Dito isto, meu trabalho de um ano foi remunerado com um orçamento suficiente para os gastos de apenas um mês.


“Políticas públicas para críticas” – cifrão com círculo vermelho ao lado.


A crítica substantiva, como pensamento e ação, também depende de uma qualidade laboral mínima. E Tiradentes, que tanto luta nesta frente, me parece um lugar propício para que possamos começar a assoprar esses sonhos. 

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