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Paz Encina: amar o cinema, sentir o tempo

21 de set.
5 min de leitura

Por María José Merino | Ensaios



O espaço que a 20ª Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte dedica à obra de Paz Encina é mais do que uma homenagem a uma artista: trata-se de um reconhecimento do valor daquele cinema latino-americano que nos permite habitar o tempo. Digo isso assim, de imediato, sem muita introdução possível, porque, embora a reflexão sobre o que significa o tempo seja a espinha dorsal do fazer cinematográfico, não é comum encontrar, no mar contemporâneo de imagens gravadas, um respeito tão definitivo por aquilo que isso significa na grande tela.


E podemos concordar que Paz Encina é um pilar fundamental do cinema paraguaio e da região, tendo levado um conjunto de obras diversas em sua forma a inúmeros festivais e espaços dedicados à cultura ao redor do mundo. Mas há algo singular, e maravilhosamente grandioso, nesse “diálogo histórico” que atravessa sua trajetória.


Dos formatos curtos de vídeo experimental aos longas-metragens, Encina faz da imagem e do som uma matéria palpável, capaz de desafiar o caráter efêmero que um plano costuma ter. Em seus filmes, a matéria se molda com o tempo, com a espera, com a quietude. Ao colocar as mãos sobre o trabalho do tempo, faz com que as imagens não sejam aquilo que precisamos atravessar para chegar a outra coisa, mas aquilo que sustenta o próprio tempo. A imagem, no cinema de Encina, resiste ao desaparecimento.


Mais do que uma grande representante daquilo que Tarkovski chamou de “esculpir no tempo”, a obra de Paz Encina nos acompanha em um processo que é insubstituível para as audiências latino-americanas: revisar cuidadosamente a nossa história. Tomar nossos tempos passados com as mãos, revirá-los, detê-los, rachá-los, desconstruí-los; olhá-los até que nos abram as feridas e, então, parar. Imóveis diante das rupturas de ontem, podemos sentir como a energia vital do presente nos atravessa e, com ela, a possibilidade de muitos outros futuros.


É assim que a diretora coloca em palavras ao falar de seu Paraguai natal: “Somos um país de muita tragédia, só podemos esperar algo melhor… é isso que fazemos, esperamos”.


Hamaca paraguaya (2006), seu primeiro longa-metragem, elogia aquela espera na qual habitam, em partes iguais, a esperança e o desalento. Também nós, espectadoras, permanecemos diante de um plano que parece único e infinito — o de um casal que conversa em uma rede no meio da floresta — e escutamos suas vozes como quem escuta um conto: o da perda de um filho que partiu para lutar na frente da Guerra do Chaco. O filho ausente é semelhante à chuva, anunciada na própria construção da atmosfera do filme: uma imagem escurecida pelas nuvens, atravessada por trovões que permanecem fora de campo. Ele tem certeza de que a tempestade chegará. Ela, por sua vez, responde: “Você pode ser lavrador, mas eu sou mãe. A esperança se perde”.


Entendo o sucesso alcançado por esse primeiro longa também como uma distinção à demonstração do profundo amor que a diretora tem pelas possibilidades do cinema. Encina toca a imagem como matéria, em 35 mm, mas também explora tudo aquilo que o cinema pode fazer aparecer sem mostrar. Aproveita o plano e sua atmosfera para expandir as possibilidades da imaginação trazidas pelo fora de campo. Não vemos a guerra, mas a imaginamos; nós a sentimos precisamente através de sua ausência.


E paramos, mais uma vez, diante de um plano constante que enaltece a pausa e nos permite perceber o tempo. “O ritmo não é determinado pela duração das sequências, mas pela pressão do tempo que transcorre nelas”, escreve Tarkovski em Esculpir no tempo. Diante do frenesi da montagem dominante, Encina nos oferece a generosidade da permanência da imagem. Uma permanência que, longe de construir uma imobilidade dogmática, nos faz sentir a passagem do tempo: na pele, na vibração do som, na própria pressão de contrariar a obrigação do corte.


Há algo de fantasticamente paradoxal nessa constância. A meu ver, ao permanecer diante de uma imagem do passado, Encina nos propõe imaginar as possibilidades da mudança. E é aí que surge uma postura política: se a imagem do passado, da ausência, da ferida, permanece, como devolver a ela, através da nossa imaginação, a possibilidade de se transformar em outra coisa? Como fazer com que aquilo que permanece também possa se transformar em algo mais justo?


Ejercicios de memoria (2016) convoca diretamente essas possibilidades. Ao colocar a palavra “exercício” como uma forma de teste, de prática empírica, Paz Encina experimenta uma maneira de articular os Arquivos do Terror da ditadura de Alfredo Stroessner no Paraguai e nos convida a percorrer um caminho extraoficial em direção à memória. Testemunhos, fotografias e documentos que evidenciam a monstruosa maquinaria da tortura, da perseguição e dos desaparecimentos permanecem no tempo: às vezes em silêncio, às vezes acompanhados por texturas plásticas ou sonoras.


Uma montagem próxima do experimental molda o arquivo e a imagem filmada a partir de uma intimidade que só pode nascer da memória individual: a da própria diretora, que viveu a ditadura no corpo e que, além disso, é filha de um perseguido político. O arquivo deixa então de ser uma prova do passado para se tornar uma matéria viva, suscetível de ser tocada, intervinda e novamente olhada.


O que construímos a partir do arquivo do horror? O que fazemos com as feridas quando o tempo não consegue apagá-las? Encina parece nos propor uma resposta que insiste nessas perguntas e imagina, a partir delas, outra paisagem possível.


Resta-nos o cinema.


E, com o cinema, recordar, insistir, permanecer, parar, reconstruir.


Reconstruir com o cinema: uma ideia que, por fim, teremos a oportunidade de explorar, no âmbito desta homenagem, com o mais recente longa-metragem da diretora, Carta a un Viejo Máster (2024). Uma homenagem dentro de outra, para coroar o percurso de uma amante do cinema e do tempo. Desta vez, a Eduardo Coutinho, que também esculpiu outro cinema com a matéria de seu presente.


Nessa busca afetiva, mais de vinte anos depois, pelo contraplano de Edificio Máster (2002), documentário que transformou as formas de pensar e articular o gênero para muites cineastas do Sul Global, Encina nos propõe novamente suspender-nos diante de planos estáticos e diante da possibilidade infinita e maravilhosa do fora de campo. Diante de um filme, lembramos de outro filme. Habitamos o passado a partir do presente. Atravessamos o tempo como se fôssemos, nós mesmas e as imagens, um coletivo de fantasmas.


Talvez aí resida uma das maiores potências do cinema de Paz Encina: em nos lembrar que permanecer e avançar não são movimentos opostos. Que uma imagem pode permanecer imóvel, muito imóvel, e, ainda assim, nos levar para longe. Que podemos habitar o passado sem deixar de imaginar o futuro.


Como pode ser que permaneçamos e nos movamos ao mesmo tempo?


Talvez essa seja uma das magias do cinema.


Amar o cinema. Sentir o tempo.



Referências:


de Branco, C. (2015). Tejiendo memoria a través del cine, una entrevista a Paz Encina. Imagofagia, (11). https://imagofagia.asaeca.org/index.php/imagofagia/article/view/458


Tarkovsky, A. (1987). Sculpting in time: Reflections on the cinema



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