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29ª Mostra de Tiradentes – Devaneios da madrugada: notas soltas sobre a crise dos homens

  • Foto do escritor: Juliana Gusman
    Juliana Gusman
  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

Por Juliana Gusman | Críticas



Tiradentes, Janeiro de 2026.

 

Acordo de madrugada com o casal do quarto ao lado discutindo acaloradamente sobre o ar condicionado, para seguir a uma trepada morna. A garota se contém, enquanto o rapaz emite murmúrios de autocongratulação. Entre os intervalos das rangidas ágeis de uma cama velha, ele solta palavrões para entumecer a própria macheza. Lembro-me de três filmes vistos nesta semana em Tiradentes e, contra a natureza sagrada do meu sono e a esbórnia profana da noite festiva, faço o impensável e começo a escrever.


O primeiro filme é Grão, curta de Gianlucca Cozza e Leonardo Rosa. Em Cassino (2024), Cozza já havia aventado a tenuidade espectral da masculinidade heterocentrada. Seus personagens delinquentes deambulam, fantásmicos, pelas ruas invernais e esvaziadas do Balneário Cassino, compartilhando xavecos frustrados e ofensas afáveis. Grão retoma, com o mesmo arrojo formal e com mais refinamento político, a premissa discretamente provocadora da perambulação: Leandro vaga pela cidade com seu carro fálico, buscando, sem muita consciência, convalidações externas. Grava um áudio de putaria para excitar a si mesmo. Escuta-o de novo e de novo. Num exercício de dissociação e reflexo, procura se deparar com a imagem máscula que tenta erigir. Seu gozo é sempre perseguido nas brechas solitárias de seus fracassos: inábil no jogo da paquera, lhe resta bater punheta num beco escuro. O verniz da virilidade rui fino como os grãos extraviados para venda ilegal que vibram com o pancadão pulsante do porta-malas. Sem conseguir apreender a rarefação de seus disfarces, Leandro encarna a melancolia de quem ainda não tem vocabulário para domar uma subjetividade em ruínas.


Diego Bauer, que traduz o zeitgeist literário da autoficção para o cinema em Obeso Mórbido, sabe melhor de sua agrura. Na beira dos 30, enfrenta o emagrecimento do desejo do seu novo corpo. A medida que a precarização laboral engorda – a rotina do precariado artístico do Brasil –, a ansiedade para saciar a própria integridade psíquica e seus prazeres dormentes aumenta. Diego canaliza impulsos compulsivos para a briga de rua ou para transas fortuitas, até que se rende aos consolos antigos e familiares do cigarro e da comida. O peso retorna, o trabalho some e Diego broxa. Como Leandro, se masturba num plano longo e sem fim. Interpretando a si mesmo, o ator-diretor reencena sua transformação física, num contar-se psicanalítico que passa menos pelo verbo do que pela sistematização dramatúrgica de sensações hápticas. Como em Grão, algo pulsa sugestivamente da tela. Diego faz latejar a visceralidade do seu descontrole progressivo que, como na vida em curso, não se resolve plenamente. Na sequência final, ele retoma o hábito da corrida – libertária com a chuva límpida –, mas não abandona o conforto traiçoeiro do primeiro trago. Dos frangalhos da identidade de alguém que não é capaz de prover, criar e foder, recolhe-se, com alguma compaixão, os cacos possíveis.


Há, por fim, o mito da vingança dos Tikmû´ûn, com a animação tarantinesca Kakxop pahok: as crianças cegas, de Cassiano Maxacali e Charles Bicalho. Os maridos não retornam após uma caçada, e suas companheiras trocam seus filhos entre si como novos parceiros. No retorno dos abandonados, uma carnificina punk rock ultrarradical aparentemente incompatível com os traços simples dos desenhos à mão se instaura. Mas os garotos, mutilados, também revidam. Horrorífico, gore e surpreendente, Kakxop pahok diz algo de uma crise mais ampla dos impulsos inconfessáveis e incontidos dos homens.


E o sol se põe a nascer.

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