29ª Mostra de Tiradentes – Devaneios da madrugada: notas soltas sobre a crise dos homens
- 31 de jan.
- 3 min de leitura
Por Juliana Gusman | Críticas

Tiradentes, Janeiro de 2026.
Acordo de madrugada com o casal do quarto ao lado discutindo acaloradamente sobre o ar condicionado, para seguir a uma trepada morna. A garota se contém, enquanto o rapaz emite murmúrios de autocongratulação. Entre os intervalos das rangidas ágeis de uma cama velha, ele solta palavrões para entumecer a própria macheza. Lembro-me de três filmes vistos nesta semana em Tiradentes e, contra a natureza sagrada do meu sono e a esbórnia profana da noite festiva, faço o impensável e começo a escrever.
O primeiro filme é Grão, curta de Gianlucca Cozza e Leonardo Rosa. Em Cassino (2024), Cozza já havia aventado a tenuidade espectral da masculinidade heterocentrada. Seus personagens delinquentes deambulam, fantásmicos, pelas ruas invernais e esvaziadas do Balneário Cassino, compartilhando xavecos frustrados e ofensas afáveis. Grão retoma, com o mesmo arrojo formal e com mais refinamento político, a premissa discretamente provocadora da perambulação: Leandro vaga pela cidade com seu carro fálico, buscando, sem muita consciência, convalidações externas. Grava um áudio de putaria para excitar a si mesmo. Escuta-o de novo e de novo. Num exercício de dissociação e reflexo, procura se deparar com a imagem máscula que tenta erigir. Seu gozo é sempre perseguido nas brechas solitárias de seus fracassos: inábil no jogo da paquera, lhe resta bater punheta num beco escuro. O verniz da virilidade rui fino como os grãos extraviados para venda ilegal que vibram com o pancadão pulsante do porta-malas. Sem conseguir apreender a rarefação de seus disfarces, Leandro encarna a melancolia de quem ainda não tem vocabulário para domar uma subjetividade em ruínas.
Diego Bauer, que traduz o zeitgeist literário da autoficção para o cinema em Obeso Mórbido, sabe melhor de sua agrura. Na beira dos 30, enfrenta o emagrecimento do desejo do seu novo corpo. A medida que a precarização laboral engorda – a rotina do precariado artístico do Brasil –, a ansiedade para saciar a própria integridade psíquica e seus prazeres dormentes aumenta. Diego canaliza impulsos compulsivos para a briga de rua ou para transas fortuitas, até que se rende aos consolos antigos e familiares do cigarro e da comida. O peso retorna, o trabalho some e Diego broxa. Como Leandro, se masturba num plano longo e sem fim. Interpretando a si mesmo, o ator-diretor reencena sua transformação física, num contar-se psicanalítico que passa menos pelo verbo do que pela sistematização dramatúrgica de sensações hápticas. Como em Grão, algo pulsa sugestivamente da tela. Diego faz latejar a visceralidade do seu descontrole progressivo que, como na vida em curso, não se resolve plenamente. Na sequência final, ele retoma o hábito da corrida – libertária com a chuva límpida –, mas não abandona o conforto traiçoeiro do primeiro trago. Dos frangalhos da identidade de alguém que não é capaz de prover, criar e foder, recolhe-se, com alguma compaixão, os cacos possíveis.
Há, por fim, o mito da vingança dos Tikmû´ûn, com a animação tarantinesca Kakxop pahok: as crianças cegas, de Cassiano Maxacali e Charles Bicalho. Os maridos não retornam após uma caçada, e suas companheiras trocam seus filhos entre si como novos parceiros. No retorno dos abandonados, uma carnificina punk rock ultrarradical aparentemente incompatível com os traços simples dos desenhos à mão se instaura. Mas os garotos, mutilados, também revidam. Horrorífico, gore e surpreendente, Kakxop pahok diz algo de uma crise mais ampla dos impulsos inconfessáveis e incontidos dos homens.
E o sol se põe a nascer.







![No novo ensaio publicado em nosso site, escrito sob o calor da exibição de Vámonos, Bárbara (1978) no Cineclube Ibero-americano Permanente, nesta quarta-feira, dia 17 de junho, Juliana Gusman destrincha como a cineasta espanhola Cecilia Bartolomé tensiona o texto matriz de Martin Scorsese (Alice Não Mora Mais Aqui) através de um exercício de distanciamento formal e discursivo.
Longe de se curvar às estéticas do norte global, o texto de Juliana reafirma a posição do filme na cartografia ibero-americana, costurando cumplicidades com o cinema de ruptura feito por mulheres aqui:
“Talvez Vamos, Bárbara se achegue mais, na verdade, de nosso próprio road movie feminista inaugural, Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina. [...] a Betinha de Cristina Pereira compartilha certas inadequações incendiárias com a Bárbara de Cristina Alvarez – para além da cabalística coincidencia no nome de suas intérpretes.”
Leia mais sobre a diretora e sua obra no ensaio de @juliana.gusman, escrito para o terceiro encontro do Cineclube Ibero-americano Permanente, uma parceria entre Sara y Rosa, Cine Humberto Mauro do @palaciodasartes_ e Instituto Cervantes de BH.
🔗 O ensaio completo está disponível em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CeciliaBartolome #CinemaFeminista #CríticaFeminista](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/726575221_17917835919390781_4399166472106971886_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=110&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=XASc-Fwh0TQQ7kNvwEiKk2G&_nc_oc=AdrI6Pxfbi1P4IA7nLh0dbUSIjy5WVotYyjrfNCrsdVb9WAQnHgqzbeUyvo3ShsNAn8&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=5juG-zqDGLoS7ufWn_6hHA&_nc_tpa=Q5bMBQH00qycP5rDOwxIGVTw0y19EuhyCWZt25cxylSsd7CncklWeVf1LK1RlY8LvOr6HHm25zBV3h7f&oh=00_AQB_JPxpVXIQl5B03TGFtufNx0lDMTCGwWlvNgQ3qn8X7Q&oe=6A49E17F)








![“Curar não é apenas escolher filmes; [...] é, antes de tudo, um exercício de escuta ao que pede passagem.”
Neste texto, Vanessa Santos defende a curadoria enquanto um campo relacional. Partindo da obra "Le Grand Calao", ela nos convida a romper com a lógica da exaustão e a enxergar o descanso como um gesto radical de resistência.
“Entre afetos, silêncios e partilhas, vai sendo tecida uma ode ao tempo feminino, numa atmosfera que desafia o peso do cotidiano e que irradia o desejo de existir fora das obrigações.”
Para Vanessa, o olhar curatorial é uma construção que atravessa memórias, desejos e a urgência de criar condições de aparecimento para narrativas historicamente marginalizadas. Aqui, programar filmes torna-se um ato de desobediência visual que recusa o fardo e reivindica o prazer.
Uma proposta essencial para quem pensa o cinema como um território vivo de disputas simbólicas e políticas.
🔗 Leia o texto completo em sarayrosa.com
#SarayRosa #VanessaSantos #Curadoria #CinemaNegro #PoliticasDoOlhar #LeGrandCalao
🇪🇸
“Curar no es meramente elegir películas; [...] es, sobretodo, un ejercicio de escucha de aquello que busca abrirse paso.”
En este texto, Vanessa Santos defiende por la curaduría como un campo relacional. Tomando como referencia la obra "Le Grand Calao", ella nos invita a romper con la lógica del agotamiento y a concebir el descanso como un gesto radical de resistencia.
“Entre afectos, silencios y actos de compartir, se teje una oda al tiempo femenino; todo ello en una atmósfera que desafía el peso de lo cotidiano y irradia el deseo de existir más allá de la obligación”.
Para Vanessa, la mirada curatorial es un constructo que atraviesa memorias, deseos y la urgencia de crear las condiciones propicias para el surgimiento de narrativas históricamente marginadas. Aquí, la programación de películas se convierte en un acto de desobediencia visual que rechaza la carga y reivindica el placer.
Una propuesta imprescindible para todo aquel que conciba el cine como un territorio vivo de disputa simbólica y política.
🔗 Lee el texto completo en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/704750670_17913389088390781_5809290323017999812_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=107&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=8FQXYtVvUnIQ7kNvwGCk-e6&_nc_oc=AdoUW8TnhZ7zdY-AgNXJN9aTRsDbfXH6ryuWFtQKdckG7wostT-xQzhVA6ouyn_c1HI&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=5juG-zqDGLoS7ufWn_6hHA&_nc_tpa=Q5bMBQHjLvqDRZjMaT3yw5caxeVu9oYh5Xz6CnKUOf-EU0R9kGe4ixkgsmYZFwkbuyAh2JGXF0eTXOgu&oh=00_AQCtTcZ-Csfz7VCoVvOWNgxuwL3tvftpIRu5xEajGl4kPQ&oe=6A49DB36)



![“Sou um corpo dissidente do (cis)tema de sexo-gênero (…) Habito fronteiras.”
Neste ensaio, @luignascimento parte de si para atravessar o cinema: da ausência de referências à urgência de se ver em cena, das representações estereotipadas à construção de um cinema sapatão brasileiro contemporâneo, feito por quem vive essas experiências.
Entre apagamentos, “in/visibilidades” e narrativas marcadas por violência, o texto revela também as brechas — filmes, gestos e alianças que transformam o cinema em espaço de existência, desejo e criação.
“Há um senso de urgência que acompanha esse desejo […] urgência de falar para nós, por nós, mas também de gritar ao mundo quem somos e quem podemos ser.”
Um mergulho sensível e político em um cinema que se constrói no afeto, na coletividade e na invenção de outras possibilidades de vida.
🔗 Leia na íntegra em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CinemaSapatão #CinemaQueer #CríticaFeminista #CinemaBrasileiro
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Entre las brechas sápatonas en el cine brasileño
Por Lui Nascimento
“Soy un cuerpo disidente del (cis)tema de sexo-género (…) Habito fronteras.”
En este ensayo, Lui Nascimento parte de su propia experiencia para atravesar el cine: desde la ausencia de referentes hasta la urgencia de verse en pantalla, de las representaciones estereotipadas a la construcción de un cine lesbiano contemporáneo en Brasil.
Entre invisibilidades y narrativas marcadas por la violencia, el texto también revela las grietas — películas, gestos y alianzas que transforman el cine en un espacio de deseo, existencia y creación.
“Hay una urgencia […] de hablar para nosotres, por nosotres, pero también de gritar al mundo quiénes somos y quiénes podemos ser.”
Un recorrido sensible y político por un cine que se construye desde el afecto, la colectividad y la invención de otros mundos posibles.
🔗 Lee el texto completo en sarayrosa.com
Imagens dos filmes “Peixe” (2019) de @ygcf_ysmn e “Minha história é outra” (2019) de Mariana Campos](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/693332325_17910936828390781_3741062162069005596_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=101&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=JvjVoozw-qMQ7kNvwHfOYvd&_nc_oc=AdqM4apqP8tSU30MV8j17ML-Uh6516bbZxc0MWjxtnt4Vt1UDO_bAtGtttSZAxU2OJs&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=5juG-zqDGLoS7ufWn_6hHA&_nc_tpa=Q5bMBQFQm5uBwDLiL5-3JPqTzgmSCySKVACO56fJ5-_kKjpL5QXBDANcyMYCvDHt_sk6-c9gTFSxLLHp&oh=00_AQAJJRhTdVWagn5-AMCUhmXMLu6isKvkNy4reEHluWhk3g&oe=6A49DC52)













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