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21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto - Filmar mulheres, esquecer o resto...

  • há 17 horas
  • 4 min de leitura

Por Nayara Aguiar| Críticas


MG- 21ª CINEOP - Foto Ane Souz/Universo Produção
MG- 21ª CINEOP - Foto Ane Souz/Universo Produção

No sábado, a Mostra de Cinema de Ouro Preto me trouxe uma imagem da qual não consigo escapar. Uma mulher loira, impecavelmente maquiada e vestida, empunha um chicote. Na frente dela, um homem negro; seu nome, de uma ironia cínica, é Zé Preto e ele é açoitado num celeiro enquanto um cavalo observa ao fundo. Após acoitá-lo até sangrar, ela transa com ele. A cena se deu como um ponto de inflexão e, enquanto lutava contra meu desconforto e vontade de evadir, não conseguia me conformar. O que se quer dizer com isso? 


A cena não se anuncia, ela aparece por um vão - como tudo em Garrett. A câmera à espreita, o enquadramento fechado, a psicologia antes do escândalo, é só depois que o impacto organiza seu próprio sentido. Há uma inversão aqui — a mulher no lugar do algoz — mas a hierarquia racial permanece intacta: o corpo que é açoitado continua sendo o negro, aqui um homem servil, instrumento de purgação dos desejos da patroa. Uma emancipação que se assenta sobre a servidão do outro. É uma cena sobre a qual nenhuma resposta satisfatória cabe numa só frase. Essa é a armadilha e o mérito do gesto curatorial que aproximou Mulher, Mulher (1979) de Polícia Feminina (1960), de Ozualdo Candeias — ambos exibidos em novas cópias digitalizadas, no recorte da Mostra Temática Preservação.


Filmes e tradições diferentes, a programação tensiona isso. Ambos arrancaram risos da plateia, mas por razões que não se equivalem. Candeias rodou Polícia Feminina em 1960, em preto e branco, dez minutos de documentário sobre mulheres dentro de uma instituição que as aceita com reservas — o humor é a textura do filme: o garoto respondão, a policial que quer apenas se sentir mulher, a geometria quase cômica dos enquadramentos organizando um mundo onde tudo tem lugar certo. Já Garrett, em 1979, opera em território radicalmente distinto: a pornochanchada da Boca do Lixo, onde filmar uma mulher que deseja já é, ao mesmo tempo, liberá-la e consumi-la. Em Mulher, Mulher a plateia também riu — chiste, esse, que vale examinar. A apresentação dos dois filmes juntos sob a rubrica do cinema paulista independente é, em si, uma afirmação sobre o que esse cinema foi capaz de conter.


Uma viúva, Alice, decide se exilar no campo. Seu marido está morto, mas não desapareceu: as gravações das sessões de terapia que ele conduzia percorrem o filme inteiro — um psiquiatra que abriu o casamento para outros corpos, sempre nos seus termos, sua presença fantasmagórica continua pautando o desejo da mulher que ficou. O que vem depois - Jumbo, seu amado cavalo; Marta, uma universitária - a sinopse enuncia sem cerimônia, e o filme também. Mulher, Mulher não esconde o que é: pornochanchada, Boca do Lixo, produto de um mercado que sabia exatamente o que vendia. Mas Garrett filma como se a câmera tivesse chegado cedo demais e visto coisa demais. O desejo que aparece na tela não obedece — não à moral, não à lógica do erotismo de consumo que o cerca. A viúva não é punida, nem é redimida. Mais que isso, ela imita  — três tiros num homem que, pateticamente,  implora por ela o filme inteiro, assim como uma das pacientes do marido narrou em gravação. Não é redenção, é outra coisa. Alice sai do mesmo jeito que entrou: inteira, opaca.


O cinema aprendeu a filmar certos corpos, o que fazer com eles é outra questão. A imagem do desejo feminino progride, mas não no vazio — avança sobre um corpo que o filme nunca trata como sujeito. Zé Preto aparece identificado pela cor antes de qualquer outra coisa, e é só pela cor que o filme o conhece — não tem interior, não tem saída. Está lá para ser usado, mesmo que por uma mulher; a câmera passa por ele como passa pelo celeiro, pelo cavalo, pelo chicote. A representação avançou; a ontologia ficou. Mulheres ganharam tela, desejo, opacidade - mas é suspensa a indagação sobre quem o cinema reconhece como ser legítimo, que existe para si mesmo. O corpo negro sequer entrou nessa disputa. 


Mulher, Mulher e Polícia Feminina fazem parte de um cinema que descobriu as mulheres como sujeito antes de saber o que fazer com essa descoberta — e que nunca chegou a descobrir o que fazer com o corpo negro. O olhar que enquadra o desejo feminino ainda pertence a outra ordem; o corpo negro nem isso — entra como dado, como cenário, como superfície onde o desejo alheio se resolve. Garrett filma tudo isso sem piscar — inclusive Alice transando de salto alto, o filme não contabiliza o custo, é só uma construção: o desejo filtrado pelo olhar que o fabricou. 


Se Polícia Feminina questiona a lógica de espaços historicamente masculinos, Mulher, Mulher pergunta quem tem o direito de definir o que uma mulher sente. Nenhum dos dois responde de forma limpa. "O ser humano é um buraco fundo" — o enunciado aparece no segundo como um sopro. Sartre passou páginas descrevendo a vulva como símbolo da ausência, do nada. Garrett não me soava particularmente existencialista, mas Sartre ele deve ter lido. "Pensar em homens mortos", diz uma das pacientes, "sempre foi emocionante e me faz feliz, me dá tesão" — e aí Sartre já não explica nada. Não é falta. É desejo que tem nome, tem objeto, tem gozo.


E o que ele disse com isso? No fim, o que fica é o sábado. A sala, o chicote, o cavalo ao fundo. Garrett morreu em 2003; Candeias em 2007. Os filmes continuam sendo exibidos, fazendo o que sempre fizeram. Qualquer desconforto provocado por uma "só" cena não chegou depois do filme, estava lá desde o primeiro fotograma esperando. Ver os filmes juntos é entender que o arquivo guarda bem demais certas coisas, só resta saber o que fazer com elas.



1 comentário


Thiago Victor
Thiago Victor
há 5 horas

Excelente texto bizarro pensar no quão recente esse tipo de filme era exibido no cinema com esse tipo de ideia.


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