21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto - Filmar mulheres, esquecer o resto...
Por Nayara Aguiar| Críticas

No sábado, a Mostra de Cinema de Ouro Preto me trouxe uma imagem da qual não consigo escapar. Uma mulher loira, impecavelmente maquiada e vestida, empunha um chicote. Na frente dela, um homem negro; seu nome, de uma ironia cínica, é Zé Preto e ele é açoitado num celeiro enquanto um cavalo observa ao fundo. Após acoitá-lo até sangrar, ela transa com ele. A cena se deu como um ponto de inflexão e, enquanto lutava contra meu desconforto e vontade de evadir, não conseguia me conformar. O que se quer dizer com isso?
A cena não se anuncia, ela aparece por um vão - como tudo em Garrett. A câmera à espreita, o enquadramento fechado, a psicologia antes do escândalo, é só depois que o impacto organiza seu próprio sentido. Há uma inversão aqui — a mulher no lugar do algoz — mas a hierarquia racial permanece intacta: o corpo que é açoitado continua sendo o negro, aqui um homem servil, instrumento de purgação dos desejos da patroa. Uma emancipação que se assenta sobre a servidão do outro. É uma cena sobre a qual nenhuma resposta satisfatória cabe numa só frase. Essa é a armadilha e o mérito do gesto curatorial que aproximou Mulher, Mulher (1979) de Polícia Feminina (1960), de Ozualdo Candeias — ambos exibidos em novas cópias digitalizadas, no recorte da Mostra Temática Preservação.
Filmes e tradições diferentes, a programação tensiona isso. Ambos arrancaram risos da plateia, mas por razões que não se equivalem. Candeias rodou Polícia Feminina em 1960, em preto e branco, dez minutos de documentário sobre mulheres dentro de uma instituição que as aceita com reservas — o humor é a textura do filme: o garoto respondão, a policial que quer apenas se sentir mulher, a geometria quase cômica dos enquadramentos organizando um mundo onde tudo tem lugar certo. Já Garrett, em 1979, opera em território radicalmente distinto: a pornochanchada da Boca do Lixo, onde filmar uma mulher que deseja já é, ao mesmo tempo, liberá-la e consumi-la. Em Mulher, Mulher a plateia também riu — chiste, esse, que vale examinar. A apresentação dos dois filmes juntos sob a rubrica do cinema paulista independente é, em si, uma afirmação sobre o que esse cinema foi capaz de conter.
Uma viúva, Alice, decide se exilar no campo. Seu marido está morto, mas não desapareceu: as gravações das sessões de terapia que ele conduzia percorrem o filme inteiro — um psiquiatra que abriu o casamento para outros corpos, sempre nos seus termos, sua presença fantasmagórica continua pautando o desejo da mulher que ficou. O que vem depois - Jumbo, seu amado cavalo; Marta, uma universitária - a sinopse enuncia sem cerimônia, e o filme também. Mulher, Mulher não esconde o que é: pornochanchada, Boca do Lixo, produto de um mercado que sabia exatamente o que vendia. Mas Garrett filma como se a câmera tivesse chegado cedo demais e visto coisa demais. O desejo que aparece na tela não obedece — não à moral, não à lógica do erotismo de consumo que o cerca. A viúva não é punida, nem é redimida. Mais que isso, ela imita — três tiros num homem que, pateticamente, implora por ela o filme inteiro, assim como uma das pacientes do marido narrou em gravação. Não é redenção, é outra coisa. Alice sai do mesmo jeito que entrou: inteira, opaca.
O cinema aprendeu a filmar certos corpos, o que fazer com eles é outra questão. A imagem do desejo feminino progride, mas não no vazio — avança sobre um corpo que o filme nunca trata como sujeito. Zé Preto aparece identificado pela cor antes de qualquer outra coisa, e é só pela cor que o filme o conhece — não tem interior, não tem saída. Está lá para ser usado, mesmo que por uma mulher; a câmera passa por ele como passa pelo celeiro, pelo cavalo, pelo chicote. A representação avançou; a ontologia ficou. Mulheres ganharam tela, desejo, opacidade - mas é suspensa a indagação sobre quem o cinema reconhece como ser legítimo, que existe para si mesmo. O corpo negro sequer entrou nessa disputa.
Mulher, Mulher e Polícia Feminina fazem parte de um cinema que descobriu as mulheres como sujeito antes de saber o que fazer com essa descoberta — e que nunca chegou a descobrir o que fazer com o corpo negro. O olhar que enquadra o desejo feminino ainda pertence a outra ordem; o corpo negro nem isso — entra como dado, como cenário, como superfície onde o desejo alheio se resolve. Garrett filma tudo isso sem piscar — inclusive Alice transando de salto alto, o filme não contabiliza o custo, é só uma construção: o desejo filtrado pelo olhar que o fabricou.
Se Polícia Feminina questiona a lógica de espaços historicamente masculinos, Mulher, Mulher pergunta quem tem o direito de definir o que uma mulher sente. Nenhum dos dois responde de forma limpa. "O ser humano é um buraco fundo" — o enunciado aparece no segundo como um sopro. Sartre passou páginas descrevendo a vulva como símbolo da ausência, do nada. Garrett não me soava particularmente existencialista, mas Sartre ele deve ter lido. "Pensar em homens mortos", diz uma das pacientes, "sempre foi emocionante e me faz feliz, me dá tesão" — e aí Sartre já não explica nada. Não é falta. É desejo que tem nome, tem objeto, tem gozo.
E o que ele disse com isso? No fim, o que fica é o sábado. A sala, o chicote, o cavalo ao fundo. Garrett morreu em 2003; Candeias em 2007. Os filmes continuam sendo exibidos, fazendo o que sempre fizeram. Qualquer desconforto provocado por uma "só" cena não chegou depois do filme, estava lá desde o primeiro fotograma esperando. Ver os filmes juntos é entender que o arquivo guarda bem demais certas coisas, só resta saber o que fazer com elas.



![A partir da exibição de "Virtuosas" na 20ª CineBH, em novo texto do site, Nayara Aguiar destrincha como a diretora Cíntia Domit Bittar articula as mecânicas do fundamentalismo religioso no Brasil contemporâneo.
Ao articular a lógica de mercado da fé e a vigilância moral exercida entre as próprias mulheres, o texto investiga as raízes dessa violência e a escolha da linguagem do terror:
"É no pathos específico das políticas afetivas deturpadas do fundamentalismo religioso que nasce um moralismo pungente e, desse moralismo, uma violência [...] fria na engrenagem que a arquiteta, quente nas mãos que as executam — um terror naturalista, afinal, onde mais se travaria um filme do gênero senão em Santa Catarina?”
🔗 Leia a crítica completa em sarayrosa.com
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Tras la proyección de "Virtuosas" en la 20ª Muestra CineBH, Nayara Aguiar diseca en el nuevo artículo en el site cómo la directora Cíntia Domit Bittar articula la mecánica del fundamentalismo religioso en el Brasil contemporáneo.
Al vincular la lógica mercantil de la fe con la vigilancia moral ejercida sobre las propias mujeres, el texto investiga las raíces de esta violencia y la elección del lenguaje del terror:
"Es en el pathos específico de las políticas afectivas deturpadas del fundamentalismo religioso donde nace un moralismo punzante y, de ese moralismo, una violencia que la película de Cíntia Domit Bittar transforma en propuesta: fría en el engranaje que la arquitecta, cálida en la mano que la ejecuta — un terror naturalista, al fin y al cabo, ¿dónde más se libraría una película del género sino en Santa Catarina?"
🔗 Lea la crítica completa en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/825270038_17934869712390781_1812860770498213797_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=106&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=S7xK9Ii4CUMQ7kNvwF3DpS0&_nc_oc=AdqsSa6SxqxJaYGEJTFPCV8Oi8ak7tSjImDLhF-ssxFCsMbIYZqlx5x3_dPnnN9ZkiA&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=q3c2ixp_Rl-ZF7qsb8RbNQ&_nc_tpa=Q5bMBQLBaEZ7fusnSsMReJJ78cGvooHwhO7qHD32434v66xX-nE1yngMuI-Pe1LHbBGv41QdFMcuf4lY&oh=00_AQPxH9ftMGSH7ZoNOF90E_NOunVVvrB2Sjk2FuHuzS8TwA&oe=6AC60ED6)


























![No novo ensaio publicado em nosso site, escrito sob o calor da exibição de Vámonos, Bárbara (1978) no Cineclube Ibero-americano Permanente, nesta quarta-feira, dia 17 de junho, Juliana Gusman destrincha como a cineasta espanhola Cecilia Bartolomé tensiona o texto matriz de Martin Scorsese (Alice Não Mora Mais Aqui) através de um exercício de distanciamento formal e discursivo.
Longe de se curvar às estéticas do norte global, o texto de Juliana reafirma a posição do filme na cartografia ibero-americana, costurando cumplicidades com o cinema de ruptura feito por mulheres aqui:
“Talvez Vamos, Bárbara se achegue mais, na verdade, de nosso próprio road movie feminista inaugural, Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina. [...] a Betinha de Cristina Pereira compartilha certas inadequações incendiárias com a Bárbara de Cristina Alvarez – para além da cabalística coincidencia no nome de suas intérpretes.”
Leia mais sobre a diretora e sua obra no ensaio de @juliana.gusman, escrito para o 3º encontro do Cineclube Ibero-americano Permanente, uma parceria entre Sara y Rosa, Cine Humberto Mauro do @palaciodasartes_ e Instituto Cervantes de BH.
🔗 Leia o ensaio completo em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CeciliaBartolome #CinemaFeminista #CríticaFeminista
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En un nuevo ensayo escrito a raíz de la proyección de Vámonos, Bárbara (1978) en el Cineclub Iberoamericano Permanente, Juliana Gusman analiza cómo la cineasta española Cecilia Bartolomé desafía el material de origen de "Alice Doesn’t Live Here Anymore" (de Martin Scorsese) mediante un ejercicio de distanciamiento formal y discursivo, y reafirma el lugar de la película en el panorama de cine iberoamericano, estableciendo vínculos con el cine pionero de mujeres aqui:
"Quizás Vamos, Bárbara acercase, de hecho, a nuestro propio roadmovie feminista inaugural "Mar de Rosas"(1977), de Ana Carolina. Felicidade, el personaje poco convencional de Norma Bengell, es más sombría que Ana y su destino, menos próspero, pero la Betinha de Cristina Pereira comparte ciertas deficiencias incendiarias con la Bárbara de Cristina Álvarez, más allá de la coincidencia cabalística en los nombres de sus intérpretes."
🔗 Lee el texto en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/726575221_17917835919390781_4399166472106971886_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=110&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=nyyl-Ut4qPUQ7kNvwEpyxEG&_nc_oc=AdrR7dFhiBGHt7G4sHA7Fnn07q-o2m4f1sGpcmYmOSgtW4O25lZiOnZUFI6OrQhbNHM&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=q3c2ixp_Rl-ZF7qsb8RbNQ&_nc_tpa=Q5bMBQLr4rgJOsLEf6yU4rD5MvEoC3_hilxx0UfgrCW3cvBvS6WMm28U99y2OodXnGr751OnvESQMgnx&oh=00_AQNn6qRD-yC_gTGdx3xwoPNNXys1122kjR0dCUbZr0qOhQ&oe=6AC606BF)



Excelente texto bizarro pensar no quão recente esse tipo de filme era exibido no cinema com esse tipo de ideia.