21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto - Sobreviver nas imagens
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Atualizado: há 6 horas
Por Nayara Aguiar| Críticas

A 21ª CineOP reservou ao público um encontro raro: duas das realizadoras mais importantes do cenário brasileiro, Helena Solberg e Lucia Murat, sentadas frente a frente, não para falar sobre seus filmes de forma protocolar, mas para vasculhar juntas o que ainda falta entender sobre as próprias trajetórias — e sobre um cinema brasileiro que, há décadas, carrega lacunas em relação às mulheres que o fizeram.
A conversa aconteceu no mesmo dia em que a Mostra exibiu Que Bom Te Ver Viva (1989), primeiro filme de Lucia Murat e um dos pioneiros do documentário brasileiro a encarar de frente a tortura durante a ditadura cívico-militar de 1964. Foi também a partir dele que surgiu a frase que talvez resuma o tom de toda a tarde: "não sou cineasta, sou sobrevivente". Antes de qualquer estética, antes de qualquer carreira, há uma urgência: a necessidade de dar forma a um horror e a uma raiva que não cabiam em outro lugar.
Lucia Murat trouxe ao público uma cena de seu próprio filme para ilustrar esse descompasso entre o país e sua memória: a personagem interpretada por Irene Ravache — alter-ego anônimo construído pela realizadora, que intercala depoimentos reais de sobreviventes com monólogos dirigidos à câmera — observa, num raro momento em que a ironia vence o horror, que o torturador continua sendo chamado de "doutor" duas décadas depois, enquanto a ela bastou que lhe tirassem o capuz para que sua condição de presa desaparecesse aos olhos da sociedade, embora a violência permanecesse inscrita em sua memória.
É a mesma personagem que questiona como seria hoje a cobertura da grande mídia sobre Josef Mengele. A provocação não é gratuita: ela atravessa o ponto central do filme, que não é a denúncia em si, mas o cotidiano que a violência tentou impedir. Diante da pergunta que o próprio documentário lança — quem vai querer ver um filme sobre tortura? — a resposta de Murat está no avesso da pergunta: mostrar essas mulheres além da narrativa da tortura, no limite do corpo e da dor, mas também na vida que sobrou.
Se Murat fala da sobrevivência ao horror, Helena Solberg, em Bananas Is My Business (1995), fala da sobrevivência à fama. O documentário sobre Carmen Miranda — pano de fundo da segunda parte do encontro — revela um desejo simples, repetido duas vezes ao longo do filme: "um bom prato de sopa e liberdade para cantar". Um pedido que poderia ter saído da boca de qualquer uma das mulheres do filme de Murat: o direito a uma vida ordinária, recusado a quem se torna símbolo antes de pessoa.
Solberg constrói essa ausência em planos detalhe — mãos, sorriso, olhos —, como quem procura no close-up o que se perdeu na estilização de um corpo transformado em superfície de projeção política. Favorita de Getúlio Vargas e embaixatriz informal da política da boa vizinhança entre Brasil e Estados Unidos, Carmen foi reduzida a uma imagem. A América Latina, a um "paraíso em technicolor". O filme termina em suspenso, com o relato de que ela teria morrido com um espelho na mão — como se buscasse, àquela altura, ver a si mesma.
No fim, a conversa entre as duas diretoras revelou menos um contraste do que um espelhamento: Solberg debruçada sobre as lacunas da historiografia do cinema brasileiro e a urgência de revisitar as mulheres deixadas à margem dela; Murat fazendo da própria trajetória uma demonstração viva dessa mesma urgência.
Entre o capuz e o espelho, os dois filmes fazem, por caminhos opostos, a mesma pergunta: quem ficou, depois? Tirar essas mulheres do lugar onde a história as deixou — vítima, num caso; ícone, no outro — e devolvê-las a si mesmas, filmar contra o esquecimento.







![No novo ensaio publicado em nosso site, escrito sob o calor da exibição de Vámonos, Bárbara (1978) no Cineclube Ibero-americano Permanente, nesta quarta-feira, dia 17 de junho, Juliana Gusman destrincha como a cineasta espanhola Cecilia Bartolomé tensiona o texto matriz de Martin Scorsese (Alice Não Mora Mais Aqui) através de um exercício de distanciamento formal e discursivo.
Longe de se curvar às estéticas do norte global, o texto de Juliana reafirma a posição do filme na cartografia ibero-americana, costurando cumplicidades com o cinema de ruptura feito por mulheres aqui:
“Talvez Vamos, Bárbara se achegue mais, na verdade, de nosso próprio road movie feminista inaugural, Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina. [...] a Betinha de Cristina Pereira compartilha certas inadequações incendiárias com a Bárbara de Cristina Alvarez – para além da cabalística coincidencia no nome de suas intérpretes.”
Leia mais sobre a diretora e sua obra no ensaio de @juliana.gusman, escrito para o terceiro encontro do Cineclube Ibero-americano Permanente, uma parceria entre Sara y Rosa, Cine Humberto Mauro do @palaciodasartes_ e Instituto Cervantes de BH.
🔗 O ensaio completo está disponível em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CeciliaBartolome #CinemaFeminista #CríticaFeminista](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/726575221_17917835919390781_4399166472106971886_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=110&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=XASc-Fwh0TQQ7kNvwFzwDqi&_nc_oc=Adqh9hoJIl1_o-KzKUV66G4HHv_ijEhg_Q0fj_FQMhLWB2L62UTqAl4bL5Qwwv2gUlw&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=imi7FY9ap41dyjgN_Va-yQ&_nc_tpa=Q5bMBQH9XWEM9OHFIo-o3kAkdvJdG_uAQJqSV7FEtpTkCu4FHuYPFhw5S8LscLlGgPUn7LP4EO7QCi2M&oh=00_AQAWfCJHvFDR9MD06PZpvk964QFMSZaAwqv3fPUMhEV-ow&oe=6A49E17F)








![“Curar não é apenas escolher filmes; [...] é, antes de tudo, um exercício de escuta ao que pede passagem.”
Neste texto, Vanessa Santos defende a curadoria enquanto um campo relacional. Partindo da obra "Le Grand Calao", ela nos convida a romper com a lógica da exaustão e a enxergar o descanso como um gesto radical de resistência.
“Entre afetos, silêncios e partilhas, vai sendo tecida uma ode ao tempo feminino, numa atmosfera que desafia o peso do cotidiano e que irradia o desejo de existir fora das obrigações.”
Para Vanessa, o olhar curatorial é uma construção que atravessa memórias, desejos e a urgência de criar condições de aparecimento para narrativas historicamente marginalizadas. Aqui, programar filmes torna-se um ato de desobediência visual que recusa o fardo e reivindica o prazer.
Uma proposta essencial para quem pensa o cinema como um território vivo de disputas simbólicas e políticas.
🔗 Leia o texto completo em sarayrosa.com
#SarayRosa #VanessaSantos #Curadoria #CinemaNegro #PoliticasDoOlhar #LeGrandCalao
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“Curar no es meramente elegir películas; [...] es, sobretodo, un ejercicio de escucha de aquello que busca abrirse paso.”
En este texto, Vanessa Santos defiende por la curaduría como un campo relacional. Tomando como referencia la obra "Le Grand Calao", ella nos invita a romper con la lógica del agotamiento y a concebir el descanso como un gesto radical de resistencia.
“Entre afectos, silencios y actos de compartir, se teje una oda al tiempo femenino; todo ello en una atmósfera que desafía el peso de lo cotidiano y irradia el deseo de existir más allá de la obligación”.
Para Vanessa, la mirada curatorial es un constructo que atraviesa memorias, deseos y la urgencia de crear las condiciones propicias para el surgimiento de narrativas históricamente marginadas. Aquí, la programación de películas se convierte en un acto de desobediencia visual que rechaza la carga y reivindica el placer.
Una propuesta imprescindible para todo aquel que conciba el cine como un territorio vivo de disputa simbólica y política.
🔗 Lee el texto completo en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/704750670_17913389088390781_5809290323017999812_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=107&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=8FQXYtVvUnIQ7kNvwHt5qRN&_nc_oc=AdrRNhju0FUnt3NYXcvgvG5bA7MeaDz4vuyOqpvhLlFxxBOGWeC6Eo7RXhEvkGe5wVo&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=imi7FY9ap41dyjgN_Va-yQ&_nc_tpa=Q5bMBQFv2PVloejCcQilXyZnCo-s0Prc8FELWC_kX3zeaqdddjq_TDp0HiP1wZhvPwnyu_xg8UMgGf6F&oh=00_AQCcBsiyC9GCeFq85JIk7zUgd4UQXG1UysC0TWAN6KPRpQ&oe=6A49DB36)



![“Sou um corpo dissidente do (cis)tema de sexo-gênero (…) Habito fronteiras.”
Neste ensaio, @luignascimento parte de si para atravessar o cinema: da ausência de referências à urgência de se ver em cena, das representações estereotipadas à construção de um cinema sapatão brasileiro contemporâneo, feito por quem vive essas experiências.
Entre apagamentos, “in/visibilidades” e narrativas marcadas por violência, o texto revela também as brechas — filmes, gestos e alianças que transformam o cinema em espaço de existência, desejo e criação.
“Há um senso de urgência que acompanha esse desejo […] urgência de falar para nós, por nós, mas também de gritar ao mundo quem somos e quem podemos ser.”
Um mergulho sensível e político em um cinema que se constrói no afeto, na coletividade e na invenção de outras possibilidades de vida.
🔗 Leia na íntegra em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CinemaSapatão #CinemaQueer #CríticaFeminista #CinemaBrasileiro
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Entre las brechas sápatonas en el cine brasileño
Por Lui Nascimento
“Soy un cuerpo disidente del (cis)tema de sexo-género (…) Habito fronteras.”
En este ensayo, Lui Nascimento parte de su propia experiencia para atravesar el cine: desde la ausencia de referentes hasta la urgencia de verse en pantalla, de las representaciones estereotipadas a la construcción de un cine lesbiano contemporáneo en Brasil.
Entre invisibilidades y narrativas marcadas por la violencia, el texto también revela las grietas — películas, gestos y alianzas que transforman el cine en un espacio de deseo, existencia y creación.
“Hay una urgencia […] de hablar para nosotres, por nosotres, pero también de gritar al mundo quiénes somos y quiénes podemos ser.”
Un recorrido sensible y político por un cine que se construye desde el afecto, la colectividad y la invención de otros mundos posibles.
🔗 Lee el texto completo en sarayrosa.com
Imagens dos filmes “Peixe” (2019) de @ygcf_ysmn e “Minha história é outra” (2019) de Mariana Campos](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/693332325_17910936828390781_3741062162069005596_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=101&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=JvjVoozw-qMQ7kNvwHFtKnO&_nc_oc=AdpXu9sFiN4rgRCIa2jfpW1rhCPL_ZOgysEBgp6piwnRhtjNfCyaKEwhO1DokyfgRJk&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=imi7FY9ap41dyjgN_Va-yQ&_nc_tpa=Q5bMBQFGgii37d56CwzabsTwbiS_ILOKh65nT-9seBdrG2YMgXv0owWguY95wioxA0f0vMpFmrdo-FJB&oh=00_AQB-KJ3a2GUUsnvpnKX5RD11SGJuPr9NDt0M_kKVIhXzwg&oe=6A49DC52)













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