21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto - Sobreviver nas imagens
Atualizado: 30 de jun.
Por Nayara Aguiar| Críticas

A 21ª CineOP reservou ao público um encontro raro: duas das realizadoras mais importantes do cenário brasileiro, Helena Solberg e Lucia Murat, sentadas frente a frente, não para falar sobre seus filmes de forma protocolar, mas para vasculhar juntas o que ainda falta entender sobre as próprias trajetórias — e sobre um cinema brasileiro que, há décadas, carrega lacunas em relação às mulheres que o fizeram.
A conversa aconteceu no mesmo dia em que a Mostra exibiu Que Bom Te Ver Viva (1989), primeiro filme de Lucia Murat e um dos pioneiros do documentário brasileiro a encarar de frente a tortura durante a ditadura cívico-militar de 1964. Foi também a partir dele que surgiu a frase que talvez resuma o tom de toda a tarde: "não sou cineasta, sou sobrevivente". Antes de qualquer estética, antes de qualquer carreira, há uma urgência: a necessidade de dar forma a um horror e a uma raiva que não cabiam em outro lugar.
Lucia Murat trouxe ao público uma cena de seu próprio filme para ilustrar esse descompasso entre o país e sua memória: a personagem interpretada por Irene Ravache — alter-ego anônimo construído pela realizadora, que intercala depoimentos reais de sobreviventes com monólogos dirigidos à câmera — observa, num raro momento em que a ironia vence o horror, que o torturador continua sendo chamado de "doutor" duas décadas depois, enquanto a ela bastou que lhe tirassem o capuz para que sua condição de presa desaparecesse aos olhos da sociedade, embora a violência permanecesse inscrita em sua memória.
É a mesma personagem que questiona como seria hoje a cobertura da grande mídia sobre Josef Mengele. A provocação não é gratuita: ela atravessa o ponto central do filme, que não é a denúncia em si, mas o cotidiano que a violência tentou impedir. Diante da pergunta que o próprio documentário lança — quem vai querer ver um filme sobre tortura? — a resposta de Murat está no avesso da pergunta: mostrar essas mulheres além da narrativa da tortura, no limite do corpo e da dor, mas também na vida que sobrou.
Se Murat fala da sobrevivência ao horror, Helena Solberg, em Bananas Is My Business (1995), fala da sobrevivência à fama. O documentário sobre Carmen Miranda — pano de fundo da segunda parte do encontro — revela um desejo simples, repetido duas vezes ao longo do filme: "um bom prato de sopa e liberdade para cantar". Um pedido que poderia ter saído da boca de qualquer uma das mulheres do filme de Murat: o direito a uma vida ordinária, recusado a quem se torna símbolo antes de pessoa.
Solberg constrói essa ausência em planos detalhe — mãos, sorriso, olhos —, como quem procura no close-up o que se perdeu na estilização de um corpo transformado em superfície de projeção política. Favorita de Getúlio Vargas e embaixatriz informal da política da boa vizinhança entre Brasil e Estados Unidos, Carmen foi reduzida a uma imagem. A América Latina, a um "paraíso em technicolor". O filme termina em suspenso, com o relato de que ela teria morrido com um espelho na mão — como se buscasse, àquela altura, ver a si mesma.
No fim, a conversa entre as duas diretoras revelou menos um contraste do que um espelhamento: Solberg debruçada sobre as lacunas da historiografia do cinema brasileiro e a urgência de revisitar as mulheres deixadas à margem dela; Murat fazendo da própria trajetória uma demonstração viva dessa mesma urgência.
Entre o capuz e o espelho, os dois filmes fazem, por caminhos opostos, a mesma pergunta: quem ficou, depois? Tirar essas mulheres do lugar onde a história as deixou — vítima, num caso; ícone, no outro — e devolvê-las a si mesmas, filmar contra o esquecimento.



![A partir da exibição de "Virtuosas" na 20ª CineBH, em novo texto do site, Nayara Aguiar destrincha como a diretora Cíntia Domit Bittar articula as mecânicas do fundamentalismo religioso no Brasil contemporâneo.
Ao articular a lógica de mercado da fé e a vigilância moral exercida entre as próprias mulheres, o texto investiga as raízes dessa violência e a escolha da linguagem do terror:
"É no pathos específico das políticas afetivas deturpadas do fundamentalismo religioso que nasce um moralismo pungente e, desse moralismo, uma violência [...] fria na engrenagem que a arquiteta, quente nas mãos que as executam — um terror naturalista, afinal, onde mais se travaria um filme do gênero senão em Santa Catarina?”
🔗 Leia a crítica completa em sarayrosa.com
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Tras la proyección de "Virtuosas" en la 20ª Muestra CineBH, Nayara Aguiar diseca en el nuevo artículo en el site cómo la directora Cíntia Domit Bittar articula la mecánica del fundamentalismo religioso en el Brasil contemporáneo.
Al vincular la lógica mercantil de la fe con la vigilancia moral ejercida sobre las propias mujeres, el texto investiga las raíces de esta violencia y la elección del lenguaje del terror:
"Es en el pathos específico de las políticas afectivas deturpadas del fundamentalismo religioso donde nace un moralismo punzante y, de ese moralismo, una violencia que la película de Cíntia Domit Bittar transforma en propuesta: fría en el engranaje que la arquitecta, cálida en la mano que la ejecuta — un terror naturalista, al fin y al cabo, ¿dónde más se libraría una película del género sino en Santa Catarina?"
🔗 Lea la crítica completa en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/825270038_17934869712390781_1812860770498213797_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=106&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=S7xK9Ii4CUMQ7kNvwG9ot9c&_nc_oc=AdowH2CwfszwbVP0dwrQArnyBaRu7GgwIneaM_kHbUguVClh6b4eNMlg9Pceygeb3MY&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=l4Wt93iO0JCwZbQ_yhBcpQ&_nc_tpa=Q5bMBQInf6b4SFwQ7sk28ZjwywldbnRvfhMac90y9JyUUzn-D3HcR-iZBjhrjgM6kPLeLUhXNia1CYPs&oh=00_AQMLyNX_w_mR8I0VzbvZx1iPE1Th1bZS0xX1fEfWlo-X6A&oe=6AC60ED6)


























![No novo ensaio publicado em nosso site, escrito sob o calor da exibição de Vámonos, Bárbara (1978) no Cineclube Ibero-americano Permanente, nesta quarta-feira, dia 17 de junho, Juliana Gusman destrincha como a cineasta espanhola Cecilia Bartolomé tensiona o texto matriz de Martin Scorsese (Alice Não Mora Mais Aqui) através de um exercício de distanciamento formal e discursivo.
Longe de se curvar às estéticas do norte global, o texto de Juliana reafirma a posição do filme na cartografia ibero-americana, costurando cumplicidades com o cinema de ruptura feito por mulheres aqui:
“Talvez Vamos, Bárbara se achegue mais, na verdade, de nosso próprio road movie feminista inaugural, Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina. [...] a Betinha de Cristina Pereira compartilha certas inadequações incendiárias com a Bárbara de Cristina Alvarez – para além da cabalística coincidencia no nome de suas intérpretes.”
Leia mais sobre a diretora e sua obra no ensaio de @juliana.gusman, escrito para o 3º encontro do Cineclube Ibero-americano Permanente, uma parceria entre Sara y Rosa, Cine Humberto Mauro do @palaciodasartes_ e Instituto Cervantes de BH.
🔗 Leia o ensaio completo em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CeciliaBartolome #CinemaFeminista #CríticaFeminista
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En un nuevo ensayo escrito a raíz de la proyección de Vámonos, Bárbara (1978) en el Cineclub Iberoamericano Permanente, Juliana Gusman analiza cómo la cineasta española Cecilia Bartolomé desafía el material de origen de "Alice Doesn’t Live Here Anymore" (de Martin Scorsese) mediante un ejercicio de distanciamiento formal y discursivo, y reafirma el lugar de la película en el panorama de cine iberoamericano, estableciendo vínculos con el cine pionero de mujeres aqui:
"Quizás Vamos, Bárbara acercase, de hecho, a nuestro propio roadmovie feminista inaugural "Mar de Rosas"(1977), de Ana Carolina. Felicidade, el personaje poco convencional de Norma Bengell, es más sombría que Ana y su destino, menos próspero, pero la Betinha de Cristina Pereira comparte ciertas deficiencias incendiarias con la Bárbara de Cristina Álvarez, más allá de la coincidencia cabalística en los nombres de sus intérpretes."
🔗 Lee el texto en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/726575221_17917835919390781_4399166472106971886_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=110&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=nyyl-Ut4qPUQ7kNvwFfIfcL&_nc_oc=AdoDW7U2KBsj_jmDmonKUsF5CUBkXhjIMYyAVV33_phSSXrqcAWNnWIfqGcEzguqu9o&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=l4Wt93iO0JCwZbQ_yhBcpQ&_nc_tpa=Q5bMBQJJHAklMDc21p79n3R7TNEWMnxwBslbcp9jxr04MvJjZcRDCyx_59RDt2cavhhP8gxzGtAGaIen&oh=00_AQN_C6EoNGt79IywbiK59xwxEp-jUMfjCfz2SoSQ5or0Gg&oe=6AC606BF)



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