top of page

Ministério da Cultura e o Governo de Minas Gerais apresentam:

Título da publicação

Assine nossa newsletter!

Siga nosso instagram

21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto - Sobreviver nas imagens

  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 6 horas


Por Nayara Aguiar| Críticas


MG - 21ª CINEOP - Foto Leo Lara/Universo Produção
MG - 21ª CINEOP - Foto Leo Lara/Universo Produção

A 21ª CineOP reservou ao público um encontro raro: duas das realizadoras mais importantes do cenário brasileiro, Helena Solberg e Lucia Murat, sentadas frente a frente, não para falar sobre seus filmes de forma protocolar, mas para vasculhar juntas o que ainda falta entender sobre as próprias trajetórias — e sobre um cinema brasileiro que, há décadas, carrega lacunas em relação às mulheres que o fizeram.


A conversa aconteceu no mesmo dia em que a Mostra exibiu Que Bom Te Ver Viva (1989), primeiro filme de Lucia Murat e um dos pioneiros do documentário brasileiro a encarar de frente a tortura durante a ditadura cívico-militar de 1964.  Foi também a partir dele que surgiu a frase que talvez resuma o tom de toda a tarde: "não sou cineasta, sou sobrevivente". Antes de qualquer estética, antes de qualquer carreira, há uma urgência: a necessidade de dar forma a um horror e a uma raiva que não cabiam em outro lugar.


Lucia Murat trouxe ao público uma cena de seu próprio filme para ilustrar esse descompasso entre o país e sua memória: a personagem interpretada por Irene Ravache — alter-ego anônimo construído pela realizadora, que intercala depoimentos reais de sobreviventes com monólogos dirigidos à câmera — observa, num raro momento em que a ironia vence o horror, que o torturador continua sendo chamado de "doutor" duas décadas depois, enquanto a ela bastou que lhe tirassem o capuz para que sua condição de presa desaparecesse aos olhos da sociedade, embora a violência permanecesse inscrita em sua memória.


É a mesma personagem que questiona como seria hoje a cobertura da grande mídia sobre Josef Mengele. A provocação não é gratuita: ela atravessa o ponto central do filme, que não é a denúncia em si, mas o cotidiano que a violência tentou impedir. Diante da pergunta que o próprio documentário lança — quem vai querer ver um filme sobre tortura? — a resposta de Murat está no avesso da pergunta: mostrar essas mulheres além da narrativa da tortura, no limite do corpo e da dor, mas também na vida que sobrou.


Se Murat fala da sobrevivência ao horror, Helena Solberg, em Bananas Is My Business (1995), fala da sobrevivência à fama. O documentário sobre Carmen Miranda — pano de fundo da segunda parte do encontro — revela um desejo simples, repetido duas vezes ao longo do filme: "um bom prato de sopa e liberdade para cantar". Um pedido que poderia ter saído da boca de qualquer uma das mulheres do filme de Murat: o direito a uma vida ordinária, recusado a quem se torna símbolo antes de pessoa.


Solberg constrói essa ausência em planos detalhe — mãos, sorriso, olhos —, como quem procura no close-up o que se perdeu na estilização de um corpo transformado em superfície de projeção política. Favorita de Getúlio Vargas e embaixatriz informal da política da boa vizinhança entre Brasil e Estados Unidos, Carmen foi reduzida a uma imagem. A América Latina, a um "paraíso em technicolor". O filme termina em suspenso, com o relato de que ela teria morrido com um espelho na mão — como se buscasse, àquela altura, ver a si mesma.


No fim, a conversa entre as duas diretoras revelou menos um contraste do que um espelhamento: Solberg debruçada sobre as lacunas da historiografia do cinema brasileiro e a urgência de revisitar as mulheres deixadas à margem dela; Murat fazendo da própria trajetória uma demonstração viva dessa mesma urgência.


Entre o capuz e o espelho, os dois filmes fazem, por caminhos opostos, a mesma pergunta: quem ficou, depois? Tirar essas mulheres do lugar onde a história as deixou — vítima, num caso; ícone, no outro — e devolvê-las a si mesmas, filmar contra o esquecimento.

Comentários


bottom of page