Tiradentes: um prédio vazio com nome de mulher
- 29 de jan. de 2025
- 2 min de leitura

Juliana Gusman | Críticas
Texto originalmente publicado no site da Cine NINJA
“Tem uma coisa de fantástico e lindo aqui”, diz a personagem de Gilda Nomacce no novo filme de Rodrigo Aragão, um dos principais nomes do horror nacional contemporâneo. Prédio Vazio é um gore carnavalesco, uma explosão de purpurina e sangue sem tempo a perder. De fato, o prédio agourento que leva nome de mulher - Madalena - é feio e bonito ao mesmo tempo. É matéria de cinema, como o Overlook Hotel, de O Iluminado (Stanley Kubrick, 1980) ou a academia de dança de Suspiria (Dario Argento, 1977) - aliás, citações e evocações visuais sem qualquer tipo de fetiche ou pedantismo. Têm a pertinência do amor. As cores primárias em carne viva saturam a tensão desse lugar macabro na praia do Morro em Guarapari, finamente construído pela direção de arte encabeçada por Priscilla Hupaya. Um assombro, em todos os sentidos.
O cinema de horror é uma questão de gênero e de gênero. No primeiro sentido, diz respeito a convenções de linguagem que podem ser confirmadas e subvertidas. Se o longa de Aragão consegue elaborar figuras tão perturbadoras e jump scares tão eletrizantes quanto os mais convencionais (e ótimos) filmes da indústria hollywoodiana, Prédio Vazio tem lá suas doses antropofágicas de um humor bem brasileiro. Quebra expectativas e eleva a temperatura de cena ao persistentemente dobrar a aposta do gozo que flui, improvável, do riso-repulsa.
No segundo sentido, diz respeito às convenções de representação de corpos generificados. Mulheres, como disse pioneiramente Barbara Creed em sua obra matricial de 1993, The Monstrous-Feminine, ocuparam, com frequência e às vezes impotência, o ambíguo lugar da monstruosidade no cinema. Prédio Vazio resgata as tradições das mães más, movidas por um impulso aniquilador em relação às suas filhas, seus duplos, encarnações de uma ameaça irrevogável dentro de uma ordem masculina de mundo. Piper Laurie, em Carrie (Brian de Palma, 1976), viveu esse tipo como quase ninguém. Seu fantasma está aqui.
A mulher monstruosa é uma armadilha: descola o feminino da passividade incômoda da vitimização, ao mesmo tempo que pode provocar, apesar da negatividade do abjeto, uma contra-leitura politicamente instigante. Para o bem e para o mal, ela age e reage em suas pulsões e contradições. O monstro sempre tem um pouco de humano, afinal de contas.
Neste filme, essa figura paradoxal é forjada por uma atuação igualmente dúbia de Nomacce. Sóbria e colérica, contida e alucinada, a atriz entrega um monstro, “a única alma viva” entre algumas várias mortas que habitam Madalena, que já nasce clássico. A complexidade da maternidade errática dessa personagem é acentuada pelo outro duplo de mãe e filha (Rejane Arruda e Lorena Corrêa), suas vítimas nada passivas. Prédio Vazio evita o equívoco de aplainar as rugas entre elas. O humano também sempre tem um pouco de monstro.
Aragão acerta o tom das críticas sociais, que dão outro sabor tropical da obra: os desejos fora da norma, relações abusivas, especulações imobiliárias e o direito à cidade são questões que aparecem, pontuais e precisas, com a sutileza que, felizmente, falta ao uso desmedido do grotesco. Um filme de bons exageros.




![“Sou um corpo dissidente do (cis)tema de sexo-gênero (…) Habito fronteiras.”
Neste ensaio, @luignascimento parte de si para atravessar o cinema: da ausência de referências à urgência de se ver em cena, das representações estereotipadas à construção de um cinema sapatão brasileiro contemporâneo, feito por quem vive essas experiências.
Entre apagamentos, “in/visibilidades” e narrativas marcadas por violência, o texto revela também as brechas — filmes, gestos e alianças que transformam o cinema em espaço de existência, desejo e criação.
“Há um senso de urgência que acompanha esse desejo […] urgência de falar para nós, por nós, mas também de gritar ao mundo quem somos e quem podemos ser.”
Um mergulho sensível e político em um cinema que se constrói no afeto, na coletividade e na invenção de outras possibilidades de vida.
🔗 Leia na íntegra em sarayrosa.com
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🇪🇸
Entre las brechas sápatonas en el cine brasileño
Por Lui Nascimento
“Soy un cuerpo disidente del (cis)tema de sexo-género (…) Habito fronteras.”
En este ensayo, Lui Nascimento parte de su propia experiencia para atravesar el cine: desde la ausencia de referentes hasta la urgencia de verse en pantalla, de las representaciones estereotipadas a la construcción de un cine lesbiano contemporáneo en Brasil.
Entre invisibilidades y narrativas marcadas por la violencia, el texto también revela las grietas — películas, gestos y alianzas que transforman el cine en un espacio de deseo, existencia y creación.
“Hay una urgencia […] de hablar para nosotres, por nosotres, pero también de gritar al mundo quiénes somos y quiénes podemos ser.”
Un recorrido sensible y político por un cine que se construye desde el afecto, la colectividad y la invención de otros mundos posibles.
🔗 Lee el texto completo en sarayrosa.com
Imagens dos filmes “Peixe” (2019) de @ygcf_ysmn e “Minha história é outra” (2019) de Mariana Campos](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/693332325_17910936828390781_3741062162069005596_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=101&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=sdeqkcbAZ78Q7kNvwELNm5N&_nc_oc=AdoOkAoZH0Sfu3U6bkTwGF0TqlvfeSS2Kghl6WuAncCu9ozjifb7R4k9esfJgVB1evc&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=jUZoE3v18KCuaZCcSPDf2Q&_nc_tpa=Q5bMBQGGMaKfgOfXOFECxSoPkI_BTbhIV_mFN1F8JqCtDei8YQVEjRQ2asZCdhGviCENgDVPtCdJStq2&oh=00_Af5o0PTCurtrTlicAjPXAwFJEWh5mgpkn5ARcgxO7wIsZg&oe=6A119C52)





























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