Rosae Rosa, Solo e o milagre da história
- 21 de jan. de 2025
- 4 min de leitura

Por Juliana Gusman | Críticas
A entrevista (1966), de Helena Solberg, é frequentemente celebrado pelo seu pioneirismo. Marco inicial de um documentário feminista que insurge com rebeldia e sem alardes nos anos 1960, este curta-metragem trouxe à baila temas até então escamoteados pelo cinema moderno nacional. Nele, a diretora reúne uma série de depoimentos de jovens de 19 a 27 anos que ponderam sobre suas experiências cotidianas, atravessadas por normas de gênero – com notáveis dissonâncias. Nesse sentido, a obra apresenta uma insolucionável ambiguidade ao friccionar falas que comprovam tanto a alienação das mulheres da classe média brasileira, quanto suas justificadas insatisfações com os papéis que lhes eram atribuídos. Entre a crítica e a complacência, A entrevista não crava condenações à feminilidade burguesa. O seu legatário e igualmente pioneiro Rosae Rosa (1968), porém, não lhes garante a mesma cortesia.
Assim como Helena Solberg, Rosa Maria Antuña, uma das primeiras mulheres a dirigir um filme em Minas Gerais de que se tem notícias, conseguiu acessar uma certa cena cultural por causa de suas condições econômicas. Numa trajetória pouco comum para alguém nascida no final da década de 1930, ingressou na Escola Superior de Cinema da Universidade Católica após formar-se em Biblioteconomia. À primeira vista, poderíamos supor que sua investida inaugural na direção cinematográfica – batizada com o seu próprio nome, grafado flexionadamente em latim e português – apresentaria uma narrativa subjetivada, aliançada às questões de um feminino branco e abastado que começava a se revoltar contra domesticidades e docilidades impostas.
Essa face da mulheridade, de fato, está em cena. A personagem de Zulma Drumond cultiva flores no quintal de uma casa vistosa, de muro baixo. Acolhe sua roseira com uma devoção ao mesmo tempo banal e bucólica, distraída com o lirismo – acentuado pela trilha musical sobreposta, o único elemento sonoro – de sua vida ordinária. É interrompida, contudo, pelo “mendigo” interpretado por Sebastião Schmidt, cujo périplo é retratado pela diretora em planos alternados, dialéticos, desde o início do curta. Sua busca obstinada por comida contrasta com a placidez inabalável da garota que, diante de um pedido de ajuda, diz não ter nada a oferecer. O mendigo vira-se para ir embora, ao que a mulher hesita. Chama-o de volta. Arranca uma de suas rosas e lhe concede esta pequena e consoladora gentileza.
Nesse momento, a música para. A câmera se aproxima do mendigo, estático, com a flor em mãos. Se a delicadeza presente até nas imagens mais duras sugere que a síntese conclusiva do filme seria um ingênuo aceno à poesia de uma conciliação, é nela que se sustenta o giro subversivo de Antuña: olhando diretamente para a câmera – e, consequentemente, para espectadoras e espectadores esclarecidos e sensibilizáveis por aparentes benevolências – o mendigo come a rosa. Em sua obra, a diretora devora as metáforas de si mesma para denunciar, com coragem e singeleza, as urgências de um povo que tem fome e pouco tempo a perder.
Não que Antuña abandone por completo as questões que lhe concernem mais diretamente. Seu filme seguinte, Solo (1969), é um pequeno ensaio visual sobre o desejo – um tema maior para os feminismos que reconhecem que o corpo que vive o pleno prazer tem, como diria a historiadora Silvia Federici, uma política imanente: “a capacidade de transformar a si mesmo, aos outros, e de mudar o mundo”. Nele – que foi exibido uma única vez no Festival JB-Mesbla no ano de sua produção – uma beata – interpretada por Irene, prostituta de São João Del Rey – faz suas rezas antes de dormir. Na sua cabeceira há, além de remédios, a figura de um Santo Antônio – que aparece, como em Rosae Rosa, em planos dialéticos intervalados com aqueles que mostram a tensão e o tesão crescente da protagonista.
A beata começa a se contorcer na cama, ritmada pela música extradiegética de Abgar Tirado – pianista e compositor mineiro ligado à Igreja Católica, em mais uma camada de elaboração e delimitação de um microespaço profundamente religioso. À medida que a mulher vai ampliando e alargando o alcance do seu toque, a pequena estatueta do santo cresce como uma sombra censora e vigilante.
Contudo, mais uma vez apostando na imprevisibilidade forjada em um inteligente exercício de montagem, Antuña radicaliza sua força sintética: cedendo ao impulso da liberdade sexual, a beata, incontida e atirada ao chão, alcança o santo. Transubstanciado em objeto fálico, ela o usa como extensão dos dedos. A câmera, então, se fecha em seu rosto e em seu gozo, que flui, contra as nossas expectativas, sem culpa.
O peso dessa transgressão, porém, recaiu sobre a diretora após a circulação do curta. Reduzido a três palavras – iconoclasta, erótico e cômico – pelos comentaristas masculinos à época, Solo se tornou, para Antuña, um filme-assombração. Por essa e outras contingências do destino, ela se afastou da realização cinematográfica, recusando, até hoje, a alcunha de artista.
Contra a tentação imaginativa dos pretéritos imperfeitos, que poderia nos levar a projetar a grandeza de uma filmografia inexistente, devolvo à Rosa, quase cinquenta anos depois, outras três palavras que louvam a potência de sua filmografia concreta e possível, em uma tímida tentativa de esconjurar fantasmas. Solo, o ponto final ou a reticências dessa anticineasta, é vanguardista, pelo seu frescor, rigor e amor às imagens; ousado, por assuntar o assombro dos homens; e erótico, sim, fiquemos com o termo. Mas nos lembremos, com Audre Lorde, de seu sentido expandido, como fonte de poder e resistência. Em seus cinco minutos e meio de contribuição ao cinema, Rosa Maria Antuña conseguiu fazer o impensável: o milagre da história.
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LORDE. Audre. Usos do erótico: o erótico como poder. In: Irmã Outsider. Belo Horizonte: Autêntica, 2019. Imagem: Still Frame do filme "Rosae Rosa".









![No novo ensaio publicado em nosso site, escrito sob o calor da exibição de Vámonos, Bárbara (1978) no Cineclube Ibero-americano Permanente, nesta quarta-feira, dia 17 de junho, Juliana Gusman destrincha como a cineasta espanhola Cecilia Bartolomé tensiona o texto matriz de Martin Scorsese (Alice Não Mora Mais Aqui) através de um exercício de distanciamento formal e discursivo.
Longe de se curvar às estéticas do norte global, o texto de Juliana reafirma a posição do filme na cartografia ibero-americana, costurando cumplicidades com o cinema de ruptura feito por mulheres aqui:
“Talvez Vamos, Bárbara se achegue mais, na verdade, de nosso próprio road movie feminista inaugural, Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina. [...] a Betinha de Cristina Pereira compartilha certas inadequações incendiárias com a Bárbara de Cristina Alvarez – para além da cabalística coincidencia no nome de suas intérpretes.”
Leia mais sobre a diretora e sua obra no ensaio de @juliana.gusman, escrito para o 3º encontro do Cineclube Ibero-americano Permanente, uma parceria entre Sara y Rosa, Cine Humberto Mauro do @palaciodasartes_ e Instituto Cervantes de BH.
🔗 Leia o ensaio completo em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CeciliaBartolome #CinemaFeminista #CríticaFeminista
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En un nuevo ensayo escrito a raíz de la proyección de Vámonos, Bárbara (1978) en el Cineclub Iberoamericano Permanente, Juliana Gusman analiza cómo la cineasta española Cecilia Bartolomé desafía el material de origen de "Alice Doesn’t Live Here Anymore" (de Martin Scorsese) mediante un ejercicio de distanciamiento formal y discursivo, y reafirma el lugar de la película en el panorama de cine iberoamericano, estableciendo vínculos con el cine pionero de mujeres aqui:
"Quizás Vamos, Bárbara acercase, de hecho, a nuestro propio roadmovie feminista inaugural "Mar de Rosas"(1977), de Ana Carolina. Felicidade, el personaje poco convencional de Norma Bengell, es más sombría que Ana y su destino, menos próspero, pero la Betinha de Cristina Pereira comparte ciertas deficiencias incendiarias con la Bárbara de Cristina Álvarez, más allá de la coincidencia cabalística en los nombres de sus intérpretes."
🔗 Lee el texto en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/726575221_17917835919390781_4399166472106971886_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=110&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=OB77z4xmAqYQ7kNvwHuzScs&_nc_oc=AdqWTFpqgZlqpdse4B6MoF11Yemxxe-JP_VGLKnCn_HeK1zRGh4pv_99S9LVD-n38Ww&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=haRhli8lVdctMPRXuy_qhQ&_nc_tpa=Q5bMBQGRHrt1E9juJFhXjzs4a7XRhCoDKY2_1HILg8dMG8uWPr04GLtAlGWrd4JJrZTuioaexrSOzwJt&oh=00_AQBIWMX1THsBaHdXNxc1U7uKoGWt2zYOv_SnyILbM2SZag&oe=6A5942FF)








![“Curar não é apenas escolher filmes; [...] é, antes de tudo, um exercício de escuta ao que pede passagem.”
Neste texto, Vanessa Santos defende a curadoria enquanto um campo relacional. Partindo da obra "Le Grand Calao", ela nos convida a romper com a lógica da exaustão e a enxergar o descanso como um gesto radical de resistência.
“Entre afetos, silêncios e partilhas, vai sendo tecida uma ode ao tempo feminino, numa atmosfera que desafia o peso do cotidiano e que irradia o desejo de existir fora das obrigações.”
Para Vanessa, o olhar curatorial é uma construção que atravessa memórias, desejos e a urgência de criar condições de aparecimento para narrativas historicamente marginalizadas. Aqui, programar filmes torna-se um ato de desobediência visual que recusa o fardo e reivindica o prazer.
Uma proposta essencial para quem pensa o cinema como um território vivo de disputas simbólicas e políticas.
🔗 Leia o texto completo em sarayrosa.com
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“Curar no es meramente elegir películas; [...] es, sobretodo, un ejercicio de escucha de aquello que busca abrirse paso.”
En este texto, Vanessa Santos defiende por la curaduría como un campo relacional. Tomando como referencia la obra "Le Grand Calao", ella nos invita a romper con la lógica del agotamiento y a concebir el descanso como un gesto radical de resistencia.
“Entre afectos, silencios y actos de compartir, se teje una oda al tiempo femenino; todo ello en una atmósfera que desafía el peso de lo cotidiano y irradia el deseo de existir más allá de la obligación”.
Para Vanessa, la mirada curatorial es un constructo que atraviesa memorias, deseos y la urgencia de crear las condiciones propicias para el surgimiento de narrativas históricamente marginadas. Aquí, la programación de películas se convierte en un acto de desobediencia visual que rechaza la carga y reivindica el placer.
Una propuesta imprescindible para todo aquel que conciba el cine como un territorio vivo de disputa simbólica y política.
🔗 Lee el texto completo en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/704750670_17913389088390781_5809290323017999812_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=107&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=rFlQnmgF3D0Q7kNvwFU3wrX&_nc_oc=AdqX1JTTzwqfHHvzKICiJqk3cb24wOqmhEQIGqcFq-P-0pVca85R2mTOXismRBuQw_o&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=haRhli8lVdctMPRXuy_qhQ&_nc_tpa=Q5bMBQHzThMjh2crn89L5oSdpKLyTqN_u2s0ErvRRSDzOhq4im8aPQmHFXB4ptFMMq5pl2dwbTeH8_yh&oh=00_AQCIfDdAj15ReAdX1LKfvk3hIpBMwyBUx8LHmqiPHs7sTQ&oe=6A593CB6)



![“Sou um corpo dissidente do (cis)tema de sexo-gênero (…) Habito fronteiras.”
Neste ensaio, @luignascimento parte de si para atravessar o cinema: da ausência de referências à urgência de se ver em cena, das representações estereotipadas à construção de um cinema sapatão brasileiro contemporâneo, feito por quem vive essas experiências.
Entre apagamentos, “in/visibilidades” e narrativas marcadas por violência, o texto revela também as brechas — filmes, gestos e alianças que transformam o cinema em espaço de existência, desejo e criação.
“Há um senso de urgência que acompanha esse desejo […] urgência de falar para nós, por nós, mas também de gritar ao mundo quem somos e quem podemos ser.”
Um mergulho sensível e político em um cinema que se constrói no afeto, na coletividade e na invenção de outras possibilidades de vida.
🔗 Leia na íntegra em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CinemaSapatão #CinemaQueer #CríticaFeminista #CinemaBrasileiro
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Entre las brechas sápatonas en el cine brasileño
Por Lui Nascimento
“Soy un cuerpo disidente del (cis)tema de sexo-género (…) Habito fronteras.”
En este ensayo, Lui Nascimento parte de su propia experiencia para atravesar el cine: desde la ausencia de referentes hasta la urgencia de verse en pantalla, de las representaciones estereotipadas a la construcción de un cine lesbiano contemporáneo en Brasil.
Entre invisibilidades y narrativas marcadas por la violencia, el texto también revela las grietas — películas, gestos y alianzas que transforman el cine en un espacio de deseo, existencia y creación.
“Hay una urgencia […] de hablar para nosotres, por nosotres, pero también de gritar al mundo quiénes somos y quiénes podemos ser.”
Un recorrido sensible y político por un cine que se construye desde el afecto, la colectividad y la invención de otros mundos posibles.
🔗 Lee el texto completo en sarayrosa.com
Imagens dos filmes “Peixe” (2019) de @ygcf_ysmn e “Minha história é outra” (2019) de Mariana Campos](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/693332325_17910936828390781_3741062162069005596_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=101&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=__wByj17uCYQ7kNvwH47BbF&_nc_oc=AdpRrprbjDPR4LMQUPtQSl27smfDXEb3w8zK_iaI2HmyyCkMFvwOqGbW1EtvaMuRhjw&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=haRhli8lVdctMPRXuy_qhQ&_nc_tpa=Q5bMBQGZaY8T0gEg6i0oTRhEQU_Vn1NFJzmjl1k4nRkhsnIZE8f9Qa1nGBLUk6NuAJRka8PiBwt1DFos&oh=00_AQD0jMxNKZabjI9p7kfDqgIl9kqMnF9me7TC2d509d7_Ig&oe=6A593DD2)











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