19º CineBH: Punku e a fantasia amarga da realidade

Por Gi Moraes | Críticas
Este texto é uma colaboração especial entre a plataforma Sara y Rosa e o cineclube Guy-Blaché para cobertura do 19º CineBH.
Punku é o limiar entre o real e o fantástico, no qual a brutalidade da vida atravessa os sonhos de dois jovens, tornando-os tão palpáveis, quanto inalcançáveis. O realismo mágico no cinema latino-americano sempre me interessou e me encheu os olhos. O poder de transformar narrativas cotidianas, muitas vezes dolorosas, em algo extraordinário ou maravilhoso é o que temos de melhor no subgênero da fantasia latina. O filme de abertura do 19ºCineBH , O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, flerta com esses registros e deu o tom de muitos dos filmes aos quais escolhi assistir durante o festival.
Punku, que integrou a Mostra Territórios, o programa competitivo do evento, me fez revisitar, continuamente, os seus detalhes. O filme de Juan Daniel Fernández Molero mistura, a seu modo, a realidade com a fantasia dos povos originários peruanos. A personagem principal, Meshia, pertence a uma comunidade do povo Machiguenga, do interior da Amazônia Peruana, e tem a vida mudada quando, em um passeio com as crianças do povoado, encontra Iván, um garoto sem um dos olhos, que havia desaparecido anos atrás. Meshia decide ajudá-lo a voltar para casa para que ele possa tratar o ferimento. Com seu gesto, ela descobre um novo mundo e novas possibilidades de vida. Em busca de seu sonho de se tornar atriz e vencer o concurso de Miss Sirena, a jovem, que trabalha em um restaurante de conhecidos da família, se torna uma espécie de irmã mais velha e amiga de Iván.
Meshia e Iván, então, enfrentam seus medos e travam suas batalhas. Iván lida com os problemas da ordem do onírico, da mente e de sua conexão com os seres sagrados e profanos da floresta. Já Meshia, com os perigos concretos de ser uma jovem mulher no mundo. Habitando silêncios após o trauma, Iván vive a sensação de não-lugar ao voltar para sua terra após anos perdido. Ele até tenta se enturmar com os amigos de Meshia, mas, com o peso de tentar agradar os outros, o desconforto é palpável. Tudo o que passou, transformando-o em um ser tão entrelaçado ao fantástico, que ele ainda teme, o impede de se relacionar com os adolescentes de sua idade. Meshia, por sua vez, começa a lidar com os olhares alheios, com o medo de andar na rua sozinha durante a noite, e busca através de sua exteriorização, participando do concurso, uma forma de se conectar com as pessoas ao seu redor. Afinal, ao se abrir para o mundo, Meshia tem seus sonhos atravessados pelos desejos dos outros.
O concurso Miss Sirena, de que ela participa, é organizado por homens mais velhos que escolhem qual das meninas será considerada a mais bonita da cidade. Durante as cenas de preparação para o concurso, elas estão sempre sendo observadas por eles e instruídas a atiçar esse olhar do prazer masculino. A partir do jogo de câmera com os reflexos das jovens, que ensaiam a coreografia que devem apresentar diante de um espelho, o filme revela, criticamente, as miradas furtivas e dominantes dos homens.
Johan Carrasco assina a direção de fotografia do filme, um espetáculo à parte. Ele acompanha a falta de linearidade da narrativa experimental do diretor, flutuando entre filmagens analógicas, digitais e vídeos do Tik Tok gravados pela atriz Maritza Kategari, intérprete de Meshia. Além dessa liberdade vinda dos diferentes tipos de captação, há, também, o uso de um filtro preto e branco, que tempera certos planos instigando interpretações e mistérios, como quando Meshia vê seu reflexo no rio ao retornar para cidade, numa contemplação mútua que escancara a opacidade de uma transformação não completamente apreendida. A fotografia, dinâmica, se entrelaça com o roteiro, amplificando sua capacidade de expor as camadas de elaboração dos personagens.
Meshia, especificamente, é desenvolvida com delicadeza e sensibilidade. Ela é muito identificável e amável, algo possível pelo tempo que Juan, também roteirista do filme, teve para se debruçar na sua arquitetura, maturando seu texto. Durante a conversa com o diretor após a exibição, ele relatou como passou anos entrevistando os jovens da cidade de Quillabamba, onde o longa se passa, para que de fato pudesse entendê-los e representá-los da melhor forma.
Punku ganha destaque ao trazer a fantasia para o filme a partir de crenças de povos originários, mostrando não só como ela faz parte da construção do realismo mágico latino-americano, como também do cotidiano popular. A obra resgata narrativas ainda pouco exploradas e cria um portal para culturas que, desde o Brasil, ainda não conhecemos. Molero nos instiga a repensar discursividades eurocêntricas e nos desafia a descolonizar imaginários.




![Em nova entrevista publicada no site, Anna Lia conversa com a cineasta Denise Vieira sobre seu longa de estreia, Sabes de Mim, Agora Esqueça (2026), que foi exibido na Mostra Horizontes da 20ª CineBH.
A conversa mergulha nas visões da diretora sobre o cinema brasileiro feito a partir da periferia e por mulheres. Denise reflete sobre o processo de construção compartilhado com as atrizes, a urgência de redefinir o cinema popular fora dos padrões hegemônicos e a potência de uma criação guiada pela intuição e pelo erótico que vai em contramão da racionalidade:
“[...] o cinema é um jeito de adentrar em coisas que são complexas e ver sentimentos, lados que às vezes são opacos, podendo adentrar outros universos.”
🔗 Leia a entrevista completa em sarayrosa.com
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En una nueva entrevista publicada en el site, Anna Lia conversa con la cineasta Denise Vieira sobre su largometraje de debut, "Sabes de Mim, Agora Esqueça" (2026), que se proyectó en la sección Horizontes de la 20ª edición de CineBH.
La conversación profundiza en la visión de la directora sobre el cine brasileño realizado desde la periferia y por mujeres. Denise reflexiona sobre el proceso de construcción compartido con las actrices, la urgencia de redefinir el cine popular al margen de los estándares hegemónicos y la potencia de una creación guiada por la intuición y lo erótico, que se aleja de la racionalidad:
"[...] el cine es una manera de adentrarse en cosas que son complejas y ver sentimientos, lados que a veces son opacos, pudiendo entrar en otros universos".
🔗 Lee la entrevista completa en sarayrosa.com](https://scontent-sea5-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/849508579_17937437964390781_2655953640829663480_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=108&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=QvrHfJloTAwQ7kNvwEAXY_m&_nc_oc=AdrQXgaoYdnk7Bn2F9l23cjGYLnc0Zf8ZfkLoAF6we5MV2OFh2qTDYckNMxdoi5oxVg&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-sea5-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=-F_Hb9djzLktpJ5jzNtO_A&_nc_tpa=Q5bMBQJSv-cSFC6qu_OoxR4J9HsNBk7vWFHa9dO8VdpIXNmXm6mWW26yF0w5ACXmeJOlVZrjYeEIXIzk&oh=00_AQO_mI6Jd_SwIVDZBxhiMw3VIkbbdlobzAAclbhYiN1ChQ&oe=6ADFAF0F)







![A partir da exibição de "Virtuosas" na 20ª CineBH, em novo texto do site, Nayara Aguiar destrincha como a diretora Cíntia Domit Bittar articula as mecânicas do fundamentalismo religioso no Brasil contemporâneo.
Ao articular a lógica de mercado da fé e a vigilância moral exercida entre as próprias mulheres, o texto investiga as raízes dessa violência e a escolha da linguagem do terror:
"É no pathos específico das políticas afetivas deturpadas do fundamentalismo religioso que nasce um moralismo pungente e, desse moralismo, uma violência [...] fria na engrenagem que a arquiteta, quente nas mãos que as executam — um terror naturalista, afinal, onde mais se travaria um filme do gênero senão em Santa Catarina?”
🔗 Leia a crítica completa em sarayrosa.com
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Tras la proyección de "Virtuosas" en la 20ª Muestra CineBH, Nayara Aguiar diseca en el nuevo artículo en el site cómo la directora Cíntia Domit Bittar articula la mecánica del fundamentalismo religioso en el Brasil contemporáneo.
Al vincular la lógica mercantil de la fe con la vigilancia moral ejercida sobre las propias mujeres, el texto investiga las raíces de esta violencia y la elección del lenguaje del terror:
"Es en el pathos específico de las políticas afectivas deturpadas del fundamentalismo religioso donde nace un moralismo punzante y, de ese moralismo, una violencia que la película de Cíntia Domit Bittar transforma en propuesta: fría en el engranaje que la arquitecta, cálida en la mano que la ejecuta — un terror naturalista, al fin y al cabo, ¿dónde más se libraría una película del género sino en Santa Catarina?"
🔗 Lea la crítica completa en sarayrosa.com](https://scontent-sea5-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/825270038_17934869712390781_1812860770498213797_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=106&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=0OWpA3cyJHoQ7kNvwGxKX_x&_nc_oc=AdrofYt0KIs1v7BqNsDqYxXaUkbDtztkjT8ni5XIzqed9fdBXGZR0OMyzX4c2GEA5zU&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-sea5-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=-F_Hb9djzLktpJ5jzNtO_A&_nc_tpa=Q5bMBQLRwg7qEoEbcB73Lda-pH95irLE2l4cF9A3D8jAH1TqxG_tcsYOpUy-5LzW6pQLGx_ClMyYsjYE&oh=00_AQMWmVnCae-y0aTniH_kHsiiQuSDHVj41gQB2Y4Fgqmuhw&oe=6ADF8BD6)





















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