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19º CineBH: Punku e a fantasia amarga da realidade

  • Foto do escritor: Gi Moraes
    Gi Moraes
  • 11 de nov.
  • 3 min de leitura

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Por Gi Moraes | Críticas


Este texto é uma colaboração especial entre a plataforma Sara y Rosa e o cineclube Guy-Blaché para cobertura do 19º CineBH.


Punku é o limiar entre o real e o fantástico, no qual a brutalidade da vida atravessa os sonhos de dois jovens, tornando-os tão palpáveis, quanto inalcançáveis. O realismo mágico no cinema latino-americano sempre me interessou e me encheu os olhos. O poder de transformar narrativas cotidianas, muitas vezes dolorosas, em algo extraordinário ou maravilhoso é o que temos de melhor no subgênero da fantasia latina. O filme de abertura do 19ºCineBH , O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, flerta com esses registros e deu o tom de muitos dos filmes aos quais escolhi assistir durante o festival.


Punku, que integrou a  Mostra Territórios, o programa competitivo do evento, me fez revisitar, continuamente, os seus detalhes. O filme de Juan Daniel Fernández Molero mistura, a seu modo, a realidade com a fantasia dos povos originários peruanos. A personagem principal, Meshia, pertence a uma comunidade do povo Machiguenga, do interior da Amazônia Peruana, e tem a vida mudada quando, em um passeio com as crianças do povoado, encontra Iván, um garoto sem um dos olhos, que havia desaparecido anos atrás. Meshia decide ajudá-lo a voltar para casa para que ele possa tratar o ferimento. Com seu gesto, ela descobre um novo mundo e novas possibilidades de vida. Em busca de seu sonho de se tornar atriz e vencer o concurso de Miss Sirena, a jovem, que  trabalha em um restaurante de conhecidos da família, se torna uma espécie de irmã mais velha e amiga de Iván.


Meshia e Iván, então, enfrentam  seus medos e travam suas batalhas. Iván lida com os problemas da ordem do onírico, da mente e de sua conexão com os seres sagrados e profanos da floresta. Já Meshia, com os perigos concretos de ser uma jovem mulher no mundo. Habitando silêncios após o trauma, Iván vive a sensação de não-lugar ao voltar para sua terra após anos perdido. Ele até tenta se enturmar com os amigos de Meshia, mas, com o peso de tentar agradar os outros, o desconforto é palpável. Tudo o que passou, transformando-o em um ser tão entrelaçado ao fantástico, que ele ainda teme, o impede de se relacionar com os adolescentes de sua idade. Meshia, por sua vez, começa a lidar com os olhares alheios, com o medo de andar na rua sozinha durante a noite, e busca através de sua exteriorização, participando do concurso, uma forma de se conectar com as pessoas ao seu redor. Afinal, ao se abrir para o mundo, Meshia tem seus sonhos atravessados pelos desejos dos outros. 


O concurso Miss Sirena, de que ela participa, é organizado por homens mais velhos que escolhem qual das meninas será considerada a mais bonita da cidade. Durante as cenas de preparação para o concurso, elas estão sempre sendo observadas por eles e instruídas a atiçar esse olhar do prazer masculino. A partir do jogo de câmera com os  reflexos das jovens, que ensaiam a coreografia que devem apresentar diante de um espelho, o filme revela, criticamente, as miradas furtivas e dominantes dos homens. 


Johan Carrasco assina a direção de fotografia do filme, um espetáculo à parte. Ele acompanha a falta de linearidade da narrativa experimental do diretor, flutuando entre filmagens analógicas, digitais e vídeos do Tik Tok gravados pela atriz Maritza Kategari, intérprete de  Meshia. Além dessa liberdade vinda dos diferentes tipos de captação, há, também, o uso de um filtro preto e branco, que tempera certos planos instigando interpretações e mistérios, como quando Meshia vê seu reflexo no rio ao retornar para cidade, numa contemplação mútua que escancara a opacidade de uma transformação não completamente apreendida. A fotografia, dinâmica, se entrelaça com o roteiro, amplificando sua capacidade de expor as camadas de elaboração dos personagens. 


Meshia, especificamente,  é desenvolvida com delicadeza e sensibilidade. Ela é muito identificável e amável, algo possível pelo tempo que Juan, também roteirista do filme, teve para se debruçar na sua arquitetura, maturando seu texto. Durante a conversa com o diretor após a exibição, ele relatou como passou anos entrevistando os jovens da cidade de Quillabamba, onde o longa se passa, para que de fato pudesse entendê-los e representá-los da melhor forma. 


Punku ganha destaque  ao trazer a fantasia para o filme a partir de crenças de povos originários, mostrando não só como ela faz parte da construção do realismo mágico latino-americano, como também do cotidiano popular. A obra resgata narrativas ainda pouco exploradas e cria um portal para culturas que, desde o Brasil, ainda não conhecemos. Molero nos instiga a repensar discursividades eurocêntricas e nos desafia a descolonizar imaginários.


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