Estradas e desvios curatoriais - As faces da Showgirl
- há 3 dias
- 5 min de leitura

Por Juliana Gusman | Ensaios
Cine Humberto Mauro, março de 2026
A showgirl é uma entidade quase mística que enfeitiça o cinema de tempos em tempos. Este termo, consolidado pelo glamour dos vaudevilles do início do século passado, deu nome e corpo às mulheres que, partindo da commedia dell’arte proto-burlesca da Itália, passando pela boemia francesa institucionalizada pelos cabarés até chegar à plasticidade das folies nova-iorquinas, epitomariam, à primeira vista, objetos fetichizados do “olhar masculino”. Entre os anos 1930 e 1950, os grandes estúdios da Era de Ouro de Hollywood cristalizaram fascínios em torno de um ideal – branco, belo e luminoso –, capaz não apenas de incendiar desejos inconfessos, mas de atiçar paixões nacionalistas em torno da sedutora grandeza de uma nação. This was America.
Contudo, a busca pelo prazer visual – unificador de identidades e patriotismos viris –, discutida pioneiramente pela teórica Laura Mulvey há cinquenta anos, pode se encruzilhar com miradas monstruosas que transformam os homens em pedras. A palavra “fetiche”, afinal, pressupõe encantamentos – mas nem sempre conjura-se magias dóceis. Como Medusas, algumas profissionais da ilusão e do sonho conseguiram mobilizar performances sexuais da hiperfeminilidade em favor dos seus anseios libertários, revelando que a “América” gloriosa que concretizou o imaginário da showgirl, era, ele mesmo, um desatino. Das ruínas do espetáculo patriarcal, criaturas furtivas e desobedientes forjaram outros modos de habitar a luz e a sombra de ribaltas fílmicas.
A mostra As faces da Showgirl propõe uma cartografia de implosões e escombros. Dessa forma, extrapola o universo (aparentemente) suntuoso e redentor de clássicos metacinemáticos como No teatro da vida (Gregory La Cava, 1937), A vida é uma dança (Dorothy Arzner e Roy Del Ruth, 1940), O mundo é um teatro (Robert Z. Leonard, 1941), A morte dirige o espetáculo (William A. Wellman, 1943) ou A Malvada (Joseph L. Mankiewicz, 1951) – que, é verdade, nos piscam pequenas transgressões – para investigar um imaginário alargado da showgirl que se modula do seu extracampo. A personagem de Ninón Sevilla Vítimas do Pecado (Emílio Fernández, 1951), adensa as agruras de artistas em emergência e crise, aqui precarizadas pelas condições de classe impostas às rumberas mexicanas. Já a protagonista wilderiana de A Grande Vedete (Watson Macedo, 1958), interpretada pela anti-dama do teatro de revista do Brasil, Dercy Gonçalves, radicaliza a autoparódia da derrocada imposta às mulheres velhas, que não mais conseguiriam afiançar-se como as quimeras inofensivas de um público faminto por miragens carnais. Mesmo magnífica, falta à Norma Desmond de Gloria Swanson o deboche físico e destrutivo de Madame Janette.
E o que dizer dos deliciosos excessos de Carmem Miranda?
Se podemos, então, “latinizar” a showgirl deslocando-a, geograficamente, do seu centro presumido de origem no cinema, a perspectiva histórica que (des)orienta nossos mapeamentos também endossa a sua mutabilidade a cada década. As peças à la Ziegfeld que inspiraram as obras hollywoodianas dos anos 1930 e 1940 se valiam do lirismo balé clássico para conjugar perigo e pureza, ao passo que Cabaret (1972), de Bob Fosse – autor da peça musical que daria origem a Chicago (Rob Marshall, 2002) –, recorre ao virtuosismo coreográfico e ácido do jazz para dobrar a aposta no risco. Nos anos 1990, Paul Verhoeven abdicaria de qualquer nuance enigmática para desnudar tabus.
Talvez o maior deles seja a vinculação atávica das trabalhadoras sexuais – como as strippers de Verhoeven – ao mundo do entretenimento. Renegadas como proletariadas (e como sujeitos plenos) por uma presumida e falsa alienação política – reiterada, é preciso dizer, pelo pensamento de esquerda e por certos feminismos escusos –, elas sempre flertaram com as artes cênicas. Não me refiro, somente, à natureza performática do ofício: no século XVII, por exemplo, muitas prostitutas recorriam ao teatro numa dupla investida na ascensão social. E não esqueçamos que foram elas as atrizes das comédias eróticas que inauguraram o próprio cinema – eis as showgirls originais das grandes telas. Como a Brie Daniels de Jane Fonda, em Klute (1971), que do consultório de sua analista turva fronteiras morais para afirmar seu controle de todas as práticas fabulativas que se dispõe a fazer, a presença altiva das trabalhadoras sexuais a esta cena fissura barreiras que apenas nos apartam de nós mesmas. Evocando o thriller de Marleen Gorris, a mostra coloca a showgirl diante de “espelhos partidos” que multiplicam, numa mise-en-abyme, as suas faces.
(Num vislumbre acidental, talvez possamos, como espectadoras, nos enxergar nesses reflexos).
Por isso, cotejamos as falas das pornofeministas de Mutantes (Virginie Despentes, 2009), com as confissões das entrevistadas estelares de Seja bela e cale a boca (Delphine Seyrig, 1981); ou nos interessamos nas sintonias entre Seyrig, ela mesma uma musa do cinema francês que decidiu tornar-se diretora, e Norma Bengell, aqui representada pelo curta ensaístico-biográfico Maria Gladys, que inicia sua carreira como vedete para se jogar, a partir dos anos 1980, às barricadas do ainda incipiente, mas obstinado, “cinema de mulheres” do nosso país. Instiga-nos como sua legatária, Marcela Borela, de Atravessa minha carne (2025), retém algo da observação discreta instituída pelo lendário Frederick Wiseman, diretor de Crazy Horse (2011) que fez sua passagem em fevereiro deste ano; mas também a maneira que Marcela, sendo cineasta e bailarina, deixa-se contaminar pela energia vital dos dançarinos que filma. Do antecampo, põe-se a mover por uma espécie de pulsão irresistível, tal qual a personagem de Vicky Page em Os Sapatinhos Vermelhos (Michael Powell e Emeric Pressburger), ou de Amanda Schull, de Sob a luz da fama (Nicholas Hytner, 2000), que inflamaram plateias intra e extradiegéticas com suas sapatilhas cor de sangue.
Ainda, nos interrogamos sobre como os impulsos que levaram Jennie Livingston aos bailes drags de Paris está em chamas nos anos 1990 se fazem vibrar, em meados dos anos 2010, no Teatro Rival de Leandra Leal – outra atriz convertida a diretora –, ou na Babilônia cubana registrada, ainda mais recentemente, pela mineira Duda Gambogi. Os ecos chegam longe, como se soprados pelos ventos quentes que cruzam as paisagens áridas de Los Angeles ou do coração da Austrália, esses palcos insuspeitos. Aliás, as rainhas do deserto evocam, do outro lado do mundo, as realezas carnavalescas de Sabrina Fidalgo e Henrique Arruda. Nesta “curadoria de estrada”, viajante e delirante, a mostra As faces da showgirl percorre mais de um século de imagens e gestos para seguir abrindo as veredas das revoltas femininas, à frente e atrás das câmeras.
Welcome, old chum, ao show e aos bastidores das nossas vidas.
A mostra “As Faces da Showgirl: Desejo e Ruínas” é realizada pelo Ministério da Cultura, Governo de Minas Gerais, Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais e Fundação Clóvis Salgado. As atividades da Fundação Clóvis Salgado têm a Cemig como mantenedora, Patrocínio Master do Instituto Cultural Vale e Grupo Fredizak, Patrocínio Prime do Instituto Unimed-BH, Patrocínio Plus da Vivo, Patrocínio da ArcelorMittal e correalização da APPA – Cultura & Patrimônio. O Palácio das Artes integra o Circuito Liberdade, que reúne mais de 60 equipamentos com as mais variadas formas de manifestação de arte e cultura em transversalidade com o turismo. A ação é viabilizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Vale-Cultura. Governo do Brasil, do lado do povo brasileiro.






















































Comentários