"Se eu tivesse pernas, eu te chutaria": anotações sobre uma ressaca fílmica
- 17 de jan.
- 3 min de leitura

Por Juliana Gusman | Críticas
A Linda de Rose Byrne é uma anti-Ofélia. Bem que ela tenta se afogar para escapar do aprisionamento discursivo e material que lhe confina ao posto amargo (e exaustivo) de mãe ruim. A personagem shakespeariana atira-se em um rio por não encontrar, para seus anseios latentes, “lugar ou palavra”, como diria Maria Rita Kehl. A personagem bronsteiniana, por sua vez, choca-se inutilmente contra as ondas bravas da maré noturna, mas até elas, após sucessivas demonstrações de desprezos humanos, a rejeitam e cospem de volta. O único descanso possível é o fim do filme. Mas é verdade que Linda, como psicanalista, talvez tenha mais ferramentas para lidar com as artimanhas da subjetividade feminina do que Ofélia, after all. Sua sobrevivência torna Se eu tivesse pernas, eu te chutaria um filme otimista?
Se a protagonista consegue, minimamente, verbalizar e sistematizar as suas angústias num divã inóspito, ela, de fato, não sabe como decifrar a própria filha, que se recusa a comer. Talvez por isso Linda devore tudo compulsivamente. É fome por vingança. A criança chutável e invisível reclama, incomoda e berra do extracampo – Bronstein não quer que nos compadeçamos facilmente pela sua condição adoecida ou por possíveis charmes infantis. O marido, como se autoprojeta a masculinidade dominante, é a racionalidade julgadora em estado puro: uma voz desencarnada que não se imiscui na sujeira do cuidado alheio. O nosso pacto ético, político e háptico (e de uma câmera tátil, sempre muito próxima) é com a mãe que tenta escapar dos buracos metafóricos e literais de sua vida: da cratera que se abre no teto do apartamento, forçando-a a se mudar para um quarto de hotel fodido; da ferida na barriga da menina que se alimenta maquinalmente por meio de um tubo, o segundo cordão umbilical; ou da menção sugestiva e assombrosa que tais orifícios fazem ao ducto vaginal que a pariu: Linda deveria tê-la abortado em vez de abdicar da primeira gravidez?, pergunta-se, sem qualquer vestígio de culpa, diante do abismo.
Em seus constantes (e às vezes concretos) atropelos – aqui, nem o hamster, fatalmente acidentado, é boa gente –, Linda é definida pela filha, logo na primeira cena, como “strechable” – flexível, alongável, maleável. Byrne, a seu modo, também revela qualidades elásticas – ela estende e dilata microscopicamente as linhas do seu rosto para tramar universos inteiros.
Na sala de cinema, a arquitetura do som – que não cessa, pois não há silêncios ou vácuos nas alucinações maternas – amplifica angústias, ressoadas coletivamente em risos contidos. O horror e o humor, que desestabilizam a ordem pela via do grotesco, têm lá as suas afinidades incômodas.
No carro, após a sessão, senti o queijo engolido numa só bocada por Linda formando nós na minha garganta. A tal da mágica empática da imagem da qual fala Jaine Gaines, às vezes, é uma maldição. Meu companheiro, o décimo de uma família de onze irmãos, desempoeirou do inconsciente uma crise de pânico e impotência da sua mãe, que uma vez se atirou no chão de casa por puro cansaço. Leonina e jovem viúva, ela retomou o prumo rápido. Não havia fim de filme para lhe resgatar da sina cíclica do trabalho reprodutivo ininterrupto.
O encontro com Se eu tivesse pernas, eu te chutaria sucede minha leitura de Maternidade, de Sheila Heti, e o lançamento da série All her fault (título que ressoa a frase cínica mil vezes recitada no filme de Bronstein), criada por Minkie Spiro. Há de se repesar, os murmúrios feministas me sugerem, a gravidade dos arrependimentos. Sem pernas e sem pesares, talvez Linda pudesse voar.










![No novo ensaio publicado em nosso site, escrito sob o calor da exibição de Vámonos, Bárbara (1978) no Cineclube Ibero-americano Permanente, nesta quarta-feira, dia 17 de junho, Juliana Gusman destrincha como a cineasta espanhola Cecilia Bartolomé tensiona o texto matriz de Martin Scorsese (Alice Não Mora Mais Aqui) através de um exercício de distanciamento formal e discursivo.
Longe de se curvar às estéticas do norte global, o texto de Juliana reafirma a posição do filme na cartografia ibero-americana, costurando cumplicidades com o cinema de ruptura feito por mulheres aqui:
“Talvez Vamos, Bárbara se achegue mais, na verdade, de nosso próprio road movie feminista inaugural, Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina. [...] a Betinha de Cristina Pereira compartilha certas inadequações incendiárias com a Bárbara de Cristina Alvarez – para além da cabalística coincidencia no nome de suas intérpretes.”
Leia mais sobre a diretora e sua obra no ensaio de @juliana.gusman, escrito para o 3º encontro do Cineclube Ibero-americano Permanente, uma parceria entre Sara y Rosa, Cine Humberto Mauro do @palaciodasartes_ e Instituto Cervantes de BH.
🔗 Leia o ensaio completo em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CeciliaBartolome #CinemaFeminista #CríticaFeminista
🇪🇸
En un nuevo ensayo escrito a raíz de la proyección de Vámonos, Bárbara (1978) en el Cineclub Iberoamericano Permanente, Juliana Gusman analiza cómo la cineasta española Cecilia Bartolomé desafía el material de origen de "Alice Doesn’t Live Here Anymore" (de Martin Scorsese) mediante un ejercicio de distanciamiento formal y discursivo, y reafirma el lugar de la película en el panorama de cine iberoamericano, estableciendo vínculos con el cine pionero de mujeres aqui:
"Quizás Vamos, Bárbara acercase, de hecho, a nuestro propio roadmovie feminista inaugural "Mar de Rosas"(1977), de Ana Carolina. Felicidade, el personaje poco convencional de Norma Bengell, es más sombría que Ana y su destino, menos próspero, pero la Betinha de Cristina Pereira comparte ciertas deficiencias incendiarias con la Bárbara de Cristina Álvarez, más allá de la coincidencia cabalística en los nombres de sus intérpretes."
🔗 Lee el texto en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/726575221_17917835919390781_4399166472106971886_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=110&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=YjOaItwkuW8Q7kNvwHbvpUz&_nc_oc=AdrpdR_Mh_j23YUiOjM0e7d8FfqeoUL9UQfu-2Bz-X6nOAVk1zrGRxtj6aecpkLRR9E&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=pNZlIhFeM3-jiUQ1I6gz9A&_nc_tpa=Q5bMBQFUZ0BYpVn_TzMPyAxCY-Lto5HcrSxfx7euVJOdL6IMfLHkSJKla06C3aM9SY6f0biVqi34_6ev&oh=00_AQDq9RZwhWTdPNxuf0DdpfWY2W1hPE2wtrWAr_khmWcLkw&oe=6A62EDFF)








![“Curar não é apenas escolher filmes; [...] é, antes de tudo, um exercício de escuta ao que pede passagem.”
Neste texto, Vanessa Santos defende a curadoria enquanto um campo relacional. Partindo da obra "Le Grand Calao", ela nos convida a romper com a lógica da exaustão e a enxergar o descanso como um gesto radical de resistência.
“Entre afetos, silêncios e partilhas, vai sendo tecida uma ode ao tempo feminino, numa atmosfera que desafia o peso do cotidiano e que irradia o desejo de existir fora das obrigações.”
Para Vanessa, o olhar curatorial é uma construção que atravessa memórias, desejos e a urgência de criar condições de aparecimento para narrativas historicamente marginalizadas. Aqui, programar filmes torna-se um ato de desobediência visual que recusa o fardo e reivindica o prazer.
Uma proposta essencial para quem pensa o cinema como um território vivo de disputas simbólicas e políticas.
🔗 Leia o texto completo em sarayrosa.com
#SarayRosa #VanessaSantos #Curadoria #CinemaNegro #PoliticasDoOlhar #LeGrandCalao
🇪🇸
“Curar no es meramente elegir películas; [...] es, sobretodo, un ejercicio de escucha de aquello que busca abrirse paso.”
En este texto, Vanessa Santos defiende por la curaduría como un campo relacional. Tomando como referencia la obra "Le Grand Calao", ella nos invita a romper con la lógica del agotamiento y a concebir el descanso como un gesto radical de resistencia.
“Entre afectos, silencios y actos de compartir, se teje una oda al tiempo femenino; todo ello en una atmósfera que desafía el peso de lo cotidiano y irradia el deseo de existir más allá de la obligación”.
Para Vanessa, la mirada curatorial es un constructo que atraviesa memorias, deseos y la urgencia de crear las condiciones propicias para el surgimiento de narrativas históricamente marginadas. Aquí, la programación de películas se convierte en un acto de desobediencia visual que rechaza la carga y reivindica el placer.
Una propuesta imprescindible para todo aquel que conciba el cine como un territorio vivo de disputa simbólica y política.
🔗 Lee el texto completo en sarayrosa.com](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/704750670_17913389088390781_5809290323017999812_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=107&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=PQnoY6BUrcsQ7kNvwHH-5Tz&_nc_oc=AdpO33IHUrGNzZW0ZyHPvq-dgT_IucavW3nX9lFAvrOIL3PjgybF17MuunIE6paZlSY&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=pNZlIhFeM3-jiUQ1I6gz9A&_nc_tpa=Q5bMBQHHW1LFGejgHodgxyQ6moFN7SWfcOypVUhF2qNwDqxvQLbUrl51vSqqwlCC4-Ln-QHt35kJhDyD&oh=00_AQA7A9uJr__Ru5P26xL-cNVMrUwWHDQI5e--ZvSMowK7KQ&oe=6A62E7B6)



![“Sou um corpo dissidente do (cis)tema de sexo-gênero (…) Habito fronteiras.”
Neste ensaio, @luignascimento parte de si para atravessar o cinema: da ausência de referências à urgência de se ver em cena, das representações estereotipadas à construção de um cinema sapatão brasileiro contemporâneo, feito por quem vive essas experiências.
Entre apagamentos, “in/visibilidades” e narrativas marcadas por violência, o texto revela também as brechas — filmes, gestos e alianças que transformam o cinema em espaço de existência, desejo e criação.
“Há um senso de urgência que acompanha esse desejo […] urgência de falar para nós, por nós, mas também de gritar ao mundo quem somos e quem podemos ser.”
Um mergulho sensível e político em um cinema que se constrói no afeto, na coletividade e na invenção de outras possibilidades de vida.
🔗 Leia na íntegra em sarayrosa.com
#SaraYRosa #CinemaSapatão #CinemaQueer #CríticaFeminista #CinemaBrasileiro
🇪🇸
Entre las brechas sápatonas en el cine brasileño
Por Lui Nascimento
“Soy un cuerpo disidente del (cis)tema de sexo-género (…) Habito fronteras.”
En este ensayo, Lui Nascimento parte de su propia experiencia para atravesar el cine: desde la ausencia de referentes hasta la urgencia de verse en pantalla, de las representaciones estereotipadas a la construcción de un cine lesbiano contemporáneo en Brasil.
Entre invisibilidades y narrativas marcadas por la violencia, el texto también revela las grietas — películas, gestos y alianzas que transforman el cine en un espacio de deseo, existencia y creación.
“Hay una urgencia […] de hablar para nosotres, por nosotres, pero también de gritar al mundo quiénes somos y quiénes podemos ser.”
Un recorrido sensible y político por un cine que se construye desde el afecto, la colectividad y la invención de otros mundos posibles.
🔗 Lee el texto completo en sarayrosa.com
Imagens dos filmes “Peixe” (2019) de @ygcf_ysmn e “Minha história é outra” (2019) de Mariana Campos](https://scontent-den2-1.cdninstagram.com/v/t51.82787-15/693332325_17910936828390781_3741062162069005596_n.jpg?stp=dst-jpg_e35_tt6&_nc_cat=101&ccb=7-5&_nc_sid=18de74&efg=eyJlZmdfdGFnIjoiQ0FST1VTRUxfSVRFTS5iZXN0X2ltYWdlX3VybGdlbi5DMyJ9&_nc_ohc=vVhKdCf0HZQQ7kNvwEyU6PG&_nc_oc=AdoqZ6muNLAORBb7L8x39jeKOnJ0ajGtdBZcbRdx-Sd-HroWL7YK69N3a21XC-hF0kw&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent-den2-1.cdninstagram.com&edm=ANo9K5cEAAAA&_nc_gid=pNZlIhFeM3-jiUQ1I6gz9A&_nc_tpa=Q5bMBQFZsmH13E9Q-AtNg8iO4UlCjAJ_XBI9V_57AoDuQS_C1YMhx7vVkoxYMBsIWjXjmfk-M-Vsz20m&oh=00_AQBW9RpJo72HQYIvlfIgavGlnCUZlaHNSxotDTOjSuVSGQ&oe=6A62E8D2)










Comentários